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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

Há um homem que anda pelo país a levar poesia às prisões. E até os mais durões se emocionam

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Esta é a história de um homem que escapou ao lado marginal da vida por um poema de Baudelaire. Este é o testemunho de um contador de histórias que anda há 13 anos a levar a palavra dos poetas às prisões de norte a sul do país. Porque acredita que a poesia liberta e nos pode tornar melhores pessoas. Percam algum tempo a ouvi-lo. Ganharão o dia e muita, muita poesia. Um relato emocional e admirável para ouvir neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

O que resta quando nos tiram tudo? O que nos salva quando o mundo parece estar todo contra nós? Todos os dias erramos. Errar é humano e até necessário para sabermos acertar. Mas há erros maiores (piores) que se pagam caro. E que, por vezes, levantam grades e muros para nos redimirmos do mal. Ou do deslize. O que resta quando nos tiram tudo? Talvez a palavra. Talvez a poesia. Talvez a chegada de alguém que nos ouve e nos ampara. Pode a poesia salvar-nos?

Filipe Lopes, 40 anos, acredita nisso. Ele que é contador de histórias serve sonho e poesia em doses generosas a quem tem fome de liberdade, de amor, de horizonte, de esperança e redenção. Há 13 anos que Filipe faz magia. Tira poemas da cartola e leva-os às prisões no projecto “A Poesia Não Tem Grades”. A leitura é a sua forma de viver — entre bibliotecas, escolas, hospitais e prisões. A poesia, uma forma de olhar e interpretar o mundo. E, sublinhe-se, Filipe lê poesia de uma forma belíssima, dá peso, paisagem e corpo a cada palavra. Poderá ouvi-lo a dizer inúmeros poemas ao longo deste episódio.

E tudo custa menos quando há palavras bonitas, ou duras, viscerais que chegam a lugares que poucos alcançam e nos libertam. Aconteceu o mesmo a Filipe. Um dia um poema mudou-lhe a vida. “Devemos andar sempre bêbedos”, do poeta boémio Charles Baudelaire foi o texto que o abalou. E o salvou do lado marginal da vida. Mas com quê? – perguntava o poeta. “Com vinho, virtude e poesia!”

Qual a maior virtude da poesia? “A poesia é um caminho para nos descobrirmos. É isso que eu sinto claramente. A poesia permite-nos abrir caminhos dentro de nós para que nós possamos ter essa liberdade. Para sabermos um pouco mais do que somos e para onde é que queremos ir. A poesia dá-nos essa possibilidade de sermos melhores pessoas se nós quisermos ser pessoas melhores. Porque temos a liberdade de não querermos ser pessoas melhores.”

Filipe que, de momento, faz estas visitas às prisões de forma voluntária, sem qualquer apoio económico, procura parcerias com empresas e entidades para que o projecto tenha futuro. Porque, como escreveu Baudelaire, “todo o homem saudável consegue ficar dois dias sem comer — Sem a poesia, jamais!“. E porque os presos de hoje, poderão ser os nossos futuros vizinhos amanhã e é responsabilidade da sociedade, de todos, não lhes virar as costas para que possam sair dos estabelecimentos prisionais mais preparados para viver em sociedade.

“Acredito que a poesia, a literatura, nos consegue transportar para outros lugares, que nos conseguem dar sensações muito boas. Há uns anos um recluso disse-me uma coisa que me marcou, depois de eu ter lido o tal poema de Baudelaire. Contou-me que estava na prisão porque tinha tido problemas com drogas e que estava a tentar ver-se livre desse vício dentro da prisão — o que como podemos imaginar não é fácil — mas que lá dentro tinha descoberto um outro vício. Tinha descoberto o vício dos livros e da leitura. E que, ao ler alguns textos, tinha sentido sensações tão boas como quando tinha tomado algumas substâncias. Isso ficou-me muito marcado. Porque é exactamente isso que eu quero passar.” E diz mais. Filipe acredita sobretudo que quem adquire hábitos de leitura ganha asas e maiores horizontes. “No trabalho que eu faço com os reclusos, digo-lhes muita vez que quanto mais conhecermos, quanto mais nós soubermos, mais fácil é que os outros não nos manipulem, que os outros não nos enganem. Quanto mais palavras nós conhecermos mais fácil é se estivermos frente a um juiz (que vai decidir sobre a nossa liberdade condicional) consigamos utilizar as palavras mais correctas, mais adequadas para que a nossa posição, por mais justa que seja, possa ser melhor entendida. Se nos atrapalharmos todos e não soubermos as palavras mais adequadas se calhar é mais difícil que a mensagem passe.”

As sessões de leitura de Filipe duram 90 minutos e passam num instante. Durante esse momento partilham-se histórias (a maioria delas pesadas, dramáticas), libertam-se lágrimas, descobrem-se gostos e vocações. Filipe sabe muito bem como os seduzir para a poesia. “Começo por perguntar quem gosta de futebol, cinema, música e poesia. Quase toda a gente gosta de tudo menos poesia. Mas todos gostam de música. E quando eu desmonto, e mostro que quase todas as músicas contêm um poema, que é a letra da canção, digo-lhes: “Ah! Afinal vocês gostam de poesia!” Isto parece básico e simples, mas é o clique suficiente para que me dêem o benefício da dúvida. E para que, a partir daí, possamos ter um diálogo a par.”

Estas sessões são, como conta Filipe, uma montanha russa de emoções. Há poemas que vão directamente ao estômago e ao coração dos reclusos, sem aviso prévio. E atingem mesmo os mais durões que acabam por se abrir e entregar. O que é admirável. “Muitas vezes temos pessoas a chorar durante a sessão. Em tempos estive a conversar com um grupo de reclusos sobre como é que se chora dentro de uma cadeia? E foi muito interessante ouvir um deles dizer ‘ sim, nós choramos. Se calhar não choramos à frente dos outros, mas todos choramos. Não há ninguém que passe por um sítio destes e que não chore’. Aquelas sessões são catárticas. É um momento fabuloso em que consigo pôr aqueles homens, alguns grandes e tatuados, que cometeram crimes, a chorar. Num lugar onde é importante passar a virilidade, a poesia vai buscar a forma de expressarem os sentimentos. E há muita gente a começar a escrever e a ler na prisão. Às vezes, escrevem poemas e contos magníficos. Outros desenham, pintam. Pessoas que nunca tiveram essa oportunidade e tempo cá fora.”

Filipe Lopes tem cerca de 150 textos na manga. Não entra nas prisões com livros, mas com folhas, por ser mais prático de passar pelos seguranças e grades. Os poetas que o acompanham sempre são Eugénio de Andrade, Florbela Espanca, Mário-Henrique Leiria, Alberto Pimenta, António Lobo Antunes, Fernando Pessoa, Jorge de Sena e... José Luís Peixoto. E é um certo poema de Peixoto — o “Cinco à mesa” — que comove sempre os grupos de reclusos. Porque fala de algo que todos sentem na pele, a ausência. “É extremamente marcante. É difícil fugir a ele. É um poema muito interessante e muito forte sobre a perda. No caso autobiográfico do José Luís, a perda do pai. Mas que consigo transportar para aquele ambiente [da prisão]. Cada um deles [dos reclusos] é um lugar vazio numa mesa de alguém...“.

Uma das razões para Filipe ser tão bem aceite pelos reclusos, é porque os visita sem preconceitos, ideias feitas ou sobranceria. São pessoas que erraram. Filipe acredita que poderia ter sido ele. Ou qualquer um de nós e vós. “O que se vê nas séries ou nos filmes é ficção. Eu não sou melhor do que eles. Quase todos nós podíamos estar lá por uma razão ou por outra. Certamente toda a gente conhece casos, como eu conheço, de pessoas que cometeram crimes às vezes por uma vingança quase justificável. Nunca é justificável fazer justiça pelas próprias mãos, mas todos nós temos alguma simpatia por algumas situações que talvez nos levassem a fazer o mesmo se fossemos confrontados com isso, com uma situação de um familiar, de um filho. Há muita coisa que pode acontecer nas nossas vidas e tornar-nos nessas pessoas que falham e que os levam para trás das grades.”

Filipe é um herói solitário, mas procura mais cúmplices para este projecto que tem transformado vidas. E neste episódio conta algumas histórias partilhadas nas prisões e sobre algumas profundas mudanças de ex-reclusos — podem ouvir-se alguns sons de reclusos cedidos pela RTP. E, no final, Filipe fala um pouco de si. De como aos 40 anos está mais fiel a si próprio e ao que quer para a sua vida. Sem se preocupar com o olhar dos outros. Sempre com a poesia na voz, nos olhos e no coração.

Deixamos-lhe aqui um poema de Herberto Hélder com que pode acompanhar este episódio e que tanto tem a ver com o que é contado neste episódio.

“Quem é que está continuamente a salvar-me — De que medo, de que perigo, de que desastre? Mas só quando me não perco é que me afundo na água primeira de onde venho, no sal primeiro de onde venho, e chego a este pouco onde — tão pouco! — me começo, me acabo, e me salvo”

E ainda a lista dos poemas que são lidos durante a conversa, por ordem:

"Chamada Geral", de Mário-Henrique Leiria

"Devemos Andar Sempre Bêbados", de Charles Baudelaire

“Em Linha de Conta”. José Carlos Barros com Otília Monteiro Fernandes

"Na Hora de Pôr A Mesa", de José Luís Peixoto

"Às Mulheres, No Que Me Diz Respeito", DH Lawrence.

“Lisbon Revisited”, de Álvaro de Campos

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.