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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

A loja do Carlos é como na vida. Eles acham que mandam (e compram) mas elas é que decidem

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O episódio desta semana foi gravado numa loja de pronto a vestir masculina. Porque há lugares onde passa o mundo e que contam a história de um arquipélago. Carlos Sá, de 54 anos, é o proprietário da ‘Londrina’, uma das mais antigas e castiças lojas de comércio tradicional de Ponta Delgada, em São Miguel, nos Açores. Carlos dá ares de Marlon Brando, em ‘O Padrinho’, mas sem o bigodinho malandro e um jeito bem mais bonacheirão. Nascido numa família pobre, entre sete irmãos, teve que se fazer cedo à vida. Começou como moço de recados e limpa vidros e hoje dita a moda de rapazes e cavalheiros de barba rija. E, claro, tem os seus truques de negociante na manga. Se eles vierem acompanhados das suas senhoras, Carlos coloca-se (sempre) do lado delas.“Depois da mulher dizer qual o fato que mais gosta, tenho que me inclinar para o lado dela. Para que a compra seja feita. Elas é que mandam!” Uma conversa com sotaque, bom humor e sabedoria para ouvir no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Antes da nossa conversa arrancar, um rapaz chega com a namorada ao balcão da Londrina — a loja de roupa masculina mais popular e castiça de Ponta Delgada, em São Miguel, nos Açores. O tipo diz que vai a um casamento e precisa de um blazer ‘à maneira’ para fazer boa figura. Mas não sabe bem o que quer. Carlos Sá propõe-lhe um fato completo. A namorada que o acompanha aprova a ideia.

O cliente experimenta então umas calças e um casaco azul escuro, moderno, ‘slim fit’ (daqueles que são mais justos, enquanto a barriga não acusa as cervejas e comezainas). “Esta camisa branca fica aí um luxo”, aposta Carlos junto ao espelho. “As camisas brancas ficam com nódoas de suor.”, comenta a namorada do cliente. Carlos que segurava na dita camisa branca, troca-a de imediato por uma azul. Se por regra ‘o’ cliente tem sempre razão, ‘a’ cliente é Deus na terra. Há muito que aprendeu que as mulheres não devem ser contrariadas quando estão a aperaltar os seus companheiros, para que a compra se efectue. E efectou-se, claro está. “É simples. Se entrar o marido com a mulher, depois da mulher dizer qual o fato que mais gosta, tenho que me inclinar para o lado dela. Elas é que mandam. Porque se eu for pelo lado dele e a mulher não gostar, não vai haver compra nenhuma."

Carlos começou cedo no ofício para ajudar a família e os seis irmãos. Aos 13 anos arrumou os berlindes para ser moço de recados e limpar os vidros de estabelecimentos. Carlos recorda-se que nesses tempos, como o dinheiro escasseava, a vida era feita à base da troca de produtos. “Se eu queria um gelado o meu pai, que trabalhava na terra, trocava maçarocas de milho por esse gelado. Durante os anos 60 e 70 aqui na ilha faziam-se muitas dessas trocas de produtos. As senhoras geriam assim as suas coisas. Uma dava os ovos, outra o açúcar e a manteiga. O dinheiro não era usado, porque não havia. Hoje dás-me uma galinha, amanhã dou-te ovos e açúcar ou banha de porco, enchido, morcela, chouriço, feijão. Tudo feito com o que as pessoas produziam e cultivavam em casa. E funcionava bem.”

Nestes 42 anos muita coisa mudou. As modas são outras e, para contornar a crise e chamar a atenção da clientela, Carlos já experimentou ter modelos vivos na vitrine. E foi um sucesso. “Desafiei um mulato cheio de cabedal para usar uns boxers brancos na minha montra. Ele aceitou. As pessoas queriam entrar para ver se era real, comentavam, umas meninas queriam apalpá-lo. E um monsenhor da terra (sacerdote), veio dizer-me que aquilo tinha sido um escândalo.”

Este é um aperitivo para uma conversa com sotaque, de coração aberto, feita de coisas simples (como as melhores partilhas podem ser) e muitas histórias de São Miguel para partilhar.

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.