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A Beleza das Pequenas Coisas

Júlia, a primeira transexual dirigente de um partido português: “O medo de ser assassinada acompanha-me"

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Júlia Pereira tinha apenas 15 anos quando a transexual Gisberta foi assassinada no Porto por um grupo de rapazes. Foi há dez anos. Demorou tempo a digerir, mas o que sentiu foi sobretudo medo. Os assassinos de Gisberta eram um grupo de jovens adolescentes, com mais ou menos a sua idade. Podiam ser os seus colegas de turma, os que a insultavam, lhe chamavam nomes, cuspiam para cima, atiravam pedras por ser diferente, por ser uma menina apesar de ter nascido com corpo de menino. Júlia é hoje uma mulher de corpo e alma. Aos 25 anos é a primeira dirigente transexual de um partido político — integrou no ano passado as listas do Bloco de Esquerda pelo círculo eleitoral de Setúbal. Afirma que o medo e a discriminação a acompanham todos os dias, diz estar com dificuldade em arranjar emprego e pede uma mudança na lei para que cada um possa escolher livremente mudar de sexo. Este é o ponto de partida para uma conversa íntima e sem preconceitos neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Este episódio arranca com um poema. As palavras são de Florbela Espanca. A voz é da ativista transexual Júlia Mendes Pereira. Que se identifica naquela personagem atormentada, incompreendida, mal amada, desajustada da sociedade. Porque há dores que são universais por mais que as histórias destas duas mulheres sejam diferentes.

Júlia nasceu há 25 anos num corpo masculino. Coragem e determinação sempre foram os seus nomes do meio, mesmo quando ninguém estava do seu lado. Desde muito nova soube que a sua identidade não correspondia ao género que lhe fora atribuído à nascença. Júlia, que tem um especial gosto pela literatura e pela escrita, toma para si as palavras da escritora Simone de Beauvoir para melhor traduzir o seu processo de transformação: “Ninguém nasce mulher, nós tornamo-nos mulheres!” (‘On ne naît pas femme, on le devient’). É essa a sua experiência de vida. “Fui-me tornando mulher à medida que fui crescendo e percebendo que tudo o que estava para trás significava que eu era mulher. Claro que desde a infância eu sabia que isso estava em mim.”

Na adolescência começou a gritar por ajuda até que a família, os médicos e a sociedade a reconhecessem como mulher. Quis ser ouvida, tomar hormonas, fazer cirurgias, para passar a ter um corpo que se adequasse ao género que sentia ser o seu. Antes que a puberdade sublinhasse o desconforto que sentia. Mas demorou tempo. Demasiado tempo.

Foi vítima de bullying por parte dos colegas, os pais insistiam que estava a passar uma mania passageira, e cresceu isolada num turbilhão de emoções sem ter alguém que a percebesse e ajudasse. “Na escola era expectável que eu fosse um dos alunos e eu não era um dos alunos. Eu era uma das alunas. Sobretudo o que eu senti ao longo do meu percurso era que toda a gente fechava os olhos [à minha situação]. Ninguém queria encará-la e resolvê-la. Passavam-me sempre a ideia de adiá-la. Diziam-me: ‘Acaba primeiro a escola.’ Ora isto revela muita ignorância. Pensam que podem congelar a nossa vida, enquanto assumimos compromissos tão importantes como terminar a escolaridade obrigatória. Isto é completamente oposto a qualquer ideia de educação e de formação. Não se pode educar as pessoas para a cidadania, sem considerar a identidade dessas pessoas que está em formação na adolescência quando estamos a terminar a escolaridade obrigatória.”

Júlia Pereira, atual diretora da Ação Pela Identidade – API, organização não-governamental para a defesa e o estudo da diversidade de género e de características sexuais, chama a atenção para o principal problema da sociedade para este tema: “Continuamos com o paradigma de olhar para as identidades ‘trans’ e de diversade de género como uma patologia e fechamos olhos à verdadeira patologia que está na nossa sociedade que é a transfobia. É essa que temos de diagnosticar uma vez por todas e começar a curá-la para o bem de todos e todas.”

Dez anos passados desde o assassinato de Gisberta, Júlia diz que o medo ainda a acompanha. “Tenho medo de ser morta. Um medo que vai continuar a acompanhar-me até ao final dos meus dias, porque a luta contra a transfobia é uma luta constante que não acaba com uma campanha ou uma lei. É algo que vai ter que se fazer até que deixem de acontecer casos como a da Gisberta. Tudo o que foge à norma continua a ser julgado e esse julgamento muitas vezes leva à morte, ao assassinato.”

A ativista que fez história como a primeira dirigente transexual de um partido político e que no ano passado integrou as listas do Bloco de Esquerda para a Assembleia da República, pelo círculo eleitoral de Setúbal, exige uma mudança na lei. “Cada um deve saber se é homem, mulher ou neutro. O procedimento devia ser baseado exclusivamente na auto-determinação, naquilo que é a vontade da pessoa”, como já acontece em países como a Argentina, Irlanda, Malta ou Dinamarca. E confessa a grande dificuldade que tem tido em arranjar emprego por discriminação. "Neste momento estou a viver do rendimento social de inserção, é com ele que sobrevivo durante o mês que é de 170 e pouco. Vivo de favor porque não posso pagar a renda [de casa] e reduz-se as necessidades ao básico. Sou licenciada, tenho um nível profissional acima da maioria dos portugueses, mas não tem sido suficiente. Nunca me foi negado diretamente o trabalho, mas sei que já fui preterida em certos trabalhos por causa da minha condição e das minhas ideias políticas, apesar de saber ter melhor formação para desempenhar determinados papéis [do que os outros candidatos]."

A conversa depois solta-se para outros temas, fala-se de música, de cinema, de poesia, de amor, até ao desejo maior que Júlia tem em ser escritora.

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.