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A Beleza das Pequenas Coisas

O fotógrafo que arriscou a vida para mostrar que ainda há crianças escravas e acorrentadas

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O ano passado o fotojornalista da agência Lusa tirou uma licença sem vencimento, foi por conta própria para o Senegal no encalço de crianças talibés e testemunhou um cenário de terror. Fotografou meninos acorrentados, chicoteados, obrigados a pedir esmola sob ameaça de morte de falsos professores corânicos. A meio da reportagem, Mário foi perseguido, correu risco de vida, mas escapou e mostrou ao mundo retratos de denúncia que lhe valeram, aos 28 anos, três grandes prémios de fotografia no espaço de dois meses: O World Press Photo, na categoria Temas Contemporâneos, o Pictures of The Year Internacional (3º lugar) e o Estação Imagem — o maior prémio do fotojornalismo português. Mário quer continuar a usar a máquina fotográfica como arma para denunciar realidades que gritam por mudança e ajuda. Este é o mote para uma conversa lúcida e apaixonada neste episódio do podcast "A Beleza das Pequenas Coisas"

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Aviso: O que vai ouvir de seguida neste podcast pode chocar algumas pessoas mais sensíveis. Mas consideramos importante ouvir pela voz de quem testemunhou a prova de que ainda hoje, em pleno século XXI, existem países, não muito distantes de nós, que desrespeitam completamente os direitos fundamentais das crianças e as tratam pior do que bichos perante a inércia de um governo e da comunidade internacional.

Mário Cruz, 29 anos, fotojornalista da agência Lusa, é um fotógrafo destemido que acaba de vencer três dos maiores prémios de fotografia pelo seu trabalho “Talibés, Escravos dos Tempos Modernos”. Nele expõe através das suas fotografias como milhares de crianças são levadas da Guiné-Bissau para falsas escolas muçulmanas no Senegal, onde são escravizadas por igualmente falsos professores corânicos que em vez de as educarem as obrigam a pedir esmola nas ruas. Neste episódio ele conta como tomou contacto com esta realidade e começou a preparar o seu trabalho de denúncia. “O meu primeiro contacto com esta realidade foi em 2009. Estava na Guiné Bissau ao serviço da Agência Lusa. Na altura ouvi muitas histórias que crianças que andavam a desaparecer. E já se supunha que fossem para o Senegal... para serem escravas.”

Passados uns anos decidiu que queria saber mais sobre o assunto, após ter documentado vários temas sensíveis no nosso país — foi premiado em 2014 com o Prémio Fotojornalismo Estação Imagem Mora com “Cegueira Recente”e, no ano seguinte, foi seleccionado para o “30 Under 30” da Magnum com “Roof” trabalho sobre sem abrigo que ocupam casas abandonadas em Lisboa.

“Estive seis meses a investigar toda a realidade Talibé. E depois de desenvolver contactos que me permitissem entrar nestas redes criminosas onde estão aprisionadas mais de 50.000 crianças em todo o país fui para lá. Tirei uma licença sem vencimento durante dois meses, não havia outra forma [de fazer este trabalho]. Foi essa licença sem vencimento que me permitiu viajar até ao Senegal e à Guiné Bissau. [A Guiné Bissau] é o país que mais sofre com o tráfico de crianças precisamente para este fenómeno. Como é óbvio toda aquela investigação e preparação ajudou imenso para a realização do trabalho. Mas verdade seja dita nunca poderia estar totalmente preparado para tudo aquilo que vi, que presenciei.”

Mário Cruz fica com um peso diferente na voz sempre que recorda o que viu. Na altura, a sua única arma era fotografar e conseguir escapar daquele sítio com as provas de denúncia. “Vi crianças a serem chicoteadas à minha frente, vi crianças acorrentadas. E quando digo crianças, são crianças entre os 5 e os 15 anos. E que permanecem nesta situação durante muitos e muitos anos até conseguirem fugir. Ou então tornarem-se no seu pior pesadelo. Que é tornarem-se num “Marabu” que é o guardião deles, um falso professor corânico. [Alguns] acabam por se tornar naquilo que mais odiaram toda a vida. Porque a única coisa que estas crianças conhecem, ao longo dos anos, é violência e medo.

Vi uma parte da sociedade que gostava de não ter conhecido. Mas ainda bem que conheci porque acredito de depois de ter fotografado o que fotografei essa parte poderá mudar.”

Talibé significa “discípulo” em árabe e esta realidade é uma versão deturpada e criminosa de uma tradição muito antiga da região. Que originalmente era uma respeitável forma de educação.

“O que aconteceu foi que na última década mudou completamente a génese dessa tradição. Anteriormente as crianças teriam que pedir [esmola] durante uma hora por dia, mas era para o seu material escolar, para a sua própria educação, para o bem da escola. E todo o resto do tempo dos seus dias seria passado a estudar. O que acontece agora é exactamente o contrário. Passam oito horas por dia a pedir dinheiro. E nenhum desse dinheiro é para eles ou para os seus estudos. E não estudam nada. O que deveria ser uma escola é um espaço de tortura. O que deveria ser uma forma de educação é uma forma de exploração.”

A partir daqui a conversa dispara para outros voos. Fala da sua infância, da influência do pai fotógrafo, dos muitos sonhos que tem e das músicas que o inspiram. Mas não é nada manso sobre o estado atual do jornalismo. É ouvir para conhecer e refletir.

Se quiser conhecer algumas das fotos desta grande reportagem de Mário Cruz — “Talibés, os escravos modernos” — pode visitar a exposição do World Press Photo (premiado na categoria “Temas Contemporâneos”) no Museu da Electricidade, de 28 de Abril a 22 de Maio deste ano.

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.