Siga-nos

Perfil

Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

O humorista da Buraca que dá conselhos sexuais pela internet

  • 333

Há dois anos, Guilherme Duarte cansou-se da vida de executivo que levava, despediu-se do emprego e fez uma longa viagem de comboio pela Europa. No regresso começou a escrever humor no blogue “Por Falar Noutra Coisa”. Desde então ultrapassou os cinco milhões de visualizações, conta com mais de 125 mil seguidores, anda pelo país a fazer ‘stand up comedy’ e publicou um livro que vai na segunda edição. Por falar nisso, no site, Guilherme adota a personagem “Doutor G” onde, com deliciosas larachas à mistura, dá conselhos sexuais e emocionais aos leitores. E não falta quem queira esclarecer assuntos do foro íntimo. Porque a brincar, a brincar se dizem as maiores verdades. O que é certo é que razões para rir (e refletir) não faltam neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Guilherme Duarte tem nome de queque, é branco, torce pelo Sporting, mas vive desde sempre na Buraca, na zona da Amadora. O humor começa aí. E, desde muito novo, aprendeu que fazer rir era bom para desarmar gandulos armados em maus que sempre abundaram naquelas paragens. Ah! E é “ cinturão branco de jiu-jitsu, coisa que vale tanto, em termos de defesa pessoal, como ter herpes.”

Durante anos, Guilherme trabalhou numa grande consultora informática, era um executivo ‘geek’ bem-sucedido, mas fartou-se da vida que levava e despediu-se. Para arrumar a cabeça durante dois meses lançou-se numa viagem de comboio pela Europa. E levou consigo uma missão, encontrar os melhores artistas de rua, submetidos a votação online. No regresso encontrou também um artista em si.

E é quando começa a escrever humor no seu blogue “Por Falar Noutra Coisa” que, em dois anos, se tornou um dos bloggers mais lidos do país, e que resultou num livro com uma selecção desses textos que vai na segunda edição.

A fórmula é dar a sua opinião sobre os temas quentes da semana, das figuras do social aos políticos, com humor da melhor lavra, passando mensagens inteligentes e relevantes. Seja sobre o aborto, o cancro, a violência doméstica, a homofobia ou o lamentável que é existirem figuras públicas que vivem à custa do desespero e da fé cega das pessoas. (Aqui faz um especial destaque a Alexandra Solnado e às suas alegadas conversas com Jesus)

Guilherme, com 32 anos “em cima dos ombros”, está a afirmar-se também como artista de “stand up comedy” com o grupo Red Light Comedy. Embora diga que é a sua zona de maior desconforto e que ainda está à procura do seu estilo próprio em palco. Para chegar onde chegou tirou vários cursos de escrita de humor. Um dos seus mentores foi Rui Sinel de Cordes, conhecido pelo seu humor negro, que divide gostos e opiniões. “Agrada-me o humor que ele faz. Não de tudo. E enquanto formador é excelente. Quanto a mim, muita gente acha que eu faço humor negro porque se lembram mais das bujardas que eu mando, mais soltas. E aí sim, mais negras. Diria que é apenas uma em dez. Mas claro que são essas que ficam mais marcadas. O principal numa piada de humor negro não pode ser chocar, mas fazer rir.”

Um dos assuntos que mais têm dado que falar na sua página de humor são os que remetem para a personagem “Doutor G”. ‘G’ de Guilherme, ‘G’ de Ponto G, G de guru, G de conselhos e opiniões grátis. Enquanto Doutor G, Guilherme assume a personagem de um especialista na vida sexual e emocional dos seus leitores. E, ironicamente, são muitos os pedidos de ajuda de pessoas que querem pedir conselhos sobre assuntos do foro íntimo — sem estarem na palhaçada. Guilherme garante também que não inventa nenhuma das perguntas que partilha no site.

“As perguntas são mesmo enviadas por pessoas reais. Algumas de forma anónima, outras identificadas. Não são inventadas. Tenho mais de cem perguntas [enviadas por e-mail dos meus leitores] em lista de espera. No início, chegavam-me perguntas a gozar, mas hoje é raro isso acontecer. E já me enviaram casos graves de violência doméstica. E quem esteja a pensar deixar o marido e os filhos porque é maltratada. Costumo responder a isso na página com ‘javardeira’, dando a minha opinião. Por exemplo, no caso da vítima de violência doméstica, escrevi na minha página que devia deixá-lo e dar-lhe com um candelabro na cabeça. E depois enviei-lhe um e-mail dando-lhe os contactos da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), alertando-a que ‘estas são as pessoas que deve contactar e não um gajo da internet’.”

“Spoiler Alert”: Guilherme abre o seu ‘consultório’ nesta entrevista e aconselha um internauta enquanto Doutor G.

No humor vale tudo? — perguntámos. “Sim. Se eu estiver num palco a querer fazer rir acho que vale tudo. A piada não discrimina. Eu posso não ser racista, mas chegar a fazer uma piada racista. E é um erro as pessoas julgarem o carácter de alguém pelas piadas que ela faz. O único propósito do humor é fazer rir. Claro que tem efeitos secundários, pode fazer pensar, alertar, passar uma mensagem. E talvez essa seja a minha linha no humor e na crítica que faço no meu site.”

Este é só um pequeno aperitivo de uma longa conversa desbragada e animada com Guilherme Duarte, feita de reflexão, bom humor e algum nonsense. No final, o humorista revela os temas musicais da sua vida e o seu ‘guilty pleasure’ musical do passado quando ainda não tinha a barba ‘hipster’ .

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.