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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

Deem-lhe uma velhinha que cante que ele dá-nos o mundo

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Tiago Pereira anda há cinco anos a palmilhar o país de uma ponta a outra para registar com a sua câmara as tradições e as novas sonoridades da música popular portuguesa. Pelo caminho tem-se cruzado com inúmeras personagens que são pura poesia e cinema. Tiago é já conhecido como ‘o realizador das velhinhas’. E ele gosta. O projecto que lhe toma o coração e o tempo chama-se “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria”, que já foi série da RTP2 e será um site com mapa interativo a permitir-nos viajar virtualmente pelo continente e ilhas, enquanto descobrimos o que o povo ainda canta e as memórias de outros tempos. Uma coisa é certa: não se deixará cair em aborrecimento neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion Graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Este episódio arranca com uma melodia popular cantada por Adélia Garcia, uma cantadeira de 82 anos, da aldeia de Caçarelhos, do Concelho de Vimioso que é de certo modo já uma estrela. Se ‘estrelas’ forem as pessoas admiradas por outros, com talento, virtuosismo e obra feita, assim é Adélia — Uma figura admirada na região desde que foi gravada pelo etnomusicólogo francês Michel Giacometti nos anos 60 quando contava apenas 30 primaveras. Mais tarde, no início dos anos 90, participou numa faixa do disco “Trás-os-Montes” de Né Ladeiras e, desde há muito, é uma das ‘velhinhas’ mais gravadas por Tiago Pereira, entre os milhares de registos incluídos no seu projecto épico “A Música Portuguesa a Gostar dela Própria”.

Num mundo em que as coisas são cada vez mais iguais, siamesas, homogéneas — importadas da América, da China, da Suécia ... — é sempre especial e bonito haver alguém que aponte para outras realidades e singularidades por mais simples e pequenas que sejam. Tiago Pereira faz isso como ninguém e devolveu auto-estima à música que é mais nossa. Documentarista, realizador, visualista, visionário, é um eterno curioso pela cultura tradicional portuguesa e pelas pessoas que ainda cantam e tocam os sons de antigamente. Por vezes transformados pelo tempo ou com um cunho próprio de cada região.

Com um sentido de missão raro, Tiago Pereira, 43 anos, anda há cinco a calcorrear o país —Madeira e Açores inclusive – a registar em vídeo o nosso cancioneiro tradicional e o melhor da música independente. O foco principal são as canções que os mais velhos ainda trauteiam para espantarem os cansaços, as dores ou celebrarem as alegrias da vida.

O projeto “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria” tem uma plataforma online que conta com mais de dois mil vídeos e prepara-se para ser um site que contará com um mapa interativo onde se poderão encontrar mais facilmente os sons de cada região.

Tiago que é filho do músico Júlio Pereira [artista cuja sonoridade esteve sempre marcada pela utilização de instrumentos tradicionais portugueses, como o cavaquinho e a viola braguesa], durante muito tempo distanciou-se dessas referências. Na adolescência apenas tinha gosto em ouvir música eletrónica, mas acabou por cumprir o seu destino. “É o velho mito grego. Aquele que foge do seu destino acaba por ir lá parar”, recorda.

Diz que o que anda a fazer é uma espécie de “rádio pirata”, onde dá a conhecer o que muitos desconhecem. “No fundo dou aos outros aquilo que não aparece em mais lado nenhum. Agarro todas aquelas coisas que gravo e propago-as como se fosse uma espécie de pirataria. [Sons] que as pessoas às vezes não querem conhecer, mas entra pelas ondas e em casa. E derruba as playlists e obriga as pessoas a terem que admitir que aquilo [aquela musica tradicional] é uma existência.”

O realizador e documentarista premiado mostra-se fascinado não só pelas tantas músicas populares que vai descobrindo pelo país, como com o engenho das antigos a criar instrumento musicais do nada. Porque a vontade é sempre tudo. E fala do senhor que toca o que for preciso fazendo uso apenas dum pente de domar o cabelo e um papel ou de outro que faz um brilharete sonoro apenas com folhas de árvores. Porque é a música que no final importa e fica na história destas gentes.

Pereira refere também a forma curiosa como os velhos e velhinhas que encontra saberem de cor centenas de músicas. “A questão é eles serem de outro tempo. É muito interessante a forma como organizam essa memória. O facto é que neste século XXI cheio de Google e de internet, cheio de facilidade em obtermos informação, como é que essas pessoas [mais velhas] ainda conseguem saber 150 músicas de cor, duzentas cantigas de cor só vendo o primeiro verso? E vês que a memória delas está organizada por mnemónicas. Erva cidreira? Ah, isso faz bem a não sei quê, ah lembra-me esta música. Tau! A forma como organizam a memória no seu cérebro é completamente diferente da forma como nós a organizamos. E têm a memoria física. Nós como não trabalhámos, nem cantámos no campo, não temos essa memória física.”

Mas há muito, muito mais para ouvir e descobrir sobre Tiago Pereira numa conversa intensa, torrencial e apaixonada. No final, chega a revelar as inúmeras músicas que constituem a banda sonora da sua vida, assim como a forma como deu a volta à vida para que as alegrias fossem maiores do que as lágrimas.

Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.