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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

O artista plástico que tem gosto em profanar o que é sagrado

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João Pedro Vale é um dos artistas plásticos portugueses mais polémicos e subversivos da cena portuguesa. A ironia e o humor são os seus trunfos para abordar a nossa portugalidade e o mundo do ponto de vista LGBT. Juntamente com Nuno Alexandre Ferreira — o seu parceiro na vida e na arte — tem assinado criações incómodas que dividem opiniões. Em 2009 lançou-se em águas profundas ao adaptar a obra “Moby Dick”, de Herman Melville, no primeiro filme porno gay português, apresentado no Museu Coleção Berardo. Mais tarde, uma companhia de seguros cancelou uma exposição desta dupla por alegadamente abordar uma temática homossexual. “A homofobia está a matar a arte!”, gritava uma das suas obras. Agora a sua imagem de marca é uma imagem do Cristo-Rei transformado em falo. Porque lhe interessa profanar o que é sagrado. Este é o mote para uma conversa sem preconceitos no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Há seis anos o artista plástico João Pedro Vale adaptou a obra “Moby Dick”, de Herman Melville, numa versão pornográfica gay e apresentou-a na sala polivalente do Museu Coleção Berardo dando-lhe o nome de “Hero, Captain and Stranger”. O filme é a preto e branco, sem diálogos, todo o texto é lido por um narrador (Thomas Mckean), e a banda sonora resulta de uma interpretação com guitarra do tema instrumental “Moby Dick”, de Led Zeppelin, tocada por Pedro Gonçalves, dos Dead Combo. — Poderá ouvir um excerto da música neste episódio. As cenas de sexo foram protagonizadas por um sueco, um brasileiro e um espanhol, porque nenhum português quis participar mostrando o rosto. “Esperava que fosse mais fácil”, recorda João Pedro Vale.

Na altura os críticos dividiram-se, mas elogiaram-lhe a capacidade de desconstruir um dos maiores clássicos da literatura americana, usando excertos do texto original e dando-lhe novos significados a partir de um ponto de vista LGBT (sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros).

A inspiração do projeto fora um filme americano de 1937, “Captains Coureageous”, dirigido por Victor Fleming, (autor de obras como “O Feiticeiro de Oz” ou “E Tudo o Vento Levou”), que incluía a personagem Manuel, um pescador português originário da Madeira (interpretado pelo ator Spencer Tracy).

“Interessou-me pensar porque é que um filme de Hollywood daquela época a retratar a vida de pescadores portugueses não era conhecido em Portugal. Há uma sensação de apagamento, na época do Estado Novo e não havia interesse em publicitar aquele filme. E daí cheguei à obra Moby Dick. Comecei por querer falar da nossa identidade nacional, da nossa portugalidade, mas acabei a falar da minha própria sexualidade através desse clássico...”.

Estará a perguntar-se porque é que o artista, de 39 anos, partiu de um clássico da literatura para realizar uma obra com cenas de sexo? João Pedro Vale diz ter-se inspirado num estudo da teórica americana Jennifer Doyle onde ela comparava a ideia de monotonia do Moby Dick à monotonia da pornografia. Os tempos mortos e previsíveis numa embarcação de pesca comparados com as cenas monótonas da pornografia. “Em ambos os casos, sabemos como vão acabar. E fizemos um filme monótono com sexo explícito com base na obra.”

Nesta conversa tida no ateliê de João Pedro Vale, na zona de Xabregas, falou-se de outra controvérsia vivida no passado quando uma inauguração de uma obra prevista para o ‘Espaço Arte Tranquilidade’, em Lisboa, foi cancelada por razões de “homofobia”, segundo o artista. A dita exposição, intitulada “P-Town”, baseava-se numa recolha de factos históricos ocorridos na cidade norte-americana de Provincetown, onde João Pedro Vale e o seu companheiro Nuno Alexandre Ferreira estiveram em residência artística.

Uma das peças era uma ‘fanzine’ cuja capa mostra um monumento transformado em símbolo fálico. Tal como agora o artista usa a imagem do Cristo-Rei numa critica implícita à Igreja Católica. Outra obra consistia num conjunto de toalhas de praia com inscrições de frases como: ‘Legalize butt sex’ [“legalizem o sexo anal”] ou ‘AIDS is killing artists, now homophobia is killing art [“a sida está a matar os artistas, a homofobia está a matar a arte”]”. Porque é que o fizeram? Por provocação? - foi-lhe perguntado. “Usámos um símbolo da cidade de Provincetown, uma torre, e pusemos-lhe duas bolas em baixo. [A torre] por si só é um objecto fálico, mas é fálico desde antes de o termos convocado para o nosso trabalho.”

E quando lhe dizem que o seu trabalho fica demasiado limitado por se restringir à temática gay responde prontamente: “Se pensarmos numa artista como a Ângela Ferreira que há vinte anos estava a tratar com questões que tinham a ver com o colonialismo, se calhar as pessoas nessa altura não lidavam tão bem com o assunto como lidam hoje. E se calhar hoje é uma temática que é transversal a muitos artistas. (...) Esta ideia que o artista não pode dizer que é gay e que não pode trabalhar sobre a sua sexualidade porque isso o vai limitar é o mesmo que eu, como gay, não poder perceber nada de cinema porque as histórias são todas sobre heterossexuais ou baseadas na ideia de família tradicional heterossexual.”

Depois o discurso pega voo para outras paragens, desde a música, à noite como motor de inspiração até ao amor pelo companheiro Nuno Alexandre Ferreira com quem vive e trabalha. “Se pensar na minha vida sem o Nuno fico sem chão”. Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.