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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

Um dia o marido apontou-lhe um cutelo ao pescoço e ameaçou matá-la. Ela fugiu, ele ficou com pena suspensa

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Esta é uma história com um enredo de terror, mas que tem um final feliz. Isto se assumirmos a ideia de final como nos filmes, em que a protagonista, Margarida Coelho, de 37 anos, superou uma relação de 18 anos feita de agressões psicológicas e humilhações motivadas por um ciúme doentio do marido. Um dia, após uma acesa discussão, ele apontou-lhe um cutelo ao pescoço. Margarida ergueu-se, apresentou queixa na polícia, pediu ajuda, fugiu com os dois filhos para uma casa de abrigo, divorciou-se e, desde há três anos, reconquistou a liberdade. O ex-companheiro foi condenado em tribunal a dois anos e 11 meses de pena suspensa. Este é o seu final feliz e o início de uma nova vida. 'Don´t Stop Me Now', dos Queen, é um dos temas que a acompanham. “Agora ninguém me pára! O que já lá vai, lá vai! O meu objetivo é ter um final feliz!” Um testemunho emocionante para ouvir no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Pode o amor da nossa vida tornar-se o nosso maior inimigo? Margarida Coelho é a prova disso e conta um emocionante testemunho de superação e coragem a poucos dias do Dia Internacional da Mulher [8 de março].

Há mais de dezoito anos apaixonou-se por um colega no quartel de Évora onde ambos eram militares. Foi atraída pela sua gentileza, pelo lado calmo e sossegado daquele rapaz apaixonado por si. “Ele era outro homem.” Tiveram um namoro ‘bonito’ e pouco depois começaram a viver juntos. Primeiro em união de facto e, mais tarde, enquanto marido e mulher.

O ciúme do companheiro esteve sempre presente. Começou de mansinho, mas foi ganhando cada vez mais espaço até se tornar na sua principal obsessão. O papel passado no casamento fez com a situação piorasse. Margarida passa a sentir-se propriedade do marido, aprisionada a ele e à casa, sem direito a conviver com ninguém, nem familiares, nem colegas ou amigos, com medo do que ele pudesse vir a fazer. Não fosse zangar-se, perder a cabeça e ‘fazer-lhe a folha’, como um dia lhe chegou a dizer — Um termo militar usado para quando alguém decide agredir ou matar alguém. ‘Mulher bonita, espelho cabrão’, era o ditado que ele lhe repetia incessantemente dia após dia como justificação para as perseguições na rua, à porta do trabalho ou no café. “Ele tinha ciúme dos meus patrões, dos meus colegas de trabalho, dos meus amigos. O que me levou a afastar-me gradualmente de tudo aquilo que eu gostava. Isolou-me. (...)Deixei de ter vida própria. Era estar presa dentro da minha própria casa.”, conta neste episódio.

Foi quando começaram a acontecer os abanões, os empurrões, os insultos, as ameaças. “Chamava-me de estúpida, de puta. E eu vivia num estado permanente de medo, inquietação, insegurança.”

Um dia apontou-lhe um cutelo junto ao pescoço. E ameaçou matá-la. Disse-lhe com todas as letras, que iria acabar com Margarida logo ali. O que provocou tamanha agressão foi uma questão banal. Ele tinha ficado de ir buscar um dos filhos ao atelier de tempos livres, mas não fora. E Margarida confrontou-o. Foi o suficiente para sentir o frio do cutelo na pele. Deixou de reconhecer o homem que dormia consigo. Estava aterrorizada. “Foi o que me fez espoletar [a vontade] de querer fugir de casa. Deu-me o clique. Já não havia mais nada para nós construirmos em conjunto.” Margarida pediu ajuda, fugiu de casa com os dois filhos e apresentou queixa à policia dos maus tratos de que há muito era vítima. Primeiro contactou o Núcleo de Apoio à Vítima da localidade onde morava e daí foi encaminhada para UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) que a colocou a viver numa casa de abrigo para se erguer e refazer a vida. “A partir daí a minha vida mudou a 180 graus. Completamente. Acolheram-me [a mim e as meus filhos]. Ao contrário do que muita gente pensa, dizendo que as casas de abrigo são muito precárias e é tudo muito mau, não [é verdade]. Para mim foi um alívio muito grande sair do tormento onde eu estava e finalmente ter a minha paz de espírito. Claro que até que uma pessoa se adapte leva o seu tempo e é complicado. Mas tudo é melhor que aquela situação em que estava anteriormente. É como se eu tivesse voltado à estaca zero e ter que começar tudo de novo.”

O marido foi condenado a dois anos e 11 meses de pena suspensa [por não ter antecedentes criminais] pelo crime de violência doméstica agravada. Ficou provado em tribunal que o seu ex-marido agira de forma livre, voluntária e consciente com a intenção de humilhar a sua mulher e de atingir a sua integridade física e psíquica. Este é um caso que ficou resolvido em tribunal. Mas tantos outros com enredos semelhantes têm um final dramático. No ano passado 29 mulheres perderam a vida em ambiente doméstico. No ano anterior, em 2014, os números foram bem mais negros, morreram 42 mulheres, de acordo com dados da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima).

Neste episódio Margarida chega a dizer que não concorda com as palavras proferidas por Joana Ferrer, a juíza do processo de alegada violência doméstica que opõe Bárbara Guimarães a Manuel Maria Carrilho. Recorde-se que na primeira sessão do caso, a juíza perguntou a Bárbara Guimarães quando é que as coisas ‘mudaram’. E comentou: “Confesso que estive a ver fotografias do vosso casamento e tudo parecia maravilhoso. Parece que o professor Carrilho foi um homem, até ao nascimento da Carlota [a segunda filha do casal] e depois passou a ser um monstro. Ora o ser humano não muda assim.”

Mas Margarida tem outra opinião. “O ser humano revela-se, não muda porque essa parte está sempre lá. Nasceu com ele. Só que ao longo do tempo, com a convivência e as frustrações da vida esse lado vai todo ser revelado. E existe um sentimento de posse. A partir do momento que uma pessoa casa sente que há um papel, uma obrigação. A partir daí não é porque quero. ‘Tu és minha!’”

Três anos depois Margarida reconstruiu a vida, tem novo emprego, vive no Alentejo junto dos pais e dos amigos da juventude e diz que só quer ser feliz. Mas ainda tem algumas feridas por sarar. “Ainda é difícil para mim voltar a confiar num homem. Penso sempre que tem uma segunda intenção”. Mas num futuro distante imagina-se muito velhinha acompanhada dos filhos e netos e de um companheiro que a ame. É o seu final feliz.

Mas há muito, muito mais para ouvir e descobrir sobre Margarida Coelho neste episódio: para o fazer, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.