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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

O realizador que nos desafia a olhar o mundo em 3D

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Edgar Pêra é o guerrilheiro do cinema português, sempre em busca de novas 'armas tecnológicas' para nos contar histórias como nunca ninguém viu e sentiu. Irónico, subversivo e instintivo, foi o pioneiro do ‘do it yourself’, com uma estética futurista e vanguardista desde que começou a filmar nos anos 80 os telediscos de bandas pop como os GNR ou Sétima Legião. Desde aí criou uma identidade própria, começando pelas curtas-metragens e contrariando os modos clássicos de filmar. Autor de inúmeros filmes premiados como “A Janela (Maryalva Mix)” e “O Barão” arriscou misturar todos os formatos. Do Super 8 à película tradicional e do digital ao 3D. Agora Pêra cruza o cinema com as artes plásticas e desafia-nos a colocar os óculos 3D para nos surpreendermos com a tridimensionalidade da capital na exposição “Lisboa Revisitada.” No fim de semana em que se celebra a 88ª edição dos Óscares , Pêra revela que adorava ganhar uma estatueta dourada em Hollywood. “E nem era para melhor filme estrangeiro. Era para melhor filme. Ponto.” Uma conversa ‘tridimensional’ para ouvir neste episódio do podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motions Graphics

Infografia

Para ouvir os podcasts do Expresso nos seus dispositivos móveis e no computador, copie e adicione o seguinte URL à sua aplicação de podcasts: http://bit.ly/1TnvM3J

Para ouvir esta conversa não precisa de óculos 3D, mas aconselhamos a que esteja confortavelmente sentado porque a viagem deste episódio é vertiginosa entre o passado, o presente e o futuro. Iremos um pouco além, até aos tempos do cinema virtual e dos atores em holograma que poderão conviver consigo em casa ou numa sala de cinema. Como? É ouvir o cineasta sobre o que aí vem.

Este episódio foi gravado em casa de Edgar Pêra entre a preparação dos seus próximos projectos, nomeadamente a adaptação ao cinema de mais uma obra do escritor Branquinho da Fonseca, “Caminhos Magnéticos”, depois de “Rio Turvo” (2007) e “O Barão” (2011), ambos premiados. Edgar vê nesse autor a melhor matéria para os seus filmes. “Ele não está ali a descrever móveis. São imagens do pensamento, sensações e emoções que eu gosto e que me transcendem. Sinto que com ele me transcendo. Foi o que senti com O Barão [protagonizado por Nuno Melo].”

Aos 55 anos, depois de surpreender com a comédia pop “Virados do Avesso” — uma longa-metragem estreada há um ano e meio que levou 116 mil espectadores às salas de cinema — Pêra desafia os portugueses a colocarem os óculos anaglíficos (os tais com lentes azuis e vermelhas) para assistirem à sua primeira exposição de fotografia em três dimensões e cine-instalação 3D digital inspirada no universo de Fernando Pessoa. É a sua Lisboa Revisitada” – Photo-Liturgya Lisboeta e Kino-Exorcismo Pessoano” que está patente na Casa da Liberdade – Mário Cesariny, no bairro de Alfama, em Lisboa, com curadoria de Carlos Cabral Nunes. Para ver e sentir Lisboa de outra maneira. Com outros olhos. Através do desassossego da tridimensionalidade.

“[O 3D] é sem dúvida o ponto de atracção fundamental. No entanto a revisitação [de Lisboa] não é dada exclusivamente pela tridimensionalidade. É dada sobretudo pelo tratamento cromático das imagens. E isso é tanto em 2D, como em 3D. Quis mostrar essa doença dos olhos que é o pensamento. E ao mesmo tempo revelar outras visões, como há a da serpente com a sua visão térmica. Interessava-me trazer uma visão trans-humana de um extra-terrestre que tivesse chegado cá com esta forma invertida de ver as cores. E assim posso fazer com que uma gaivota pareça um corvo. O seu negativo pode transformá-la no pássaro da cidade."

A dado momento desta entrevista fomos deliciosamente interrompidos por breves instantes pelo pequeno Henrique, de 3 anos, o filho de Edgar a quem o 3D não é uma coisa estranha. Na ocasião, o cineasta comentou: “Ele é um filho 3D realmente (risos). As imagens dele já estiveram pelo mundo inteiro. Desde o “CineSapiens” tem entrado em todos os meus filmes. [E a sua imagem tem andado] de Cannes, ao Japão até à Finlândia. Ele entra sempre. Nem que sejam 30 segundos. Até no “Lisbon Revisited” aparece a voz dele... a chorar. E já sabe dizer “3D”, e para que são os óculos 3D, apesar de eu não deixar que ele os ponha porque ainda não tem idade. Mas é óbvio que é para o futuro que eu faço as coisas. Portanto é para ele.”

Mas o cinema 3D que deu tanto brado nos anos 80 e, mais recentemente, na era do digital veio para ficar? Edgar dá a sua opinião: “Não acho que o 3D seja apenas uma novidade. Acho que é uma outra forma de ver. É tipo Fénix. O 3D precede o cinema. As fotografias estereoscópicas existem antes do próprio cinema. O que aconteceu é que em determinados momentos – nos anos 50, 80 e depois a partir do Avatar, com o 3D digital passou a acreditar-se que todo o cinema mainstream fosse 3D. No entanto, acabou por se tornar um fenómeno circunscrito aos filmes fantásticos de super-heróis ou para crianças e são raras as vezes em que existe uma preocupação artística. E é isso que me interessa no 3D. É como forma de expressão.”

O realizador que começou a filmar em 1985, após terminar o curso de cinema, adotou logo aí a persona do Homem-Kâmara, filmando compulsivamente o seu quotidiano e o de bandas pop portuguesas com quem convivia. Dessa colaboração nasceram videoclipes e filmes musicais televisivos com os GNR, Heróis do Mar, Xutos & Pontapés, Sétima Legião e Rádio Macau.

Curiosamente, o seu primeiro trabalho público é o videoclip “Dunas” dos GNR. Era a (sua) fase do punk. Ou como ele diz, do neuro-punk."Eu comecei a conviver muito com as bandas. E o facto de eu ter saído da escola e ter começado logo a filmar era a vontade de começar logo a fazer coisas. Eu dizia que era um neuro-punk. Até tenho alguns manifestos publicados no [jornal] Independente, quando eu era colaborador deles. Um neuro-punk não tem uma atitude de agressão física, mas agressão neuronal. Onde eu atacava era na percepção. O que eu queria fazer era cinema pop, influenciado pelo cinema série B. E acabei por fazer poesia. É a tal poesia do desenrascanço. Se não temos cão, caçamos com outro animal qualquer. O que interessa é conseguirmo-nos exprimir."

Ao longo da sua carreira Edgar Pêra realizou mais de 30 filmes, entre documentários e ficções, curtas e longas-metragens, chegando a ser premiado com o Pasolini de carreira, atribuído em Paris, em 2006. A partir de determinado momento da sua filmografia, o ator Nuno Melo passou a ser o seu ator-fetiche, o protagonista de todas as suas obras. Sobre o falecido ator, o realizador assume que passou a ser uma espécie de alter-ego no grande ecrã. "O caso do Nuno Melo era um caso diferente. Porque havia mesmo uma cumplicidade muito grande. A partir de determinada altura quase todos os meus projectos eram protagonizados por ele. E havia esse lado de alter ego que eu nunca quis aceitar.”

Edgar assume que há muito que não vai ao cinema ver filmes de outros. Por manifesta falta de tempo. Diz que a sua preferência tem ido para as séries televisivas visionadas no sofá da sala. Algumas com sabor a cinema do bom. “A última série que vi em que senti que estava a ver algo de verdadeiramente cinematográfico foi a primeira temporada do Fargo [Série americana inspirada no filme Fargo, que conta com Joel e Ethan Coen, ambos produtores executivos na série]. Está filmada como se fosse feita para uma sala. Porque cria espaço. Não tem a lógica do grande plano de uma telenovela. E consegue produzir ritmo como muitos não conseguiriam. É cativante.”

Sobre os candidatos deste ano aos Óscares, Edgar não tem preferências, até porque não viu nenhum deles. Mas revela um desejo antigo: “No dia em que for nomeado acho que vou ter algum interesse no assunto. Porém não é [um assunto] irrelevante, porque acho que qualquer pessoa que entra no mundo do cinema pensa [nisso]. Eu adorava ter um Óscar. E nem era para melhor filme estrangeiro. Eu gostava de ter um Óscar para melhor filme. Ponto. Mas o tipo de cinema que eu faço leva-me cada vez mais longe de tudo o que seja parecido com um Óscar. Se um dia eu fizer um melodrama e tiver meios e se for feito com atores americanos, com esses ingredientes posso sonhar com isso. (...) Mas eu sou mais a favor do entusiasmo, do que pelos melodramas e as comédias são raramente premiadas com um Óscar. A vanguarda tem um lado humorístico sempre muito forte...”.

Ainda neste episódio, o cineasta escolhe como filme da sua vida “As Aventuras de Buckaroo Banzai Através da Oitava Dimensão”(W.D. Richter, 1984). Nesta paródia aos filmes de ficção científica o protagonista está na oitava dimensão, é neurocirurgião, estrela de rock e super-herói e precisa combater uns tais de Red Lectroids, do Planeta 10, pois eles estão a usar a máquina para fazer o mal. “Acho que o titulo já diz bastante. A ironia inspira-me imenso. Eles não se estão a levar a sério e isso é a coisa mais nobre que existe. Quando eu me levo a sério aborreço-me.”

Mas há muito, muito mais para ouvir e descobrir sobre Edgar Pêra neste episódio: para o fazer, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.

Lisboa Revistada (Por Edgar Pêra) – Photo-Liturgya Lisboeta & Kino-Exorcismo Pessoano. Casa da Liberdade – Mário Cesariny. R. das Escolas Gerais, 13, Lisboa. Tel. 21 88226 07. Até 9 de abril. De segunda a sábado, das 14h às 20h. Entrada livre.