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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

A cineasta que quer fazer um filme (que imaginamos nada brando) sobre Cavaco

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Raquel Freire não é uma cineasta qualquer. Filma o que a incomoda, o que a apaixona, o que a inquieta e o que quer mudar e libertar no país. No seu último documentário “Dreamocracy”, assinado com Valérie Mitteaux, acompanhou o quotidiano dos organizadores do protesto Geração à Rasca, de 12 de março de 2011, e quis levar as pessoas a pensar mais sobre política. Ela, que também é escritora e ativista desde os tempos de estudante da Faculdade de Direito em Coimbra, assume-se pansexual e é defensora dos direitos da comunidade LGBT. Em 2009, vestiu-se de noiva e encenou um beijo em frente ao Parlamento com a atriz Joana Manuel na luta pela aprovação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Anos mais tarde, num terraço com vista para a Assembleia da República queimou uma das cópias da sua primeira longa- metragem “Rasganço” (2001) como forma de protesto contra a extinção do Ministério da Cultura. Raquel foi sempre um elemento incómodo para o anterior Governo e pensa um dia filmar sobre o Presidente “cobarde” que um dia vetou a lei da adoção por casais homossexuais

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição Sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion Graphics

Infografia

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Raquel Freire, de 42 anos, é uma mulher de causas, de paixões e de lutas sociais. Está-lhe no sangue e faz-se sentir desde os tempos em que era estudante de Direito e dirigente da associação de estudantes da Faculdade de Coimbra, onde era tratada de "generala vermelha".

No seu último documentário "Dreamocracy" (2014), assinado com a realizadora francesa Valérie Mitteaux, acompanhou o quotidiano dos organizadores do protesto Geração à Rasca (João Labrincha e Pedro Santos), a 12 de março de 2011, e a sua vontade de reinventar a democracia e pôr em causa o sistema, a precariedade e a austeridade em Portugal, que deu origem à Academia Cidadã. Um documentário que resulta de três anos de filmagens contínuas, feito para inspirar as pessoas a discutirem mais sobre o que está mal e o que querem mudar.

E foi para mudar o que ia mal na lei que esta ativista dos direitos LGBT se vestiu de noiva em 2009 e encenou um beijo mediático com a atriz Joana Manuel frente ao Parlamento, na luta pela aprovação da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Anos mais tarde, num terraço com vista para a Assembleia da República, queimou uma das cópias do seu primeiro filme, "Rasganço" (2001). Uma forma de protesto radical contra a extinção do Ministério da Cultura e a suspensão dos apoios às artes.

A cineasta foi sempre um elemento incómodo do anterior Governo. Raquel garante nesta conversa que foi após um telefonema do Executivo de Passos Coelho que a sua crónica "É Tempo", na Antena 1, foi suspensa em janeiro de 2012. E conta como junto com o jornalista e escritor Pedro Rosa Mendes apresentou queixa à ERC (Entidade para a Regulação da Comunicação Social), que não deu como provada a acusação de censura. "Foi um episódio sinistro."

Raquel Freire está agora a preparar um documentário sobre a crescente força das mulheres na política europeia (Mariana Mortágua e Marisa Matias serão algumas das protagonistas), assim como a adaptação para o cinema do seu primeiro romance "Trans Iberic Love" (2013) sobre a história de amor transformador e assolapado entre uma ativista pansexual (capaz da atração sexual, romântica ou emocional, independentemente da identidade de género do outro) do Porto e um catalão transgénero, que nasceu Eva e agora é José. Um manual de esperança para tempos nebulosos, onde se afirmam novas formas de amar e de viver.

Sobre Cavaco Silva, que considera "cobarde", afirma que acaba de atentar contra a democracia. "O Presidente da República jura a Constituição. Ora, a Constituição tem no seu artigo 13 o direito à igualdade. Nós temos um Presidente que acaba de vetar o direito à igualdade na adopção [para casais homossexuais.]" Raquel considera Cavaco Silva um representante "do velho país salazarista que se recusa a democratizar". E chega mesmo a revelar que um dia fará um filme sobre ele. Que imaginamos nada brando. Sobre Marcelo Rebelo de Sousa espera uma melhor presidência. "Eu sou uma espinosiana. Acredito profundamente em Espinosa. A ética da alegria. Aconselho toda a gente a ler. Foi o meu livro de cabeceira estes quatro anos, quando as coisas estavam pior e fui obrigada a emigrar [para França]".

Nesta longa conversa feita em casa de Raquel, junto a uma janela com uma belíssima vista para o Tejo, falou-se também de amor (diz-se uma radical do amor), de música (tanta boa música que a acompanha na escrita dos seus argumentos) e da força transformadora que pode surgir numa comunidade de gente, feita de famíliares, de amigos e vizinhos, que mesmo contra as políticas de austeridade podem fazer da vida algo melhor para todos. "O mais importante é como nós vivemos uns com os outros. Mais do que o amor da relação amorosa, falo no sentido geral, do amor pelas outras pessoas, pela alteridade. Quando passamos por alguém na rua e lhe damos um encontrão, sermos capazes de lhe pedir desculpa. Se nós tivermos redes afetivas e de familiariedade no nosso bairro, no nosso prédio, na nossa família, que nos sustentem, que nos liguem, nós aguentamos. Seja qual for a austeridade. Sejam quais forem as regras violentas e os ataques que façam aos nossos direitos fundamentais. Agora, se nos deixarmos deprimir e ficarmos em casa sozinhos, aí não há esperança."

Raquel refere o caso de Idalina, uma sexagenária dona de um pequeno café no seu bairro que mal consegue viver do negócio (retratada no documentário e cujo testemunho pode ouvir-se neste podcast), que se lamenta que o seu país a tem tratado muito mal e muito se arrepende por não ter emigrado para França, quando era mais nova. "A Idalina é o país!", considera Raquel. Um país feito de gente que tem dado muito, tudo o que pode e o que tem, e está desgastada, deprimida, desencantada com as vidas adiadas, a prazo. "Não é justo o que os nossos governantes nos estão a fazer. E ela [Idalina] tem a consciência dessa injustiça mesmo que nunca tenha estudado economia. Nem [frequentado] grandes bibliotecas. Mas sabe muito bem gerir o seu negócio. E sabe também o que lhe custa e o que está a sofrer. Sabe ainda o que é o IVA de 23%, quando aqui ao lado em Espanha é de 10%."

A cineasta, nascida no Porto, vai mais longe na análise ao modo como a precariedade tem atingido os portugueses. "Esta falta de democracia instalou-se devagarinho nas nossas vidas e fomos perdendo direitos, direitos, direitos. E hoje não conseguimos alugar uma casa, nem ser minimamente independentes dos nossos pais, porque nunca sabemos se amanhã teremos trabalho, não sabemos se vamos conseguir sobreviver e, por isso, não conseguimos ter uma relação fixa. Como é que consegues ter uma relação amorosa? Como é que constróis uma família? Como é que projetas a tua vida? Como é que pensas ter crianças? Impossível. Isto impede um país de crescer e de se desenvolver."

Mas Raquel não adiou os seus sonhos para o novo século e arriscou ser mãe, apesar de artista precária. "Sou a mãe de Dinis, de 14 anos, que é o nome da alegria e de um poema da Luiza Neto Jorge. Com ele discuto sobre tudo."

Mas há muito mais para ouvir e descobrir neste episódio: para o fazer, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.