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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

Os dois amigos que após o terramoto no Nepal decidiram ajudar a salvar um país

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Estavam a viajar pela Ásia quando no dia 25 de abril de 2015 foram apanhados por um forte sismo em Katmandu, capital do Nepal, que atingiu a magnitude 7,9. Uma tragédia que vitimou nove mil pessoas, destruiu 600 mil casas e deixou 23 mil feridos. Após o susto, Pedro Queirós e Lourenço Macedo Santos decidiram interromper as férias para ajudar os nepaleses. Começaram por gastar os cerca de mil euros que tinham para distribuir comida. Depois pediram ajuda nas redes sociais com a campanha “Obrigado Portugal, nós também somos Nepal”. Até agora angariaram mais de 240 mil euros, salvaram milhares de vidas e fizeram obra: criaram um campo de deslocados, ergueram 22 casas e planeiam este ano construir uma aldeia de raiz para albergar mil nepaleses. Esta é uma história de amizade, coragem e esperança que pode ouvir no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição Sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion Graphics

Infografia

Passaram nove meses desde o terramoto que devastou Katmandu. No início deste episódio pode ouvir-se o som do caos que se viveu nas ruas da capital do Nepal logo após o sismo e o relato 'in loco' de Pedro Queirós, de 34 anos, ainda atordoado com o sucedido. Ele e o amigo Lourenço Macedo Santos, de 35 anos, estavam por lá nesse fatídico dia e durante os dois longos minutos protegeram-se debaixo da ombreira de uma porta. "O chão parecia gelatina. Foi um momento aterrorizante", recordam nesta conversa.

Licenciados em Gestão e com carreiras bem-sucedidas, tinham-se demitido das empresas e decidido viajar de mochila às costas pelo sudeste asiático, durante seis meses, para repensar o rumo profissional. Por sorte, nessa manhã atrasaram-se e não estavam a subir o Evereste como tinham planeado. O que poderia ter sido fatal. Nos dias seguintes, quando se deram conta do desespero em que se encontrava a população sobrevivente, decidiram abandonar o papel de turistas e focaram-se em ajudar quem precisava.

Começaram por usar o dinheiro que tinham para comprar dois sacos de 25 quilos de arroz, 400 bananas e 50 maçãs, que distribuíram pela população esfomeada que formava filas de perder de vista. "O nosso primeiro compromisso pessoal foi usar o dinheiro que tínhamos. Íamos gastar cerca 1700 euros para ir ao Tibete e fazer a excursão ao Evereste e decidimos usar todo esse dinheiro para ajudar. Transformámos todo o dinheiro em comida para ajudar os nepaleses. Mas rapidamente o dinheiro acabou. Lembro-me de escrever um post no Facebook, muito emotivo, a dizer que cinco euros dava para salvar várias vidas. Na altura eu pensava, 'só temos dinheiro para mais um dia'. Precisamos de mais", conta Lourenço nesta entrevista.

Emocionados com o que viam, e sem hipótese de ajudarem todos os que os procuravam, decidiram pedir auxílio nas redes sociais. E a onda de solidariedade superou todas as expectativas. Fotografaram-se de forma improvisada junto a um pedaço de cartão onde escreveram: "Obrigado Portugal, Nepal, Abril, 2015". Depois perguntaram pelo Facebook à família e amigos se queriam ajudar com donativos. “E foi viral, completamente. Se no primeiro dia conseguimos duzentos ou trezentos euros, nas semanas seguintes recebemos milhares. As pessoas associaram-se à nossa inocência, à nossa disponibilidade.", explica Pedro.

Depois de muito discutirem sobre os prós e os contras decidiram ficar. Perceberam que estavam a ter um impacto positivo na vida de centenas de pessoas. A salvar vidas. O facto de não terem trabalho, mulher, namorada ou filhos ajudou na decisão. Nesta conversa recordam como de dia para dia as filas de pessoas que os procuravam para receber comida e água aumentavam.

"As pessoas perguntavam-nos sempre: 'vocês voltam amanhã?' E Isso marcou-nos muito. A sensação de estar a ajudar de forma temporária até me fazia sentir que as estávamos a enganar. Que era um gesto isolado. Isto entra um bocadinho nas questões da nossa consciência, do nosso ego, o que estávamos ali a fazer, quais as alternativas. Podíamos continuar a viajar, ir para o nosso conforto. Mas sentimos que [ali] estávamos a fazer a diferença. Olhávamos para as pessoas e o seu aspeto físico era sujo, sedento, esfomeado. As réplicas [sísmicas] começaram a aparecer, as chuvas também.", recorda Pedro.

Além da comida, passaram a distribuir outros bens não alimentares: colchões, tendas, pensos higiénicos, e mais o que fosse preciso. Rapidamente a ação no terreno deixou de ser uma ajuda isolada de dois amigos em férias, para passar a um apoio solidário articulado em rede, com uma associação formada que ganhou o nome da campanha "Obrigado Portugal" e que envolveu milhares de doadores e 70 voluntários que ajudaram Pedro e Lourenço a gerir no terreno os projetos.

Algumas semanas após o ocorrido, escreveram no Facebook: "Os grandes números de hoje são: 82.600 rupias gastas, cerca de 725 euros, 1000 quilos de arroz, novo recorde, 600 pacotes de 50 gramas de bolachas, 100 sabonetes Dettol 40 gramas,100 quilos de sal,100 quilos de lentilhas, 2000 litros de água fornecidos. Estamos cada vez mais motivados e entusiasmados. Não há palavras para o ato de ajudar. Para o agradecimento das pessoas que recebem comida. É tudo."

E tem sido tanto. Contas bem feitas, estes dois amigos revelam que até agora conseguiram dirigir para o Nepal a quantia de 120.258,14 euros de doações portuguesas. Contabilidade avalizada por dois gestores. "Este é o valor exato. E temos mais boas notícias, a Fundação Vox Populi, que trabalha na área da educação em Portugal e que se envolveu deste o início connosco, resolveu dobrar o valor que já tínhamos angariado. São mais de 240 mil euros ao todo."

Com esses donativos enviados por NIB de particulares e empresas portuguesas, a associação de Pedro e Lourenço tem ajudado a cidade e as gentes de Katmandu a recuperarem pouco a pouco a dignidade. E a obra feita é já enorme. Foram construídas 22 casas para 22 famílias na vila de Bistagaun, no vale de Katmandu, uma iniciativa a que deram o nome de "Projecto Saudade".

A associação criou também o "Campo Esperança", um local de abrigo para 350 desalojados dos Himalaias, um projeto feito a meias com o grupo Dwaricas e que é hoje um case study para várias ONG mundiais. Além das necessidades básicas de abrigo e comida, a educação, a saúde, a ocupação e o lazer foram sempre uma das grandes preocupações do projeto. "Às vezes, ajudar não é só dar bens materiais. Ajudar é estar, conversar, dançar, é fazer com eles programas e com que pensem noutras coisas além da desgraça que viveram. O 'Campo Esperança' é um exemplo disto. Nós tivemos que dar tendas, cobertores, livros, comida. É um projeto caro. Mas eles precisavam de afeto, carinho e dignidade."

Pedro Queirós ajuda uma criança no "Campo Esperança"

Pedro Queirós ajuda uma criança no "Campo Esperança"

Conversámos com Pedro e Lourenço num bar do Cais do Sodré. Chegaram a Lisboa em dezembro passado, após oito meses vividos intensamente no Nepal, mas já têm bilhete de regresso marcado para 5 de março. Uma coisa é certa, garantem: "Vai ser impossível sairmos agora deste caminho [de projetos de cariz social]", assegura Lourenço. Este ano, estes amigos têm um objetivo ainda mais ambicioso. Tornar realidade o projeto "Our Dream Village". Uma autêntica vila de sonho para albergar 1181 pessoas em 220 casas, e que contempla ainda uma escola e um hospital. "Para isso precisamos da módica quantia de cinco milhões de dólares [4,59 milhões de euros] através da ajuda de todos os que puderem contribuir. Já temos cerca de 30 a 40% do valor e vamos avançar com as obras. Mas é preciso mais. Muito mais. Será a morada dos sherpas, o povo das montanhas ou o povo dos Himalaias [que ficaram com as casas destruídas]."

Para muitos nepaleses, estes dois rapazes de Portugal são verdadeiros heróis que os salvaram da fome, da sede, da rua, da morte. Mas o que é um herói? Segundo o dicionário, é "um indivíduo que se destaca por um ato de extraordinária coragem, valentia, força de carácter, ou outra qualidade considerada notável." Lourenço Macedo Santos e Pedro Queirós (assim como a vice-presidente da associação, Maria da Paz Braga) são, nessa medida, heróis.

E são também viajantes sedentos de mundo, com novos destinos na calha que partilharam connosco. E contaram ainda os lugares por onde mais gostaram de passar, a banda sonora que os acompanhou e algumas aventuras vividas estrada fora. É ouvir este episódio: para o fazer, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.