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Expresso

A Beleza das Pequenas Coisas

O patrão da “Criada Malcriada” quer “Cavaca” para sempre em Belém

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Hugo van der Ding é o pai das hilariantes tiras humorísticas de "A Criada Malcriada" e "Cavaca para Presidenta". Este tradutor de profissão, de 39 anos, alfacinha dos sete costados apesar do ar nórdico, não imaginava que as tiras toscas em BD que partilhava com amigos e contavam o quotidiano de uma patroa e a sua criada, ou os pensamentos ficcionados da atual primeira-dama, Maria Cavaco Silva, se tornassem um caso tão sério de popularidade nas redes sociais. Dois projetos particularmente inspirados, com um toque de génio, de surreal e politicamente incorreto. Hugo aceitou sair da sombra do anonimato para contar pela primeira vez a sua história de vida no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”. E em boa hora o fez. O mundo precisava de conhecê-lo

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição Sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion Graphics

Infografia

Durante os últimos anos, Hugo van der Ding [nome artístico] quis manter a sua identidade sob anonimato e mistério apesar da curiosidade crescente sobre si. Autor de inúmeros projetos humorísticos que têm incendiado as redes sociais como fósforos num palheiro e que contam já com largos milhares de seguidores, até agora achou que as suas personagens é que deviam ter protagonismo. “E porque talvez tivesse alguma vergonha e timidez por as ter feito”. Mas a vergonha passou, a timidez atenuou, e achou que era altura de dar-se a conhecer um pouco. Em boa hora o fez. O mundo precisava de conhecê-lo. Ele é daquela estirpe de pessoas e humoristas que fazem da vida um lugar mais divertido e agradável para cá andarmos.

Como era de esperar, a conversa foi descontraída, eloquente, com momentos risíveis e outros um pouco mais sérios (por vezes com reflexões existenciais ao estilo da Oprah, como classificou Hugo). Nalguns momentos da gravação fomos abalroados pelo som de um avião ou de um comboio, ou não tivesse esta entrevista sido gravada numa esplanada da LX Factory, em Lisboa, mesmo por baixo da ponte 25 de Abril, dado que o espaço previamente marcado estava encerrado. Mas nada que nos interrompesse o raciocínio.

Hugo tem 39 anos e está desejoso de fazer 40 para dar uma grande festa.Tradutor de profissão, tem ar de nórdico mas é filho de portugueses, e há três anos, desafiado por um amigo, começou a desenhar as hilariantes tiras de 'A Criada Malcriada'. Uma série de BD que conta, através de frases simples e desenhos muito toscos, o quotidiano de uma patroa chiquérrima, muito tia, e da sua criada muito obediente.

Uma dupla de sucesso com mais de 85 mil seguidores na página, que já valeu a edição de um livro e que, desde o final do ano passado, aparece em sketches animados de 30 segundos no canal Fox Comedy. Quando questionado em quem se inspirou para chegar àquela eloquente patroa, Hugo deixa soltar: "Uma jornalista, conhecida... de Lisboa." Maria João Avillez? - perguntámos. "Eventualmente. Mas foi uma graça, ela descolou-se da personagem".

Outra página da sua autoria que tem dado muito que falar no Facebook é 'Cavaca para Presidenta'. No início de 2014 deu conta de que faltavam dois anos para que Maria Cavaco Silva deixasse de ser primeira-dama. E como era uma figura que lhe fazia cócegas no cérebro e que lhe motivava para o humor, Hugo criou uma página que partilhou primeiro com os amigos mais próximos. Um formato ousado, divertido, arriscado, irresistível, com poucas rédeas e muita inspiração.

Desde fevereiro de 2014, Hugo publica fotografias originais do site da Presidência e junta-lhe legendas ficcionadas. A este propósito chega a dizer na entrevista: "Consigo ver o ridículo em todas as coisas do mundo. E quanto mais as pessoas se levam a sério mais ridículo se torna, e mais divertido é fazer pouco disso. É um bocado o que eu sinto com a página 'Cavaca para Presidenta'. Eu olho para a cara da excelentíssima primeira-dama e aquelas frases vêm-me à cabeça. Tenho quase a certeza de que ela já disse algo assim em determinado momento da vida. Às tantas aquilo começou a ficar um bocado exagerado, porque [a personagem Cavaca] começou a falar mal português e não é uma coisa que lhe aconteça. Ela [Maria Cavaco Silva] não fala mal português."

Aliás, Hugo confessa que Maria Cavaco Silva foi sua professora de Português no ano zero da Universidade Católica de Lisboa. Uma vingança em forma de humor aguçado? Hugo garante que não. "Tenho ótimas recordações dela. É uma pessoa com um grande interesse cultural. E que o canalizou para presépios de barro e de caixas de iogurte vazias. Ela tem uma coleção gigantesca de presépios que estão na Cidadela de Cascais. É a herança que a nossa primeira-dama nos vai deixar. Que é sempre uma boa herança que uma primeira-dama tão interveniente pode deixar", ironiza.

Hugo conta na entrevista que já teve feedback da própria por via indireta. E que não foi o melhor. "Já soube por portas e travessas que ela conhece a página. Acho que não achou muita graça. Acredito que ela não se reveja naquele humor. Mas acho que se podia rever nalgumas [publicações] e rir-se. Se calhar riu-se... para dentro. Não sei."

Uma coisa é certa, no dia 24 de janeiro (ou a 14 de fevereiro caso haja necessidade de uma segunda volta), quando o novo Presidente for eleito a página 'Cavaca para Presidenta' deixará de estar ativa. Com a pena de muitos, certamente. Poderá surgir uma nova página do género com a ou o 'mais que tudo' do novo ocupante do Palácio de Belém? "Não sei. Certamente que o próximo Presidente da República vai ser o Marcelo Rebelo de Sousa. E o próprio já é um palhaço, não precisa de uma página como o da 'Cavaca para a Presidência''', afirma Hugo. Que manifesta ainda uma vontade sobre 'Cavaca'. "Quando esta página acabar, tenho a ideia de lançar uma petição pública para que a Maria Cavaco Silva possa ser emérita. Para sempre. Como é um dos Papas."

Hugo, que esteve inscrito em dois cursos superiores (Direito, na Universidade Católica, e História, na Nova), cedo abandonou a ideia de um dia ser advogado e partiu para Londres, primeiro (onde esteve seis meses) e depois Amesterdão (cinco anos), cidade em que se sentiu em casa. Na capital de todas as liberdades, Hugo "trabalhava em algo chatíssimo ligado à informática... Dava para as drogas." Outra desilusão foi sair de Lisboa a achar que era um tipo "alto e louro" e deixar de o sentir de imediato em Amesterdão, quando se deu conta de que a maioria dos holandeses são bem mais louros e bem mais altos do que ele. 'Mas continuo a ter uma grande identificação com a Holanda. Por isso adotei o apelido van der Ding. Que não quer dizer absolutamente nada. Não há ninguém que se chame van der Ding na Holanda. Ding significa 'coisa' em holandês.", esclarece.

Filho de uma professora de francês e de um artista plástico, nos últimos dez anos Hugo tem vivido de traduções, mas andava a acusar o cansaço desse trabalho obsessivo e solitário e, finalmente, está a conseguir sustentar-se apenas das tiras de humor. Um dos sonhos tornados realidade a par de outro que vem dos tempos de criança e que também está a realizar. Ser ator.

Hugo estreou-se esta quinta-feira na peça 'O Nome da Rosa', no Teatro Nacional D. Maria II (depois de uma temporada no Rivoli, no Porto) e que vai estar em cena apenas até ao próximo domingo, 17 de janeiro. Um espetáculo a partir de um texto escrito por si e por Pedro Penim, que é uma homenagem à atleta Rosa Mota, que também sobe a palco com eles. "Quando o pano se fechou percebi que era aquilo que queria fazer da minha vida. Estava farto do processo moroso e solitário de estar em casa a traduzir durante dois meses, que é o tempo que demora a traduzir um livro".

Na calha está mais um livro de humor para ser lançado talvez este ano, "mas desta vez sem bonecos". Até porque nesta entrevista nos chega a dizer: "O humor é a única coisa que [melhor] conheço. É o que me liga às pessoas. É a minha cola social. Junto com a droga e o álcool, obviamente." E no embalo dos desejos e sonhos partilha ainda a vontade de escrever o argumento de uma telenovela.

Mas tratando-se de Hugo, que olha o mundo como quem olha um inseto com uma lupa, claro que esta não seria uma telenovela qualquer. "Chamar-se-á 'Vidas Pó Lixo'. Estamos fartos de novelas tipo 'coração independente', 'sonho dourado', 'anjo morto'. Ninguém mais aguenta os nomes das novelas. São sempre as mesmas variações de três ou quatro palavras. Seriam vidas para o lixo, uma autêntica palhaçada."

Mas há muito mais para ser revelado nesta entrevista em podcast, que não deve perder. (Para a ouvir basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no soundcloud.)

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.