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A Beleza das Pequenas Coisas

Filipe Alves: peixeiro de dia, artista plástico à noite

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É artista plástico mas ganha a vida numa peixaria moderna que abriu com dois amigos, em Lisboa. Trata os clientes por “freguês”, ouve hip hop na loja e dá masterclasses a todas as pessoas que queiram mesmo pescar do assunto. Diz de si que é completamente “selvagem”, “livre”, “sem arreios”. Vendeu cartões de crédito, pranchas de surf, foi empregado de supermercado, passou por uma serralharia e marcenaria, geriu uma oficina de camiões pesados, serviu refrescos num quiosque de bairro e até trabalhou em camiões do lixo. O trabalho, qualquer que seja, não lhe mete medo. Para Filipe, a vida é sempre a aprender. Uma história para ouvir no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

Liberdade. Talvez seja a palavra que melhor define Filipe Alves. A combinar com uma boa dose de inquietação e ousadia. Formado em artes plásticas, nas Caldas da Rainha, e um dos criativos do coletivo "Casa da Praia", há dois anos arriscou com dois amigos abrir a "Peixaria Centenária", no número 55, da Praça das Flores, em Lisboa. Uma peixaria em tom tradicional mas com algumas modernices, como as masterclasses aos sábados que ensinam os fregueses (principalmente os mais novos) a amanhar o peixe ou a escolher o pescado ideal para cada ocasião (cada sessão tem um custo de 25 euros).

O Filipe artista, esse, ficou para as horas vagas ou mortas e para as noites longas quando a inspiração o visita. "A arte não dá dinheiro. E [escolhi ser peixeiro] porque tenho os meus vícios e gosto de ter os meus luxos e o dinheiro é essencial para os ter. Poderia ser um artista de calças rasgadas. Mas é preciso um pouco de conforto para que a nossa mente esteja limpa."

Nesta conversa feita num canto da peixaria, atrás de uma cortina, Filipe, de 34 anos, conta-nos que a única vez que lançou uma cana de pesca ao mar regressou com o balde vazio e uma grande 'tosga'. Leia-se, bebedeira. "Os pescadores de muitos anos aguentam bem a cerveja, já não lhes faz mal, e conseguem mesmo tirar peixe da água. Eu não consegui. Saíram uns sargos, mas foram pescados pelos meus amigos que já bebiam há mais tempo."

Embora não se ajeite com a cana de pesca trata os peixes por tu (não fosse filho de uma peixeira), ajeita-se a cantar pregões (na entrevista improvisou um pregão, a pedido do Expresso) e tem como grandes prazeres na vida praticar bodyboard ou fazer campismo selvagem. "Adoro dormir na rua. Pegar num saco cama e ir para um ermo e dormir lá. Sozinho, com o meu irmão ou com amigos. A minha namorada não grama isso. Adoro a sensação do perigo, de não haver paredes. É muito giro. Não existem compromissos, pode acontecer tudo, um sonho qualquer, aquela confidência noturna, fumamos um cigarro e pode cair uma estrela e isso já me deixa feliz."

Filipe, que já fez um pouco de tudo para ganhar a vida, recorda como foi gratificante a experiência de ter trabalhado há dez anos em camiões do lixo, enquanto cantoneiro de limpeza, nas ruas de Portimão: "Se aquele senhor está pendurado ali no camião, então porque é que eu não me penduro e faço o meu dinheiro e a minha vida? E sabes que não desgostei... Era superduro, puxava muito pelo corpo mas, às tantas, estar pendurado no camião do lixo a subir a Serra de Monchique vindo de Portimão, no meio de arbustos, a 60 e 70 quilómetros por hora, com os cabelos ao vento, era fantástico, como andar de mota. Aquilo é que era 'thug life'." Mas há muito mais para descobrir. Ouça pelas suas palavras.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.