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O grande dilema: mostrar o que nunca foi visto em Fátima

Uma grande fotografia é sempre uma espécie de um milagre: "Tu tentas, tentas, tentas. E há um momento em que tudo se conjuga: a luz, o momento, o enquadramento". Cem anos depois das aparições, o grande mistério de Fátima é um dilema para os jornalistas. Que histórias é que ainda se podem contar na Cova da Iria? E que fotografias do santuário ainda conseguem surpreender-nos?

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Fátima vai de um extremo ao outro. Da fé absoluta ao desdém absoluto, da imensa literatura à volta das aparições ao imenso mistério que as rodeia, do silêncio da capelinha às multidões que enchem o recinto e nem o microclima do santuário escapa a esta lógica. Em Fátima parece sempre que ou está muito calor ou chove demasiado - “até as nuvens parecem comover-se com Fátima”. E o santuário, que nunca pára nem fecha, em perpétuo movimento, parece estar parado. Absolutamente parado no tempo. Todos os anos, todos os dias, apesar de todas as obras que o local de peregrinação foi sofrendo, tudo parece igual. As mesmas pessoas, a mesma fé. O que levanta um dilema: como é que se pode falar de Fátima sem cair nas mesmas frases e nos mesmos ângulos de reportagem? E como é que se pode fotografar o que já foi fotografado milhares de vezes por dezenas de fotojornalistas?

Artigo de Mário Robalo no Expresso de maio de 1987

Artigo de Mário Robalo no Expresso de maio de 1987

"A poucos dias do 13 de maio, Fátima abre-se de novo a milhares de peregrinos. Mas o santuário tem vizinhos de duvidosa fama: comércio desregrado, hotéis clandestinos, um ‘exército azul’ para ‘salvar a Rússia’, um museu de cera indescritível" - assim rezava a entrada de uma reportagem sobre o santuário mariano na edição do Expresso de 9 de maio de 1987. Foi há 30 anos e, com ligeiras alterações, podia ter sido publicado agora.

A reportagem da autoria do antigo jornalista do Expresso Mário Robalo começa no recinto do santuário com uma mulher que "arrasta os joelhos pela passadeira de mármore que se estende desde a cruz alta até à capelinha das aparições" e que ao chegar ao fim "acende uma vela com a altura do filho, terminando assim o cerimonial de reconhecimento que todos os anos", desde 1970, "faz à mãe de Deus" por ter feito o "milagre de trazer o filho são e salvo da guerra do Ultramar". Ermelinda, assim se chama a fiel peregrina, é apenas um entre milhares de crentes que todos os anos, há um século, cumprem promessas em Fátima.

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Tiago Miranda

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José Carlos Carvalho

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Rui Duarte Silva

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Rui Duarte Silva

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Rui Duarte Silva

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Ana Baião

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Ana Baião

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Ana Baião

Desde 1917 que Fátima é um local de paragem não só para crentes e turistas, mas também jornalistas e fotojornalistas. De forma geral, com mais ou menos detalhe, todos os portugueses conhecem a narrativa das aparições e já viram imagens dos três pequenos pastores e das grandes celebrações ocorridas no recinto do santuário. Por isso, a pergunta que hoje se impõe aos jornalistas que têm de fazer a cobertura noticiosa do 12 e 13 de maio é: o que é que ainda se pode contar sobre Fátima?

É possível um novo olhar sobre o santuário? Há ainda alguma imagem por fazer, algum artigo por escrever?

José Pedro Castanheira e Rosa Pedroso Lima acompanharam as visitas papais a Fátima e consideram essas experiências "fundamentais" na carreira de qualquer repórter. Opinião que o fotojornalista António Pedro Ferreira subscreve inteiramente, uma vez que desde 1979 vai "praticamente todos os anos a Fátima" nos dias de grandes peregrinações. "Fátima é inesgotável", diz ele. Tiago Miranda, fotojornalista, segue essa tradição de reportagem e só falha as celebrações no santuário quando outras reportagens se atravessam. Já Ana Baião, Rui Duarte Silva e José Carlos Carvalho, também fotojornalistas, têm uma relação diferente com a Cova da Iria.

F5, podcast do Expresso, encontra e conta as histórias que marcaram os jornalistas, mostrando os bastidores da redação e acrescentando o futuro que cada história teve. No episódio de hoje falamos não de uma história em particular, mas sim de um local que marca os repórteres que por lá passam.

Carregamos na tecla "F5" para refrescar a memória - a nossa, a dos leitores e a das pessoas que foram notícia.

  • “Fátima cresceu imenso, mas continua igual - é inesgotável”

    A distância deu-lhe um espaço para ver com precisão. Em 2017 António Pedro Ferreira ainda descobre nas fotografias de 1979 coisas que não tinha visto antes. Há quase 40 anos que retrata o ambiente místico do santuário mariano e, a propósito do centenário de Fátima, lança agora um álbum com quase 100 fotografias. “Fátima é um lugar onde as emoções estão à flor da pele”

  • “Era muito difícil conseguir dizer: foste tu, rio, o assassino”

    Tábua, centro interior do país, ano de 1993. Um passeio no campo acaba em tragédia: cinco crianças e professora do jardim de infância morrem afogadas no rio Alva. Abre-se uma ferida na terra e no interior de muitas famílias. Vinte e quatro anos depois, um fotojornalista é confrontado com a memória dessa ferida e volta a arrepiar-se como da primeira vez. Pelas imagens que captou – e pela fotografia que não conseguiu tirar. “Eu via aquelas crianças e só pensava: podia ser o meu filho, podia ser o meu filho”

  • Como esta fotografia mudou a vida desta mulher

    Fátima Medeiros enfrentou a câmara fotográfica antes de enfrentar o espelho. Vimo-la antes de ela se ver a si própria, depois de operada, sem um peito. Quando a fotografia saiu, um telefonema mudou a sua vida. Bem-vindos ao podcast F5: histórias cheias de gente, contadas pelas pessoas que as viveram – e pelos repórteres que as contaram e não quiseram, ou não conseguiram, esquecê-las