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O músico de hip-hop açoriano que pertenceu a um gangue americano

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Diogo Ledo, mais conhecido como Swift Triiga, é um jovem músico de 25 anos que faz da canção de rua a janela para gritar dores e raivas. Criado em São Roque, uma das regiões mais pobres da ilha de São Miguel, nos Açores, conheceu demasiado cedo o lado marginal da vida. Após a morte da mãe, tornou-se músico, inspirado por Sandro G — o pai do hip-hop açoriano. E foi em Boston, atraído pelo sonho da música, que Swift cedeu às más companhias. Quis ser ‘bad boy’, juntou-se a um gangue para pequenos delitos, mas quando se arrependeu e quis regressar à ilha foi ameaçado de morte. Acabou por escapar e jurou nunca mais ser bandido. A música salvou-o e ajudou-o a levantar. Quer gravar um disco, dar concertos pelo mundo e abrir uma barbearia ou padaria. “Essas coisas passadas não são as melhores de recordar. Nunca as devia ter feito. Não quero ser mais do que ninguém, nem pior do que sou, só melhor do que fui ontem.” Este é o rastilho para uma conversa intensa, confessional e desconcertante no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Entrevista e ilustração

Jornalista

João Santos Duarte

João Santos Duarte

Edição sonora

Jornalista

Carlos Paes

Carlos Paes

Motion graphics

Infografia

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Esta é uma conversa feita de confissões, revoltas e mágoas sobre um passado sombrio e errante que ficou bem lá atrás e um futuro que tem tudo para dar certo. Diogo Ledo, aka Swift Triiga, de 25 anos, é uma das maiores promessas do hip-hop açoriano com vontade de chegar longe na música. É nos ‘beats’ das suas canções que descarrega a sua raiva e que articula recados ao mundo. Foco apontado para a realidade crua dos bairros pobres açorianos e para as vidas ao deus-dará a quem ninguém dá trabalho ou a mão.

Swift foi menino criado na rua, na zona de São Roque, um dos bairros mais pobres de São Miguel. Muito cedo conheceu o lado marginal da vida, num lugar onde a prostituição, a toxicodependência, o tráfico de droga, os esquemas — os chamados “trinta-e-um” — são os protagonistas da paisagem.

Como na sua casa havia pouco para colocar no prato, aprendeu a safar-se, a ser um bravo nas zaragatas e um mestre nos 'trinta-e-um'. Tinha 21 anos quando a mãe faleceu e com o desgosto socorreu-se das drogas sintéticas à disposição nas lojas da moda. O precipício abriu-se aí. Começou a roubar em casa, a mentir aos amigos, a trapacear. “A droga dava-me autoconfiança fazia-me esquecer os meus problemas. Fazia-me esquecer aquela dor da minha mãe ter-se ido embora. Pensava eu. Iludia-me com isso. Pensava que era mais forte do que aquilo, mas aquilo acaba por ser mais forte do que a gente.”

Um dia o seu pai da música, Sandro G., convidou-o para ir viver com ele para os EUA. Swift nem olhou para trás, foi de cabeça e, durante seis meses, viveu em Boston. Aprendeu mais sobre a musica que o apaixona, ouviu muitos artistas, apurou o estilo, ganhou uma assinatura. Mas longe da terra e dos seus acabou por ceder às canções dos bandidos e alistou-se num gangue de rufias experimentados. Passa a ser lobo de rua, a viver de furtos e esquemas fora da lei. A música passa a ser outra.

Nesta conversa feita num restaurante em Ponta Delgada — no mesmo dia em que atuou no Coliseu Micaelense para uma vasta plateia, no âmbito da programação do Festival Tremor — Swift vai a fundo na grande mácula do seu passado. Para depois afirmar que o rapaz de ontem não é o homem de hoje. Aponta para a tatuagem que tem no braço direito. Uma tatuagem fora da lei.

“É um arrependimento do que eu fiz. Registei-me nesse ‘gang-crip’ [gangue afro-americano], em Fall River [no estado de Massachusetts.] Foi uma experiência que não devia ter feito. Já pensava ser um gangster, sabe, mentalidade de puto, queria ser bandido. Fui para os EUA com a cabeça no ar para ser ‘drug dealer’ (traficante de droga), Comecei a dar-me com pessoal que não devia. Graças a Deus nunca fiz parte de um homicídio, mas tive de fazer uns roubos. Assaltei pessoas no caminho, roubei ‘junkies’ na rua com um lenço na cara. Coisas que não são as melhores para recordar. Envergonha-me um pouco porque não devia ter feito nada disso. Não volto a fazer, já aprendi bastante. Isso não foi correcto. Não é a pessoa que eu sou. Não quero ser mais do que ninguém, nem pior do que sou, só melhor do que fui ontem.”

Diz-se discriminado pelos erros do passado e pelo aspeto de músico de hip-hop numa ilha que ainda estranha quem é diferente. Mas os sonhos que tem são livres, preciosos e, esses, ninguém lhes toca ou rouba. “Aqui [em São Miguel] se tens tatuagens ou brincos e queres trabalhar, não consegues. Pensam, ‘está aqui um gajo que é toxicodependente, que é bandido’. Dizem: ‘Não tens apresentação para trabalhares’. E se eu me quero orientar tenho que fazer esquemas. O que eu quero? Sonho com a gravação de um disco e em abrir uma barbearia ou padaria. O cabelo está sempre a crescer e há sempre fome de pão. E já me contento se puder tocar uma ou duas vezes por mês."

Mas há muito mais para descobrir sobre Swift, músico que deve conhecer nesta conversa honesta, desbragada, sem filtros. Spoiler: Swift canta a meio da entrevista uma das suas novas canções. Com a intensidade e verdade que são já a sua assinatura. Para ouvir este episódio, basta clicar na seta que se encontra no topo deste texto ou descarregar no Soundcloud.

O programa “A Beleza das Pequenas Coisas” conta com música dos Budda Power Blues.