É difícil escrever ultimamente e mais sobre futebol! A crise afundou-nos, o Governo lesionou-se e não se enxergam suplentes, os telemóveis andam vulneráveis, a Lua está a reter águas, palmaram-nos tempo aos dias, a Terra tremeu 44 vezes em 33 meses, vivemos sobre escombros e jangadas, o Planeta gira em rotação acelerada, a Oprah despediu-se do programa, o meu amigo Sala ameaça cortar o bigode se o Benfica voltar a ganhar a Liga dos Campeões - livra-te, António -, e, também chocado, o eixo da Terra deslocou-se e fez-me escorregar até ao fim da tabela - há condições?
Não há. Sabem? Atraiçoei o futebol, mas não estou arrependida. O meu pai recebeu um emblema do Benfica, em prata, no dia do baptismo. O meu avô era do Benfica, o meu pai foi-o também e todos os filhos o seguiram, menos eu. Um dia, com vinte anos, numa manhã de Abril interrogada, enquanto gente valorosa assaltava quartéis ou se pisgava para o Brasil, eu trocava de clube por puro snobismo e anunciava em casa: "A partir de hoje sou do Sporting, porque verde é a cor da Esperança!"
Desde então tem sido só perder, mas não me importo: sempre achei o Sporting mais chique, Alvalade um viscondado, o verde menos utópico, os adeptos com melhor ar e as suas derrotas mais desportivas. Por exemplo: sempre que um árbitro "rouba", enquanto os benfiquistas, sanguíneos, berram "Metes nojo, ó palhaço, vai para a meretriz que te pariu!" os sportinguistas segredam "Vê-se logo que é povo, repara só no relógio..." E o relógio, lá está: o encarnado sem o verde nem Gucci era!
Depois, há este orgulho em ser-se povo, que galvaniza os adeptos. Mas o que é "ser povo"? Diluirmo-nos numa massa anónima que, aconteça o que acontecer, tem razão? Ver um País, com pedigree como o nosso, a beber da sarjeta e a pedir, por favor, "uma pinguinha"? Pertencer a uma gente sem maneiras, que bate nos professores? Saltar dele para o PS, sem transição?
Nem pensar, fico onde estou: também rodeada de povo, mas menos. E não seja por isso: se o Sporting for um dia campeão de alguma coisa lá irei também à cera, que remédio.
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Março de 2010
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