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Piqueno

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
9:00 Sexta feira, 23 de dezembro de 2011

Em carta ao seu dilecto Alberto de Oliveira, e na altura em que a relação entre ambos se aproximava da definitiva ruptura, escrevia António Nobre, "Quando chegará a hora de eu te ver harmónico e igual (sem pequenos com i) simples a valer (...)?" A gravidade do momento que o poeta então vivia, postulando a abstenção de toda a frivolidade, condenava o emprego do pretensioso "piqueno" como um desses classismos que faziam crescer a água na boca aos alpinistas sociais. E ainda hoje o "piqueno" constitui petisco linguístico de uns quantos passarinhos, se bem que dos que mais andam a cair da tripeça, inculcando no ouvinte deles a clara ideia do onde vêm, ou do aonde pretendem aportar.

Juntamente com outras falsas marcas de estirpe, e com o correlativo código de proibições, o "piqueno" fica assim como sinal que atravessou as épocas, a amparar quem se esgadanha por subir a partir da chinela. E avançando o "enterro" em vez de o "funeral", o "encarnado" em lugar do "vermelho", ou a "retrete" que exclui a "sanita", acompanham-se os tristes classismos de hoje de um compêndio de gestos, estranhamente inventado pela portugalidade, a fim de assinalar a diferença, da qual consta como generalizado arquétipo o beijo solitário na face, ou fora dela, a que penosamente aderiram múltiplos "bens", feitos à pressa. Mas eis que se manifesta aqui um distinto, e curioso, fenómeno sociológico, esse que consiste na substituição do tal emblema de estatuto, sempre que o queque se deseja simultaneamente aspirante ao intelecto. Opta-se então, e corajosamente, pelo duplo beijo, desse modo se apresentando a prova da hegemonia da qualidade mental.

É possível que, mercê das agruras resultantes do agigantamento da crise, passem à história os derradeiros abencerragens do "piqueno", e com eles os praticantes do beijo único, tão temporário afinal como foi o surto da famosa ténia, parasita justamente celebrado pela sua misantropia. E já que nos últimos tempos, e entre aqueles de quem menos se esperava, se generalizou o uso da "minha esposa", tão estridente aos tímpanos dos correctos, mas indetível na sua marcha de produção brasileira, novos horrores, ofensivos da sensibilidade dos "comme il faut", desatem a campear por aí a torto e a direito. Aparecerão em breve talvez a "minha gaja", o "meu mânfio", os "meus catraios", e até, se formos suficientemente ousados, a "minha canalha", e os "meus velhotes".

Que assim seja, se Deus quiser, e à boa e portuguesíssima maneira!

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