26/05/2012 atualizado às 18:02
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Pina Bausch: "Eu sou só eu"

A bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch não deixa sucessão possível para a sua dança única.

Cristina Peres
19:26 Terça feira, 30 de junho de 2009
Pina Bausch numa foto de arquivo de Agosto de 2008, tirada em Frankfurt
Pina Bausch numa foto de arquivo de Agosto de 2008, tirada em Frankfurt
Michael Probst/AP

Tanto quanto 95% daquilo que Pina Bausch inventou para o mundo da dança ficará para sempre inédito. Foi ela própria que revelou a percentagem numa entrevista que me deu em 2003, garantindo partir do zero cada vez que começava a trabalhar numa nova criação.

A exactidão da voz baixa, num alemão claríssimo, a língua mãe que lhe permitia dialogar "em casa" - ao contrário do inglês que parecia forçá-la a uma fragilidade não desejada - traía o cansaço provocado pela conferência de imprensa que precedera a entrevista e a apresentação em Lisboa do espectáculo "Água".

Falar estava longe de ser o seu forte. Preferia o silêncio do estúdio de Wuppertal, qualquer estúdio onde os bailarinos fizessem aulas antes dos espectáculos, as coulisses de cena, que só abandonava já durante a primeira cena para se sentar na sala até aos aplausos, onde subia ao palco para os partilhar com os bailarinos. E isto em todas as récitas de todos os espectáculos que o Tanztheater Wuppertal dançou em casa e nas digressões mundiais ao longo de mais de 30 anos de carreira.   

Chá e cigarros


Chávenas de chá e milhares de cigarros compunham-lhe a figura esquálida, alta, magra, tranquila, fixada por uma fotografia sua que acompanhava a estreia da companhia em Portugal, precisamente há 20 anos, nos Encontros Acarte de 1989.

"Auf dem Gebirg hat man ein Geschrei gehört" irrompeu pelo palco do Grande Auditório da Gulbenkian para operar a revolução que ainda aqui não chegara. E nunca mais nada foi igual, como se o público de Lisboa tivesse tido de inventar uma nova forma de aplaudir uma matéria artística tão completamente revolucionária.

Chávenas de chá e milhares de cigarros compunham-lhe a figura esquálida, alta, magra, tranquila
Chávenas de chá e milhares de cigarros compunham-lhe a figura esquálida, alta, magra, tranquila
Luiz Carvalho

Foi preciso esperar por Lisboa 94-Capital Europeia da Cultura para ver a primeira "colecção" de peças que recuavam aos anos 1970 até à mais emblemática versão da "Sagração da Primavera" alguma vez criada.

"1980" e "Viktor" deixaram o público boquiaberto e, pouco a pouco, mesmo que de forma anacrónica, chegava a Lisboa este património que falava ainda dos anos sombrios em que Pina criava "Blaubart" (Bartok) e "Opheus und Eurydike" (Gluck) experimentando com os seus bailarinos toda a excepção do universo que ela via e transformava em poderoso testemunho de movimento.

A Lisboa de Pina 


Em 2003, já a cidade tinha visto mais da "colecção" Bausch e alimentava uma expectativa sobre "Água", o espectáculo que tinha sido criado a partir de uma residência artística no Rio de Janeiro. Lisboa já tinha passado pela mesma triagem de imagens e conhecia o olhar que a coreógrafa alemã lhe tinha dedicado.

O resultado era "Masurka Fogo", uma criação de 1998 (Festival Mergulho no Futuro no âmbito da Expo 98) que fizera a ponte entre Wuppertal e essa descoberta maior de uma Lisboa capital multicultural e cheia, finalmente, da presença de "outros". Uma dança mais feliz, cheia de flores projectadas a toda a escala da cena, cheia dos outros tempos dos outros, Brasil, Portugal, Turquia, Hong Kong, Itália...

Pina Bausch olhou as pessoas como poucos artistas. E apesar de ter sido fonte de inspiração para todas as gerações de criadores vivos desde os anos 70, nunca confundiu o fruto do seu trabalho com nada senão com dança.

A morte de Pina Bausch põe um ponto final no Tanztheater Wuppertal tal como o conhecemos
A morte de Pina Bausch põe um ponto final no Tanztheater Wuppertal tal como o conhecemos
Luiz Carvalho

"Na dança só há dança" 


Disse-me, na mesma entrevista: "Não sei responder se há uma dança mais feliz que outra. O que é maravilhoso na dança é que é sempre 'no momento' e não existe mais nenhum momento quando se está naquele. Na dança não há ontem nem amanhã, só há dança. É fabuloso, é sempre única, não se pode repetir. Nunca se sabe o que poderá ser reconstituído de uma apresentação de dança. Extraordinário é o teatro, o público, as pessoas sobre o palco, a música, mas é tudo único de cada vez".

A morte hoje de manhã, terça-feira 30 de Junho, desta mulher que criou o irrepetível em todos os momentos que viveu põe um ponto final no Tanztheater Wuppertal tal como o conhecemos. Não há sucessão possível daquilo que é único e a sorte grande foi ver em Lisboa, por duas vezes, "Café Müller", a única peça que Pina ainda dançava.

Havia alguma separação entre o trabalho e a vida? "Não conseguiria separar. Eu sou só eu", respondeu-me por fim.

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Quando Mozart morreu...
dedalo11 (seguir utilizador), 2 pontos , 20:07 | Terça feira, 30 de junho de 2009
... apenas para exemplificar, a música não se acabou, para além da dele. Por mais doloroso que possa ser ver desaparecer uma figura genial, e este é um desses casos, a Dança continuará a persistir, a inovar, crescer ou baixar de qualidade, embora a estética não seja propriamente algo que se julgue. Para dizer que nada acaba aqui e que de Pina Bausch fica um vasto legado que quem leva a serio a Arte da Dança, saberá guardar, descodificar algumas das suas ideias e, entretanto, com o passar do tempo, aparecerá- acontece sempre -mais alguém que entregue a vida a esta arte. É um momento de emições fortes mas só pode ser também de esperança. Importante agora é não perder uma ocasião de lembrar Pina Bausch com o maior respeito e admiração.
 
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Grande texto Cristina Peres
userEX30860 (seguir utilizador), 1 ponto , 19:51 | Terça feira, 30 de junho de 2009
De facto é uma nova era. O momento é triste para quem ama a arte mas o seu texto é óptimo levando o comentário da Dança no EXPRESSO para outras paragens onde o rigor se confunde com a vida e a poesia. A morte é vida também.
Não devia deixar de escrever sobre Dança, faz falta.
E Pina Bausch acharia o mesmo.
 
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Eu fui a primeira pessoa a comentar Cristina Peres
userEX30860 (seguir utilizador), 1 ponto , 20:46 | Terça feira, 30 de junho de 2009
mas o engraçado e que o comentario do caro dedalo11 aparece em primeiro lugar e com dois pontos. calculo que seja da casa ...
apenas um comentario e apoio o que escreveu
 
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    Re: Eu fui a primeira pessoa a comentar Cristina P    Ver comentário
B l u e S k y (seguir utilizador), 2 pontos , 23:53 | Terça feira, 30 de junho de 2009
    Re: Eu fui a primeira pessoa a comentar Cristina P    Ver comentário
userEX30860 (seguir utilizador), 1 ponto , 1:50 | Quarta feira, 1 de julho de 2009
    Re: Eu fui a primeira pessoa a comentar Cristina P    Ver comentário
sopa de letras (seguir utilizador), 1 ponto , 5:51 | Quarta feira, 1 de julho de 2009
    Re: Eu fui a primeira pessoa a comentar Cristina P    Ver comentário
userEX30860 (seguir utilizador), 1 ponto , 14:09 | Quarta feira, 1 de julho de 2009
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