Como funciona a pílula do dia seguinte (gráfico animado)
Tornou-se uma forte aliada das mulheres quando o método contracetivo habitual falhou ou não foi usada qualquer proteção
Após uma noite quente de rebéubéu, nham nham, hum hum, sem proteção... Ups!
E se fosse possível fazer control+alt+delete? É isto a pílula do dia seguinte. Um medicamento que se for tomado nas primeiras 72 horas após uma relação sexual desprotegida, evita uma gravidez indesejada.
Evita. Leu bem. Estas pílulas "não são abortivas e não funcionam a 100%. A sua taxa de eficácia situa-se entre os 75% e os 90%", alerta Tereza Paula, ginecologista, membro da Sociedade Portuguesa de Ginecologia.
Existem dois tipos destas pílulas no mercado. As primeiras, à base de levonorgestrel, têm de ser tomadas até 72 horas depois do ato sexual e a sua eficácia vai reduzindo à medida que se aproxima o fim daquele tempo. A mais recente, denominada pílula dos cinco dias, tem como substância ativa o acetato de ulipristal e permite ganhar tempo e segurança, uma vez que a toma do comprimido mantém o mesmo grau de eficácia seja administrado no início ou no fim das 120 horas após a relação sexual. Só que, é mais cara (cerca de €20), não tem comparticipação e precisa de receita médica, ao contrário da primeira que é de venda livre e pode ser adquirida gratuitamente nos centros de saúde. Porém, convém realçar que se uma mulher precisa de fazer várias repetições no mesmo mês, então é preferível tomar a pílula contracetiva regular, que é mais eficaz e barata. Embora, ao contrário da ideia que foi crescendo nalgumas cabeças, o uso da pílula oral de emergência não aumenta o risco de uma gravidez fora do útero, nem o risco de má formação fetal, ou tão-pouco o risco de infertilidade. Estes são alguns dos mitos que Tereza Paula gostaria de ver desfeitos de uma vez por todas. "Não há sobredosagem que possa ser má para a saúde." Basta ter em conta que há 40 anos as mulheres tomavam uma dosagem diária com uma carga hormonal "correspondente à das pílulas do dia seguinte".
A própria Organização Mundial de Saúde divulgou um documento onde afirma que este tipo de pílula é seguro para a saúde da mulher.
Além destes mitos, há um outro problema que segundo Lisa Vicente, chefe de Divisão de Saúde Reprodutiva da Direcção-Geral de Saúde, "persiste e precisa de ser ultrapassado: a conotação negativa e de irresponsabilidade que se colou às mulheres que a utilizam. Se existiu um erro contracetivo, afinal o que é mais irresponsável, deixar seguir o erro ou corrigi-lo?", pergunta Lisa Vicente. Curiosamente, tendo em conta os estudos já realizados e a experiência das ginecologistas a contraceção oral de emergência é "normalmente utilizada por mulheres jovens e bem informadas", adianta Tereza Paula e não tanto por adolescentes.
A pílula do dia seguinte altera a condição de receção e isso atrasa ou impede a ovulação (veja infografia). Não se trata pois de um método abortivo. "Pode falar-se em aborto quando o embrião está implantado o que não acontece nos primeiros três dias. Aqui o óvulo pode estar fecundado, mas não está implantado. E se o embrião não tiver terreno para se implantar não há vida", explica Tereza Paula. Estando grávida a pílula já não vai fazer efeito.
Por outro lado, há que ter em conta que a toma da pílula do dia seguinte pode ter efeitos secundários, nomeadamente dor de cabeça, náuseas, vómitos, tonturas ou dores abdominais. A ginecologista alerta para o facto de "se por acaso vomitar bastante nas primeiras duas ou três horas após a ingestão da pílula, deve tomar outra". Se tiver alguma doença e se toma determinados medicamentos, como "antiepiléticos por exemplo, ou medicamentos para a tuberculose e certos antibióticos", deve falar com um técnico de saúde antes de tomar a pílula do dia seguinte.
Sendo o plano B da mulher, não é de estranhar que nos primeiros sete meses deste ano se tenham vendido mais 40 mil pílulas do dia seguinte do que em todo o ano de 2009. Lisa Vicente remata: "Significa que as mulheres estão mais bem informadas."
(Publicado na revista Única de 27 de Novembro de 2010)


