19 de abril de 2014 às 10:26
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Peregrino

Peregrino é um breve opúsculo escrito por Armando Martins Janeira que presta tributo a Wenceslau de Morais, descrevendo a cerimónia de conversão do primeiro português ao Xintoísmo e aos encantos do Oriente, no dia em que se inaugurou um monumento em sua honra na cidade de Tokushima.
Margarida Paes
A capa do opúsculo Peregrino
A capa do opúsculo Peregrino
Wenscelau de Moraes, 1916 Wenscelau de Moraes, 1916

Peregrino, da autoria de Armando Martins Janeira é uma reedição póstuma da Pássaro de Fogo lançada em 2008, que relata de uma forma simples, mas muito sentida, o elevar da alma de um seu conterrâneo à religião japonesa Xintô. A homenagem que Janeira faz à vida de Wenceslau de Moraes começa de uma maneira inspiradora - "Para poder entrar no Céu pelas piedosas mãos de Buda, Wenceslau de Moraes despiu-se do seu nome português e recebeu o Kaimyo, nome de morto, de Soukou Inden Hensou Bunken Daikoji, que magnificamente quer dizer: peregrino escritor habitante de um iluminado castelo de algas - algas movediças, sugerindo a vida de marujo e aventureiro. Assim o luso Wenceslau renasceu, como qualquer japonês, para a vida eterna das reencarnações, com um nome rútilo e virgem."

Janeira situa-nos no espaço e no tempo - "O monumento que a cidade de Tokushima ergueu à memória de Wenceslau de Moraes fica ao cimo da principal avenida, Shinmachi-bashi, na raiz do monte Bizan. Foi inaugurado no aniverásio da sua morte, em 1 de Julho de 1954." Ao longo do texto e de uma forma mística, o autor exalta o sentimento, que ele próprio experimentou, de se viver entre um povo oriental, onde tudo parece ao revés do que nos é costume. Quando chega a sua vez de subir ao altar, se ajoelhar, fazer uma vénia e queimar três vezes incenso, Janeira depara-se com uma imagem de Morais e confessa - "Apossa-se de mim uma emoção extraordinária e funda, sinto-me transportado a um mundo ignoto em que o meu espírito comunga, em admiração e afecto a Wenceslau, confiando-me a ele, à sua sabedoria, à sua protecção, nesta contracorrente de sentimentos os mais estranhos em que me confundo e extravio; ora o sinto meu, português do meu sangue e da minha língua, ora o sinto estrangeiro e me perco, desatinado, na espessura de ritos e secretos símbolos, no canto litúrgico cujos sentidos não penetro, numa atmosfera densa de mistério que me fascina e me transporta."

A poesia e o misticismo embalam o leitor e Armando Martins Janeira vai revelando o seu estado de espírito, fazendo referência aos pensamentos, filosofias e vidas de grandes nomes como Raul Brandão, Saint-Exupéry, Rilke ou Gauguin. A conclusão do autor é profunda e demonstra o amor que é descrito ao longo de todo o texto - "Compreendi então claramente que Wenceslau não morreu inutilmente aqui entre estrangeiros. O seu espírito inspira a bondade e a compreensão humana com que os japoneses me agasalharam e recebem quem vem de Portugal. Pela primeira vez se rompeu o muro que ódios de religião e de raça e a incompreensão levantavam. O anátema de Kipling, East is East and West is West - nunca o Oriente e o Ocidente se encontrarão - foi Wenceslau de Moraes, que mais sofreu com ele, o primeiro a derrubá-lo. Semearam amor os seus livros, todos cheios de amor por esta terra gentil e formosa, onde alegremente se canta aos mortos e as virgens, em longas túnicas brancas e vermelhas, dançam em louvor aos deuses."

"Foi este o 26.º serviço budista em sufrágio da alma de Wenceslau de Moraes, que no seu testamento dispôs que queria ser cremado e enterrado segundo os ritos budistas, e que desejava que as suas cinzas fossem juntas às da sua amada Ko-Haru." E assim foi reconhecido no Japão enquanto "um daqueles raros homens em quem o Espírito se revela com as virtudes que, entre a massa, individualizam o herói". Wenceslau de Morais entrou no Céu budista e renasceu para a vida eterna, "onde certamente vive feliz", garante Janeira.

"O verdadeiro encanto do Japão é esta luz divina que parece nascer das próprias coisas, que tudo alaga e embalsama, qual música inaudível, alegria suave, perfume que enche o ar, onda de espuma ou de sorriso. É este sorrir da luz brincada que explica o constante sorriso dos japoneses - a felicidade dos homens nasce da luz do Sol." In Peregrino, Armando Martins Janeira

"Estou num país delicioso, o Japão. Era aqui, em Nagasáqui, que eu desejaria passar o resto da minha vida, à sombra destas árvores, que não têm parceiras no Mundo". Wenceslau de Morais

Para saber mais sobre a vida e obra de Wenceslau de Morais veja aqui

Ficha Técnica

Coordenação
Cristina Castel-Branco e João Paulo Oliveira e Costa
Assistência Tecnica
Inês Pinto Coelho e Margarida Paes
Colaboradores
Alexandra Curvelo, Ana Fernandes Pinto, Leonilda Alfarrobinha, Pedro Canavarro, Ayano Shinzato D. Pereira, Alberto Vaz da Silva, Ana Maria Ramalho Proserpio, Alexandre Pereira, Ministro Arai Tatsuo, Ana Sofia Guerreiro, Manuel Gervásio de Almeida Leite, Yvette Centeno, Guilherme d´Oliveira Martins, Embaixador José Mello-Gouveia, Diogo Santos







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