Pensamento europeu de Passos é passar nos exames da troika
Na festa do Pontal, que marcou a rentrée política do PSD, o primeiro-ministro anunciou o fim da recessão em 2013. Leia as muitas reações ao discurso de Passos Coelho.
"A afirmação de que para o ano não vai haver recessão é pelo menos arriscada. O que me impressiona não é a falta de novidade mas estava à espera de um discurso forte, de esperança, sobretudo para os desempregados e para aqueles que atravessam cada vez mais dificuldades. Este discurso é desadequado ao momento, mal preparado, pouco rigoroso e pouco profissional. Os problemas do país não se resolvem no país. Resolvem-se no quadro europeu. E o que verificamos é que o pensamento europeu de Passos é passar nos exames da troika, cumprir custe o que custar. A crise que por aí vai não se deve certamente ao engenheiro José Sócrates."
Vera Jardim, socialista e ex-ministro da Justiça
"O discurso não referiu a luta contra o fatalismo da pobreza em Portugal, a luta contra a injustiça, que é gritante, e a revolução na Educação. Os portugueses estão mais qualificados, o sistema de ensino, com todos os seus defeitos, é o melhor que nós tivemos em toda a nossa história e os meus filhos e os meus alunos sentem que é melhor emigrar. Os melhores factores que nós lançámos não estão a ser utilizados por falta de organização de trabalho nacional. Estes discursos são discursos de ilusão, do passado. A maior parte dos factores de poder não são portugueses neste momento, não são domésticos. Pior do que isso, já não são europeus. Este discurso no Pontal é uma espécie de doping porque o essencial do nosso futuro se calhar passa pela Espanha recuperar e uma resposta das instituições europeias. O pior da crise neste momento não é o fator grego mas a incerteza de a Europa ser neste momento o contrário do oásis. Nem Passos Coelho sabe o que vai acontecer."
José Adelino Maltez, politólogo
"O primeiro-ministro derrapou de uma forma muito grave e isso é inteligível para a maior parte dos portugueses. A verdade é esta: nós temos um compromisso claro de 4,5% [do défice] que não vamos respeitar. E sobre essa matéria não pode haver nenhuma espécie de dúvidas. Só agora é que a direita portuguesa e, muito em particular o PSD, reconhece que a maior parte das grandes questões que nos afetam não são decididas por nós. Enquanto os socialistas estavam no poder, era o malandro do Sócrates e o PS que tinha a responsabilidade por tudo. Ora a verdade é que tem que haver uma linha diferente no quadro europeu e essa linha tem que resultar dos contributos que cada um dos poderes nacionais no quadro europeu dê para que essa linha se imponha."
João Soares, deputado do PS e ex-Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
"Foi um discurso pautado pelo seu timbre natural e genuíno, o do realismo. Não veio assumir compromisso que não estava em condições de assumir. Não veio fazer promessas irrealistas e tornar uma realidade mais dourada do que aquilo que ela é. Foi de um enorme realismo relativamente à questão do desemprego, onde disse claramente que não estava à espera que 2012 fosse tão mau. Tal como foi muito realista que em 2013 vai acabar a recessão e não se compromete em que medida é que vai haver crescimento. É cumprindo com o memorando de entendimento, com os objetivos e reformas que têm de ser feitas, que estamos mais perto de reganhar a soberania. Estamos mais longe do precipício."
Teresa Caeiro, deputada do CDS-PP
"Eu sou, talvez, um pouco mais pessimista do que ele. Estava até à espera de pior.Estas políticas que são impostas a Portugal - não depende dele - estão erradas. Todos sabem que eu não concordo com esta política, não concordo na medida em que ela está a dar prioridade às instituições financeiras e ao equilíbrio orçamental e eu defendo mais emissão de moeda por parte do Banco Europeu, mais moeda a circular, pagando o risco de uma inflação mas controlada, e criando-se mais emprego e havendo dinheiro para mexer com a economia."
Alberto João Jardim, Presidente do Governo Regional da Madeira
"O discurso do Pontal foi um discurso de incoerências, de más notícias e que não trouxe qualquer esperança aos portugueses e, como tal, nós condenamo-lo pela sua vacuidade e pela sua inexistência política. As palavras do primeiro-ministro são um poço de contradições e um mero artifício propagandístico."
Luís Fazenda, líder parlamentar do Bloco de Esquerda
"Não há muita alternativa àquilo que ele está a fazer. Ele está a fazer o melhor que é capaz, há coisas que estão correr bem e há outras que estão a correr mal, como tudo na vida, mas a linha de rumo só pode ser esta. O primeiro-ministro está a fazer um esforço em condições muito difíceis e temos que dar o benefício da dúvida, e como portugueses ajudar ao máximo para conseguirmos sair deste problema. Não é preciso ser apoiante deste Governo para querer que tudo corra bem."
José Miguel Júdice, antigo Bastonário da Ordem dos Advogados
"O primeiro-ministro está longe da realidade e insistiu na mesma receita do custe o que custar. Mas custe o que custar o quê? Quantos desempregados? Quantas falências? Que resposta é que o primeiro-ministro hoje deu aos desempregados e aos empresários em dificuldades? A receita do custe o que custar falhou e o primeiro-ministro deve reconhecê-lo e mudar de rumo. No dia em que conhecemos que, em junho, o desemprego já era de 15%, que as falências aumentaram, que o crescimento económico não existe, o que o primeiro-ministro tem a dizer aos portugueses é que devemos aprovar uma regra de ouro na Constituição. O que é importante é perceber que cada décima são dezenas de milhares de portugueses e que o Governo tem de agir para combater o desemprego. Não foi apresentada nenhuma medida que possa dar qualquer sinal de esperança aos portugueses."
João Ribeiro , membro do Secretariado Nacional do PS
"Foi um discurso de alguém que procurou justificar o estampanço da sua política, como bem revela o aumento do desemprego, o aumento da recessão, a destruição de milhares de empresas. Um discurso de costas voltadas para o país, de alguém amarrado a um pacto de agressão. Acaba por pretender dar lições aos muitos milhares de portugueses que se encontram numa situação de enorme dificuldade, mas não teve uma palavra para cortar nas gorduras do grande capital, que continua a somar milhões de lucros. Temos um primeiro-ministro que não quer ver a realidade, que está amarrado a uma política que tem as consequências que todos os indicadores revelam, mas que insiste em mantê-la, afrontando a esmagadora maioria do povo português."
Rui Fernandes, membro da Comissão Política do PCP


