20 de junho de 2013 às 0:28
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Pelo bem da Europa, salvem-nos dos nossos salvadores

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Imagine uma cena de um filme que retrata uma sociedade repressiva e policial num futuro próximo. Patrulhas de guardas uniformizados circulam por ruas quase vazias da Baixa, à noite, em busca de imigrantes, criminosos e vagabundos. Espancam todos os que encontram. O que parece ser um guião fantasioso de Hollywood é hoje realidade na Grécia. À noite, justiceiros de camisa negra, do movimento neofascista Amanhecer de Ouro, patrulham as ruas e atacam todos os imigrantes que encontram: afegãos, paquistaneses, argelinos. É assim que a Europa é defendida na primavera de 2012, por vingadores que negam a existência do Holocausto, que obtiveram 7% dos votos nas últimas eleições e que, dizem, contam com o apoio de 50% da polícia ateniense.

O problema de defender a civilização europeia contra a ameaça dos imigrantes é que a ferocidade da defesa é mais ameaçadora para a "civilização" do que uma grande vaga de muçulmanos. Com defensores amigáveis como este, a Europa não precisa de inimigos. Há cem anos, G.K. Chesterton definiu o impasse em que os críticos da religião se encontravam: "Os homens que começam a lutar contra a igreja em nome da liberdade e da humanidade acabam por mandar a liberdade e a humanidade às urtigas, se só lutarem contra a igreja... Os secularistas não destruíram coisas divinas; mas destruíram coisas temporais, se é que isso lhes serve de consolo".

Muitos guerreiros liberais estão tão ansiosos por combater o fundamentalismo antidemocrático que acabam por dispensar a liberdade e a democracia, para só eles poderem lutar contra o terror. Se os "terroristas" estão dispostos a destruir este mundo pelo amor do outro, os nossos guerreiros contra o terror estão dispostos a destruir a democracia pelo ódio ao outro muçulmano. Alguns amam tanto a dignidade humana que estão dispostos a legalizar a tortura para defendê-la. É uma inversão do processo pelo qual os fanáticos defensores da religião começam por atacar a cultura secular contemporânea e acabam sacrificando as suas próprias recomendações religiosas na ânsia de erradicar os aspetos do secularismo que odeiam.

Mas os protetores anti-imigrantes da Grécia não são o principal perigo: são apenas um produto secundário da verdadeira ameaça, a política de austeridade que causou a situação insustentável na Grécia. A próxima ronda de eleições gregas terá lugar em 17 de junho. As instituições europeias advertem que são cruciais: está em jogo não só o destino da Grécia, mas talvez o destino de toda a Europa. Um dos resultados - o caminho certo, segundo eles - permitiria que o doloroso, mas necessário, processo de recuperação através da austeridade continuasse. A alternativa - se o partido de "extrema-esquerda" Syriza ganhar - é votar no caos e no fim do mundo (europeu) como o conhecemos.

Versão integral do artigo do "London Review of Books" em Presseurop.eu.

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