21 de abril de 2014 às 0:34
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Pela janela vi a destruição!

equipa MVASM (www.expresso.pt)
Barcelona (1936-1939) http://guerra-civil-espanhola.blogspot.com Barcelona (1936-1939)

1940 - Pequeno excerto da fuga de Joseph Dresner e sua família, pouco antes da invasão alemã e da capitulação francesa.


(...)

A passagem por Espanha

(...) Do outro lado na aldeia de La Junquera o meu pai esperava-nos. Depois veio um táxi que nos levou até à pequena cidade de Figueiras. Durante o trajecto vi que este país era muito diferente. Tudo o que conhecia de Espanha era o que tinha lido em D. Quixote. Quando vi um camponês andando com um burro, fiquei convencido que nada deveria ter mudado desde essa época até agora.

(...) No dia seguinte fomos para a estação ferroviária para irmos para Barcelona. Havia muitos homens a trabalhar na linha. Soubemos então, que eram presos republicanos da guerra civil. Fiquei triste, dois anos depois de tudo ter acabado e aqueles homens, ainda não eram livres. (...) Um dos republicanos disse-nos que o comboio estava atrasado porque primeiro tinha de passar o comboio com o rei Carol da Roménia e a sua amiga Magda Lupescu. (...)

Pouco depois chegou o comboio para Barcelona. A carruagem de 2ª classe estava bastante cheia. (...) Pela janela podia-se ver aqui e ali a destruição causada pela guerra civil. No banco à nossa frente estava um padre de batina e chapéu tipo disco voador.

Numa estação entraram dois guarda-civis de uniforme verde (...) que começaram a implicar com o meu pai por causa dos seus documentos. De repente o padre levantou-se e desatou a gritar com eles, qualquer coisa que não percebemos. Quando o padre terminou, os homens deram um "saludo" e saíram da carruagem. O meu pai foi agradecer ao padre que falava francês. Ficamos então a saber que ele lhe tinha dito "não se lembram da miséria da guerra no nosso país há tão pouco tempo? Porque é que não deixam em paz uma família que vem fugida de outra guerra?" Nunca esqueci esse padre. (...)

Chegamos à tarde a Barcelona (...). No dia seguinte, apanhámos o comboio para Madrid. É incrível como essa viagem durou mais de dez horas. O país parecia-me triste e arruinado pela guerra. Em cada estação havia muita gente ao longo da gare pedindo esmola aos passageiros.

Já era noite quando desembarcamos em Madrid. (...) No dia seguinte era um domingo. O meu pai teve a boa ideia de apanhar um táxi e pedir ao motorista que nos levasse a dar uma volta pela cidade para ver os lugares mais famosos e interessantes. Não estava habituado a cidades tão grandes com avenidas tão majestosas, por isso fiquei muito impressionado. A cidade era, porem, triste com muita pobreza e guarda-civis a cada esquina. Nunca lá quis voltar, nem mesmo quando estive de férias na Europa.

No outro dia à tarde voltamos a apanhar um comboio para Valência de Alcântara na fronteira com Portugal.

(...)

 



Fonte: Colecção particular Margarida Magalhães Ramalho


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ARISTIDES SOUSA MENDES
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Pérola
Para mim este blogue do MVASM é uma pérola do expresso.
  A forma como retratos de uma dimensão esquecida da Europa nos são trazidos com um traço original, mas que entretante adequiriu um tom nostálgico.
Contudo, é importante não esquecer que a faceta negativa da humanidade que tanto sofrimento causa por todo o mundo, muito sofrimento causau também na Europa.
De louvar a outra faceta que se revela em pessoas extraórdinarias que se elevam pelos actos e atitudes nesses momentos.

Apesar da crise, ainda vivemos na época mais pacífica e de maior conforto que a humanidade já viveu. Pelo menos na Europa e em algumas outras partes do mundo.
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