A MÁQUINA
DO TEMPO


PEDRÓGÃO UM ANO DEPOIS

Nove.

Rodrigo, quatro anos, morreu escondido debaixo do corpo do tio.

Luís, cinco anos, morreu no colo do pai.

Bianca, três anos, morreu com a avó.

Joaquim e António, quatro e seis anos, morreram a fugir com a família.

Joana, 15 anos, e Margarida, 12, morreram com a mãe.

Bianca, quatro anos, e Martim, dois anos, morreram em fuga com os pais.

Nove.

Nove crianças mortas a 17 de junho de 2017.

Dinis não morreu.

Está vivo mas perdeu a mãe. Ficou órfão. E, por isso, às vezes apanha o seu capacete branco, enfia as antenas coloridas nos ouvidos, liga a antena cinzenta à caixa de cartão, sintoniza bem e tenta colocar a funcionar a sua máquina do tempo.

Espera, espera, mas até agora nada. Dinis tem um sonho: quer voltar ao pior dia da sua curta vida, quer regressar ao dia em que estas nove crianças e mais 57 pessoas morreram no incêndio de Pedrógão Grande.

Dinis quer salvá-las. Não desiste. Dinis é criança, tem oito anos.

Dinis vive em Coimbra com os tios, Luís e Ana Catarina. Ana é irmã de Sara Costa, que morreu aos 35 anos a fugir do fogo com duas amigas. Morreu mas não desapareceu.

A fotografia de Sara a sorrir está sobre a cama de Dinis. Mais, Sara ainda se faz sentir nos caminhos de Vila Facaia, onde frequentemente Dinis passeia com a sua máquina do tempo.

"Ninguém nos consegue tocar ou ver, mas nós conseguimos tocar e ver as pessoas das outras dimensões”, diz a criança. Dinis conversa muito, fala de tudo, sabe de tudo, acompanha os assuntos, quase como um adulto. Mas é uma criança. Brinca, desobedece, faz birras.

Tenta manter intacto o traço infantil inerente à idade. Na escola nem sempre é fácil. Os tios contam que os outros meninos sabem o que aconteceu, falam, apontam. Ele vai resistindo, de vez em quando verga, mas ainda não quebrou.

Dinis e a máquina do tempo

Dinis e a máquina do tempo

Mais para os lados de Castanheira de Pera, Francisca Rodrigues, também de oito anos, anda de trotinete.

Parece que está tudo bem mas não está: a irmã, Filipa, e a mãe, Olga, explicam que “Francisca tem altos e baixos, o humor muda com frequência”. Tanto ajuda em casa como complica, tanto ri como chora. Não fala muito mas diz que já não tem medo.

Apesar de criança fez-se enfermeira, Francisca tentou como sabia ajudar a irmã na sua recuperação.

Filipa fazia parte da corporação que perdeu um dos seus, o bombeiro Gonçalo Conceição.

Filha, irmã e sobrinha de bombeiros, Francisca foge à resposta sobre se vai seguir o mesmo caminho, tanto diz que sim como nem por isso.

Pode uma criança com medo do fogo transformar-se num futuro bombeiro?

António, 13 anos, e Francisco, 10, são os outros rostos da luta diária travada pelas crianças das zonas afetadas pelo incêndio de 17 de junho de 2017.

Riem, falam, participam, mas quando o assunto é o fogo calam, nem que seja por alguns segundos. É visível a sombra que lhes passa pelos rostos. Quase tangível.

E é na escola que os efeitos são mais evidentes. Não tanto pelas notas ainda que também nelas, mas sobretudo pela variação de comportamentos, na relação com os colegas, contam os pais, atentos.

O peso que carregam é enorme, são os filhos de Rui Rosinha, o bombeiro-herói, o homem que viu o corpo derreter, resistiu a 14 cirurgias e já explicou que só conseguiu ultrapassar tudo porque na noite da tragédia ouviu o filho mais velho dizer-lhe, de dedo em riste, “pai, não vais morrer”.

Rui obedeceu, mas agora é António que tem de lidar com o efeito das memórias no presente. E com a responsabilidade. Francisco acompanha-o, aparentemente com maior leveza.

Mas a aparência não é uma certeza.

Francisco e António usam como amuleto da sorte o telemóvel que o pai levava no bolso no dia dos incêndios

Francisco e António usam como amuleto da sorte o telemóvel que o pai levava no bolso no dia dos incêndios

Francisco e António usam como amuleto da sorte o telemóvel que o pai levava no bolso no dia dos incêndios

Francisco e António usam como amuleto da sorte o telemóvel que o pai levava no bolso no dia dos incêndios

Francisco e António usam como amuleto da sorte o telemóvel que o pai levava no bolso no dia dos incêndios

Francisco e António usam como amuleto da sorte o telemóvel que o pai levava no bolso no dia dos incêndios

O mais pequeno deste grupo de sobreviventes é outro António. Acabou de fazer cinco anos. Mas não é por ser o mais novo que a situação é mais simples.

Fala pouco, esconde-se nas pernas da mãe. António é especial, usa um fato especial. Não o pode tirar, na esperança de reduzir as consequências das queimaduras que sofreu há um ano.

Quando o vemos, apetece brincar: é um avião?, é um cometa? não, é o super António. Porque ele é mesmo um supermenino, sobreviveu ao impensável: na noite do fogo fugiu com a mãe, Telma, o irmão então com três meses e a bisavó materna, tinham tido um acidente com o automóvel e António e a mãe fugiram a pé, em busca de ajuda, ele desmaiou na estrada, rosto colado ao alcatrão a ferver, a mãe continuou, sozinha, a procurar auxílio.

António ficou lá, desmaiado.

Símbolo da resistência física e emocional daquelas crianças, António não parece perceber bem a importância que lhe dão. António está bem, os pais e o irmão estão bem, também a bisavó.

A casa está intacta. Tudo parece normal, os planos de sábado à noite passam por comer massa e salsichas, ver televisão e brincar. Mas aquela família está longe de estar recuperada.

Amarra-os um silêncio espesso sobre o que se passou naquela noite e mais, sobre o que ficará daquela noite no futuro daquelas pessoas, sejam os adultos ou as duas crianças.

Ainda é muito cedo para perceber. Um ano é nada, aquela noite parece ter acontecido na véspera. Não é fácil evitá-la nas conversas. Surge sempre. Mesmo quando não se fala dela.

António, a criança que ficou para trás

Há 17 anos que Isabel Miranda trabalha na viatura de emergência do Hospital de Gaia e desde 2015 que faz parte das equipas de saúde do helicóptero do INEM na zona centro. Tem 41 anos e muita experiência. Já viu muitas mortes, algumas de crianças, mas nada a preparou para o encontro com António. Nada nem ninguém a preparou para aquela noite de 17 de junho.

O turno começara às 8h, sem história. A única diferença era “o calor insuportável, a dificuldade em respirar”. No fim do dia são chamados a Figueiró dos Vinhos, mas, na aproximação, o piloto do helicóptero avisa que não há condições de segurança, tal era a falta de visibilidade devido ao intenso fumo que os cercava.

“A chegada ao local foi horrível do ponto de vista emocional, cheguei a temer pela nossa segurança e pensei, no íntimo, ‘será que o piloto é louco?’”, recorda a médica Maria Amélia Fonseca Pereira.

Aterram no largo da feira de Pedrógão e ficam ali à espera de indicações. À volta, nada, nem bombeiros nem comunicações. “Para passar o tempo, mostrámos o helicóptero a algumas crianças que apareceram, até que surgiu uma enfermeira, que disse ser da zona, chamava-se Ana, era muito novinha, explicou que trabalhava em Lisboa mas gostaria de ajudar no que fosse preciso”, conta Isabel.

Naquela altura, a melhor ajuda que Ana podia dar era levá-los no carro do pai até ao quartel de bombeiros, para que a equipa do helicóptero soubesse o que se passava.

No meio da enorme confusão em que o local se tornara, aparece um homem numa moto de aldeia a falar sobre “um menino que está muito mal”. A médica e a enfermeira regressam ao helicóptero e encontram um jipe da Força Especial de Bombeiros, corpo da Proteção Civil: no interior do veículo um bombeiro, Eduardo Marques, 32 anos, chora com um menino nos braços.

O bombeiro que está ao volante, Pedro Machado, 33 anos, só consegue dizer “eu ia atropelá-lo”. Isabel resume: “Era tudo o que um profissional de saúde não quer ver, uma criança quase morta, inconsciente e quase sem respirar, e uma situação sem condições de socorro”.

Ali estava António, o menino que ficou para trás.

Três homens, da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), foram enviados numa missão de reconhecimento de terreno para posterior definição de prioridades de atuação.

Pedro Nunes, comandante da Proteção Civil, era o cabeça do grupo. Circulavam por aqueles caminhos a 30 km/h, sem qualquer visibilidade, até que ao saírem de Vila Facaia, ao chegar ao Outão, na rotunda em direção à Senhora da Piedade, encontram António.

“Está ali uma coisa”, disseram primeiro uns aos outros. De seguida perceberam tratar-se de uma criança. “Não havia mais ninguém à vista.” Lembram-se de que “o menino estava de calções, faltava-lhe uma sandália”. Respirava mal, precisava de um médico.

Abandonaram a missão de reconhecimento do terreno e foram tentar salvar a criança e saíram em busca de socorro especializado.

“O nosso ADN é ajudar quem precisa e naquele momento era o António que precisava da nossa ajuda”, explica o comandante Pedro Nunes.

Classificado como “herói” por Xavier Viegas, investigador da Universidade de Coimbra e autor de um dos relatórios sobre o incêndio de Pedrógão Grande, este homem de 56 anos, fisicamente sólido como um tronco de castanheiro, diz que ainda chora quando se lembra daquela noite e dos dias que se lhe seguiram. “Mas naquele momento não podia chorar, era preciso reforçar a voz e a liderança, assegurar o conceito de equipa.” Aquela era uma missão especialmente pesada: “Salvar uma criança não é igual a salvar um adulto, ao tratar de crianças vemos refletidos os nossos filhos, a componente emocional é muito grande”.

Mas naquela altura ainda ninguém sabia o que acontecera para António cair no chão e ser encontrado pelos três homens.

Telma Ribeiro, a mãe, 32 anos, saíra de casa, na Lameira Fundeira, fugindo do fogo com a avó e os dois filhos, António e Tomás, no carro. O marido, Fausto, 37 anos, ficou a tentar salvar o que era deles.

António não queria abandonar a casa, o bebé não chorava, nem quando atravessaram as chamas - nem quando bateram contra um poste elétrico e saltaram para fora da estrada.

Telma e António conseguiram sair do automóvel, a avó e Tomás não, ficaram presos.

Telma agarrou-se ao telemóvel, pediu ajuda, foi dando informações. Nunca conseguiu contactar o 112.

E começou a andar, diz hoje que estava “desorientada”. Sempre em frente, com António ao lado.

Passou pela dona Alzira, ainda viva. A idosa que viria a morrer e ficaria conhecida como a 65ª morte da tragédia de Pedrógão, classificada como vítima indireta na primeira interpretação do Governo, pediu-lhe ajuda, mas Telma não podia nem com ela nem com o filho. Explicou a dona Alzira que não conseguia e continuou em frente.

António começou a dizer que tinha chegado ao limite – “não posso mais, liga ao pai”. As chamas batiam-lhes no corpo.

“Telefonei e disse ‘vamos morrer’”, conta Telma.

Foi quando sentiu António cair ao chão. Tentou arrastá-lo, levar a criança já inconsciente ao colo. Não conseguiu.

Continuou a caminhar, o menino foi ficando para trás. Telma tinha os pés queimados quando no Outão encontrou algumas pessoas que a acolheram.

Entretanto, o marido saíra em busca da família. Sofreu um acidente de automóvel no mesmo local onde Telma embatera e encontrou o carro da mulher, com o bebé e a avó de Telma.

Conseguiu soltar a criança e pôs-se a caminho. Passou pelo local onde António caíra, mas o filho já lá não estava. Tinha sido levado pela equipa da ANPC, mas nem Fausto nem Telma sabiam e chegaram a pensar ter perdido o filho mais velho.

Durante sete horas, Telma nada soube de António.

Enquanto isso, e depois de entregarem António à equipa médica que encontraram em Pedrógão, Pedro Nunes e a sua equipa entraram na EN 236-1.

“Não estava lá ninguém. Não se ouvia nada, só se sentia o cheiro a fumo, borracha e corpos queimados”, recorda o comandante da ANPC.

Atravessaram a estrada a pé. Várias vezes, talvez quatro, contam hoje, a tentar contabilizar os corpos dentro e fora dos carros.

“Nessas horas não se sente nada. Temos de tentar estancar as emoções. Vimos fémures, crânios, corpos ainda com os cintos dos automóveis presos, pouco mais restava daquelas pessoas.”

Pedro Nunes abre-se, revela-se, inteiro, sem receio de interpretações ou críticas: “Penso muito nisso ainda, quase um ano depois. Sei que não vou deixar de pensar no que vi, nem que vivesse 500 anos, naquela meia hora em que estivemos ali sozinhos até chegar a GNR”. 

Em Pedrógão, a médica Maria Amélia Fonseca Pereira e a enfermeira Isabel Miranda lutavam pela vida de António.

Quando deitaram o menino no chão de terra para o tentar estabilizar, nada sabiam do que se tinha passado até ali.

Jornalistas e observadores foram afastados da criança para que elas a tentassem anestesiar para a entubarem e ligar António ao ventilador. Deviam ser quase 20h30, a luz começava a desaparecer e foram os telemóveis de quem estava por ali que serviram de focos.

“O menino tinha a respiração quase agónica, o material médico voava com o vento, o ar cheirava a fogo”, recorda Isabel.

Não se esquece também que Eduardo Marques, um dos bombeiros que salvou António, pediu-lhe ao entregar-lhe o menino que fizesse tudo pela criança e desabafou na altura que meses antes também ele perdera uma filha.

“Enchi-me de força e disse que ali ninguém mais ia ver crianças a morrer”, recorda a enfermeira.

Entraram no helicóptero e fizeram uma das mais complexas viagens das suas carreiras: “Tudo ardia por baixo de nós”.

Foram 25 minutos de susto e poços de ar a sacudir o aparelho.

A criança, sempre inconsciente, nunca chorou ou chamou pela mãe, parecia ter seis anos, era robusta e tinha olhos muito azuis, “cheios de cinza”, o rosto marcado pela queimadura de ter ficado em contacto com o alcatrão quente.

“Não tenho dúvidas, se não tivéssemos aparecido, ele tinha morrido”, diz Isabel, que este verão não mete folgas - já decidiu que vai estar de serviço.

Quando finalmente entregou António ao Hospital Pediátrico de Coimbra, a enfermeira de Gaia diz que teve a certeza de que o voltaria a ver. E viu.

António esteve um mês e meio internado, dois dias em coma. Agora está bem, sólido.

Tem cicatrizes no pescoço provocadas pelo cateter e marcas de queimaduras da cinta para baixo.

“Lembra-se de tudo até desmaiar, tem medo do fogo”, conta a mãe.

Dorme com os pais, quer proteção. 

Neste dia em que o vemos, no início da primavera de 2018, ele é o centro das atenções.

Quase um ano depois da tragédia, volta a encontrar-se com o grupo de pessoas que o salvaram. Todos aceitaram o convite do Expresso para se reencontrarem, há muito que queriam notícias do menino e não sabiam como as conseguir.

António não parece reconhecê-los, agarra-se à mãe, eles estão de olhos postos na criança.

Atónitos com a recuperação, não se esquecem de um minuto do que viveram naquele dia.

As duas mulheres levaram prendas a António, os olhos brilhantes de lágrimas de satisfação. Os homens observavam-no satisfeitos. 

António já não tem acompanhamento psicológico e a única diferença para as outras crianças são os collants que lhe protegem a pele queimada do contato com a estrada e não os pode tirar nunca, só para tomar banho. E para abandonar este fato especial não há prazo previsto.

Nem para a família voltar a ser como era. Voltará?

Como vão esquecer as dores que António sentia no Hospital Pediátrico quando teve de reaprender a andar ou quando Telma não o conseguia apanhar ou do Tomás ao colo porque tinha os braços queimados? 

“São situações que ficam para toda a vida, estamos mais unidos, tivemos a sorte de sobreviver todos, mas não, não somos os mesmos, infelizmente temos lesões que vão ficar para a vida toda e não são só do corpo. As lembranças vão sempre vir ao de cima e, passe o tempo que passar, não nos podemos esquecer”, sublinha Telma.

Aos poucos solta-se: “O António é um menino que faz muitas perguntas. Tenho receio de que um dia, mais tarde, me pergunte porque é que eu o deixei na estrada. Sim, tenho este receio. Mas não consegui e até para mim esta decisão custou-me imenso. Esta é a maior marca que tenho. Carrego este peso dentro de mim”. 

“Morreram 66 pessoas, mas o António salvou-se. É só um, mas é muito importante”, diz a enfermeira Isabel Miranda. Eduardo Marques, o bombeiro, explica porquê: “É algo de positivo no meio de tanta coisa má, temos de nos agarrar a isso”. O colega Pedro Machado conclui: “O António foi a única coisa positiva desta experiência que nos vai moldar enquanto pessoas”.

Enquanto isso, António continua a cirandar pela sala, indiferente ao peso que aquelas pessoas depositam nos seus ombros. O peso de ser a esperança de um grupo de profissionais que numa só noite foi confrontado com a morte de dezenas de pessoas.

“Nós escolhemos estar deste lado, conhecemos o risco, mas as vítimas não escolheram ser vítimas”, resume a enfermeira Isabel.

E assim, mesmo que não se queira, as conversas sobre a noite de 17 de junho regressam sempre. Há sempre mais uma história, que surge inesperadamente a propósito de nada e alguma coisa. Como surgem os feridos. Os queimados. Os estandartes da dor, com as suas cicatrizes feias, os seus fatos incómodos. Aqueles que ainda não foram indemnizados, que têm de ser tratados. Os que não podem trabalhar mas que dão trabalho, precisam de ajuda.

Terão sido 250 os feridos do incêndio de Pedrógão. Resguardam-se, mantêm-se em casa, às vezes saem e custa-lhes. São a memória andante de um episódio trágico na vida de um país.

São o carimbo epidérmico do que falhou.

“Não penso nem no passado nem no futuro, lamento o meu presente”

Filipa Rodrigues não é criança. Tem 24 anos.

Não dobra a perna direita e não vai à praia este verão. Nem sabe se algum dia voltará a ir.

Filipa é bombeira, integrava a corporação do único bombeiro morto no incêndio de 17 de junho.

É a irmã mais velha de Francisca.

Esteve quatro meses internada, cinco dias em coma, e ainda vai todos os dias de Castanheira de Pera a Coimbra fazer fisioterapia.

“Ainda não é fácil sair de casa.”

Houve momentos em que lhe pareceu impossível cruzar a porta.

Quando tudo aconteceu, estava a acabar o mestrado e quase a prestar exame para a Ordem dos Solicitadores de Empresas.

No corpo traz as marcas daquele dia. A pele, de tão fina, corta-se com as meias. Tudo nela é frágil, o que se vê e o que está por dentro, pele e emoções, tudo um fio que não se pode partir. 

“A revolta que sinto é porque eu não andava a fazer nada de mal, fazia o que gosto. Gosto do espírito dos bombeiros e fiquei assim, traumatizada, sempre que toca a sirene fico ansiosa, os dias de nevoeiro são maus porque recordam-me o fumo do incêndio, tenho pesadelos. Parei a minha vida, ficou tudo suspenso.”

As palavras saem de jorro, baixinhas, num sussurro de quem não quer incomodar mas precisa de abrir uma caixa e deixar escapar o que tem lá dentro.

Filipa tentou resolver sozinha a turbulência que leva com ela, não conseguiu, pediu ajuda psiquiátrica e está medicada, melhorou. Mas guarda ainda um soco para dar: “Não penso nem no passado nem no futuro, lamento o meu presente”.

Estudava em Coimbra, “queria ter ficado lá, arranjado um emprego, ter um escritório próprio”.

Com pai e tios bombeiros, Filipa estava sempre na linha da frente, “olha, pai, vou para o fogo”.

Foi sempre durante sete anos, até àquele 17 de junho.

“Com 24 anos achamos que nada nos derruba.” Pois não, mas derruba.

E Filipa bateu com a cara no chão.

Bastou sair daquele camião depois de chocar contra um veículo para perceber que já nada ficaria igual. “Basta dizer que o vento parecia chicotadas no meu corpo e as fagulhas colavam-se à pele, foram momentos agonizantes.”

Vinte minutos de sufoco, tempo suficiente para ficar marcada no rosto, nas pernas e braços com queimaduras de segundo e terceiro graus.

Sentia-se a ferver e quando lhe tiraram a roupa começou a ver bolhas enormes a surgirem-lhe nas pernas.  

Transportada para Coimbra, Filipa não esquece os gritos que ouviu no hospital, gritos dos familiares dos mortos e dos outros queimados.

“Quando cheguei, pensava que em 15 dias estaria em casa. Mas logo fui percebendo que a situação era mais grave. Fiquei dois meses internada e hoje, quando me olho ao espelho, sou eu quem vejo mas eu não era assim. Não sei se um dia vou conseguir expor o meu corpo. Com o tempo hei de habituar-me mas ainda não consigo. Sei que sou eu que estou no espelho, mas porquê assim?”

Filipa passou por sete cirurgias, a última em janeiro.

Agora, o sol magoa-a, ainda tem ataques de ansiedade, o tempo, ao contrário do que pensava, não amenizou as sensações, agudizou-as: “Eu devia ter chorado o dobro do que chorei, gritado mais, devia ter-me revoltado mais. Só agora está tudo a abater-se sobre mim, agora que quero a minha vida de volta e não a consigo ter”.

Neste ano que passou, o que foi pior?

“Dizerem-me sempre para ter paciência. Foi a palavra que mais ouvi. Isso consome-nos porque nós já estivemos deitados numa cama a olhar o relógio a andar e nós a ficarmos no mesmo lugar. As pessoas a irem e virem e nós não, sempre parados. E pedem-nos ainda mais paciência. Mas sempre que passo ao espelho, mesmo que de relance ou quando alguém me pergunta na rua porque estou assim, volta tudo. Eu era muito independente, mas cheguei a um ponto de exaustão e isso revolta-me imenso. E querem que eu tenha paciência.”

E o futuro, Filipa, como vai ser?

“Agora vem aí o verão outra vez e eu fiquei assim, perdida, ainda à procura do meu espaço. Parei a 17 de junho e é ali que terei de recomeçar. Ainda estou à espera desse dia. Um dia em que alguém me diga ou que eu sinta que a minha vida está de volta e posso seguir em frente outra vez. Quero muito ser mãe, desde muito nova que quero ter um filho, mas a quem poderei mostrar as minhas cicatrizes? Vai custar muito. É difícil, mas é assim que eu estou.”

Os feridos são um “estorvo ”

Os cerca de 150 feridos do incêndio de Pedrógão estão distribuídos pela região - tão desfigurada quanto eles – e por Lisboa. Mas, sobretudo, estão entre nós. 

Ainda há seis internados, muitos em tratamento, alguns saltam à vista, outros nem por isso. São como fantasmas, que aparecem e nos lembram do que lhes aconteceu. E do que aconteceu ao país.

Às vezes desaparecem e deixam-nos respirar, quase esquecer, para mais uma vez se fazerem ver, sustendo a nossa respiração.

São “um estorvo”, diz José Carlos Santos, 37 anos, 30% a 35% do corpo queimado e 60% do corpo mexido devido aos enxertos que teve de fazer.

No total foram oito cirurgias. “Não as contei.” Nunca o fogo o tocou. Nenhuma chama o lambeu. Bastou-lhe o calor.

“Durante dois minutos corri entre as chamas. Foram cerca de 300 metros e fiquei assim.” E assim é bastante mau.

“Primeiro não senti nada. Estava rodeado pelo fogo, eu, um empregado e o meu cunhado. Tínhamos estado na floresta, era o nosso trabalho. A adrenalina de estar a fugir anestesiou-me.”

Lembra-se de que “rapidamente o braço esquerdo deixou de funcionar, depois foi todo o resto que parou”.

Ficou 26 dias em coma.

Quando acordou mandou fechar a cortina que o separava da muita família que lá estava.

“Não estava em condições de os ver, não queria barulho, é difícil descrever o que senti”, conta, lembrando os pesadelos que preencheram o período de inconsciência.

Esteve internado 56 dias e só uma semana antes de sair do hospital é que se voltou a ver ao espelho. Pediu, “já estava a chegar a hora”.

“Eu parecia um monstro.”

Aguentou-se porque nem a mulher nem filha desistiram dele.

Seguiu-se o árduo trabalho de fisioterapia, a medicação foi sendo reduzida e Zé Carlos resistiu.

Remédios hoje só para o ajudarem a dormir.

Passa o dia entre o colocar e tirar o fato que lhe cobre a quase totalidade do corpo, passar os cremes. Não consegue fazer tudo sozinho. Nem mesmo despir ou vestir a roupa elástica.

À noite, acrescenta ao fato uma máscara, que coloca para dormir.

“Havia de ser usada mais tempo, mas não consigo. De manhã, a minha esposa tira-a e depois coloca-a à noite.”

O fato, dado pelo seguro, deve rondar os cinco mil euros. Zé Carlos tem dois. Mas ressente-se da falta de apoios, “da diferença entre a ajuda dada aos familiares dos mortos e aos feridos”.

Está cansado. E só se passou um ano. 

Zé Carlos fala e chora coberto por uma roupa que o prende e esconde, com o rosto devastado pelas queimaduras. Enfrenta tudo o que lhe aconteceu de forma impávida, absurdamente lúcida. Fala dele mesmo no plural, como se de um terceiro se tratasse. 

“A gente voltou a ser criança, no início a gente não se aguentava em pé, caía para o chão, foi um processo novo, marcado por tonturas e dores.”

Não se reconhece?

“A gente não se reconhece, mas tem de reconhecer, não podemos olhar para o espelho e pensar que estamos diferentes. Temos as mazelas e temos de viver com elas a partir de agora. Apesar das dificuldades, temos de ver as pessoas que éramos antes.”

E completa: “Diferente, só em feições, de resto sou a mesma pessoa”. 

E como acha que o país o vê?

“Os feridos são um estorvo. Não morremos, sobrevivemos para causar despesas.”

Mas pelo menos há uma pessoa que não pensa assim. Leonor, a filha, sempre foi a única que nunca acreditou que Zé Carlos fosse morrer. “O pai não vai morrer, tem o meu sangue.”

Antes do fogo quem adormecia Leonor era a mãe, agora ela quer o pai. Uma rapariga que sempre teve medo do verão e do toque da sirene e que este ano ainda vai sofrer mais: “A minha filha ficou muito marcada, mesmo”.

O dia em que “as fogueiras eram místicas”

Alzira Dinis Quevedo, 77 anos, vive ali na Barraca da Boavista, Pedrógão, há 53 anos, numa casa feita por ela e pelo marido, Álvaro Santos, 81 anos, uma moradia cimeira na colina, com uma sala, dois quartos, uma varandinha, uma casa de banho, a cozinha e outro quarto. Com os currais dos animais e duas lojas para arrumação. E ainda e principalmente com “a casa do forno”, cantinho onde fazia “um pãozinho que era uma maravilha”.

Mas essa casinha desapareceu. Ardeu e fez-se ruína. 

Todos os dias o casal senta-se num banco de madeira, vão respirar o que é deles.

A casa está lá mas eles não podem habitá-la: já lhes colocaram as janelas e as portas, o chão dos quartos, mas faltam eles, contudo.

Alzira pensou que o que pareceria ser atraso mais não era a intenção de lhe fazer uma surpresa, de lhe entregarem a casa quando fazia anos, a 27 de abril, mas afinal enganou-se. Ainda lá não está, dois meses depois. Ficou também sem esta prenda. 

“Eu tinha tudo, nada me fazia falta”, conta Alzira, “foi tudo embora”, completa Álvaro. “Foi tudo embora”, acabam em uníssono. “Ficou tudo para trás.”

Ficaram sem fotografias do filho, que morreu há 35 anos num acidente de trabalho.

Do que sente mais falta?

“De vir para casa.”

Vivem com familiares, numa casa emprestada, onde qualquer gaveta que se abra pode ser um perigo de estragar algo que não é deles.

Vivem com medo. E, diz, cada dia que passa “é um ano”, “cada dia custa mais”. E até o que podia ter-lhe ficado também se foi, como a vontade de trabalhar na horta. Agora vive “para viver”, mais nada.

“Nos poucos dias que cá andar tenho de enfrentar a realidade.” 

Alzira e Álvaro não sabem se vão ter forças para recomeçar, para encher a casa outra vez, de bens e de vida. Mas dizem que, apesar das dificuldades, voltar “vai ser um dia de alegria”.

Na casa nova vai ter “mais largueza do que tinha”, mas não vai ter a casa do forno, que se recusaram reconstruir-lhes.

A casa é uma doação da Cáritas.

“Mas quem aceita não escolhe”, afirma Alzira, mas não se conforma por nunca ter sido visitada nem pelo presidente da Câmara de Pedrógão, nem pelo primeiro-ministro, nem pelo Presidente da República. E porque apesar da solidão ou talvez mesmo devido a ela, ali “todos sofreram, estão traumatizados, parecem malucos da cabeça”.

Ninguém ficou incólume. 

Na primeira noite naquela casa, quando fechar os olhos para dormir, vai pedir a Deus mais uns aninhos para lá viver. Não sabe se vai sonhar com o fogo porque, acredita, “vai ser pior”, mas venha o que vier já não foge: Alzira e Álvaro sobreviveram ao que chamam “o dia do juízo final”, um dia em que “as fogueiras eram místicas”.

Daquele 17 de junho sobrou a aliança do marido, que um vizinho encontrou nos escombros. Já o fio dela nunca mais se viu.

“A história da minha família acabou.”

Sem filhos nem netos, quando Alzira e Álvaro morrerem, acabou.

“É muito difícil, minha amiga.”

O diretor do Plano Nacional de Saúde Mental e coordenador da comissão encarregada pelo Governo de estudar o estado psicológico das comunidades afetadas pelos incêndios de 2017, António Leuschner, já explicou ao Expresso a sua grande preocupação com a situação das crianças daquelas regiões.

Alertou para a necessidade de lhes darem apoio e sobretudo espaço para expressarem as suas emoções, “evitando a criação de tabus” mas sem que o confronto com os factos ocorridos fosse direto, abrindo um terreno de diálogo através de desenhos, por exemplo.

Sublinhou que as crianças estão sempre lá a ouvir as conversas dos adultos, a ver as feridas de quem ficou queimado, a serem apanhadas de surpresa pelas imagens televisivas do incêndio. Às vezes no canto da sala, às vezes no colo de alguém, nas salas de aulas, a conversar com os colegas sobre os familiares de uma pessoa que morreu ou sobre o colega que nunca voltou e, como diz Leuschner, “criando memórias que se irão refletir no futuro na vida delas como adultos”. 

À janela do hospital, Filipa, a bombeira ferida, tinha um balão enorme, amarelo, uma flor-sorriso. E foi assim, voando de dia para dia, que ela resistiu no embalo daquele balão, até hoje guardado no quarto, em casa.

Um balão cheio de sopros de vida, que a ajudaram a agarrar-se ao ar que quase lhe faltou de vez.

Agora, Filipa respira, sorri, chora, partilha um ano depois a dor de uma noite que ainda não acabou. Fazem-lhe falta ainda os abraços que a mãe, Olga, não lhe podia dar sob pena de a magoar ainda mais. Estiveram separadas muito tempo por um vidro, ela, a mãe e Francisca, a irmã. 

Quando Francisca viu Filipa no hospital através do vidro, fez uma birra enorme. Tinham passado quatro dias desde o incêndio. “Ó mana, ó mana!”, gritava. As duas sempre dormiram juntas na mesma cama e daquela vez Filipa não voltou para casa, Francisca ficou sozinha. Enfiou-se na cama da mãe. Chorava muito. “Com o tempo foi ficando pior”, conta Olga. Só sabia perguntar “quando voltas, mana?”, e Filipa não voltava.

Francisca começou a ter pesadelos, sonhava com o fogo, “isolava-se dos colegas”. A criança de oito anos sofria. Quando olhava as cicatrizes da irmã, nunca dizia nada, só se oferecia para ajudar, para passar os cremes. “Sou a sua enfermeira, mana”, diz Francisca, a menina que, segundo a irmã, “ficou mais sensível e rebelde”. 

As notas do filho mais velho de Rui Rosinha caíram. António não dorme bem, a adolescência soma-se às memórias do verão passado. Francisco é mais extrovertido, parece estar a reagir melhor, mas também prefere andar de bicicleta a recordar junho de 2017.

Não fala do gatito que morreu mas diz que sente falta do verde e que a cor castanha é “sinónimo de fogo e que fogo é sinónimo de sofrimento”. Diz essas coisas e só tem dez anos, parece demasiado cedo para pensar assim, mas ele pensa. 

Zé Carlos ainda chora a falta que lhe fazem os dias que não passou com Leonor, a filha de nove anos. O homem que diz que “2017 foi um ano estranho, que marcou muita gente, um ano que se resume a uma palavra: inferno”.

“Foi assim naquele dia e tem sido assim até agora”, completa o homem da máscara, que, apesar de tudo, não desistiu de pensar no futuro, “doa o que doer”. 

Zé Carlos, que faz parte dessa gente, adultos e crianças, marcados no corpo e lá dentro, tenta encontrar sentido num incêndio que os queimou e que alertou o país para a incapacidade de proteger os seus. 

Alzira e Álvaro continuam a pensar no forno a lenha que querem fazer na casa reconstruída. A casa onde vão viver com Jorge, o sobrinho deficiente e órfão, os três agarrados ao presente sem qualquer rasto do passado. Sem fotos, enxoval, relógios antigos, sem as 15 galinhas poedeiras, os sete coelhos, o cão Fino e a gata Simone, mas cheios de recordações de um tempo e uma casa que já não voltam. 

E ainda há Dinis, o rapaz que continuará a treinar respostas estratégicas em jogos de xadrez e, sobretudo, a treinar estratégias de sobrevivência à dor, o rapaz que, espera-se, nunca desista de colocar a funcionar a sua máquina do tempo.  

Que não abra mão de tentar salvar as pessoas perdidas, mesmo que em memórias.

Que continue a trabalhar para criar “rebuçados invisíveis” para colocar todos a rir com as suas cócegas inesperadas. 

Dinis e tantas outras crianças, brincando como se nada fosse, futuros adultos, testemunhas das memórias das crianças que já cá não estão. Nem estarão.

Porque faltam nove crianças depois do incêndio de 17 de junho. 

Nasceram outras crianças e vão nascer ainda mais. Mas a Portugal vão sempre faltar nove crianças. 

Nove.

Ficha técnica

texto de Christiana Martins

fotografia, vídeo e edição multimédia de Joana Beleza

coordenação gráfica de Tiago Pereira Santos

coordenação editorial de Germano Oliveira e Pedro Santos Guerreiro

Expresso 2018