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Paulo Gaião
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8:00 Segunda feira, 20 de maio de 2013
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Cavaco Silva já salvou o governo duas vezes.
A 6 de Abril não terá aceite o pedido de demissão de Passos Coelho, logo a seguir à decisão do Tribunal Constitucional que chumbou várias normas do OE 2013.
A 12 de Maio foi ele quem terá evitado a queda do Governo após Passos Coelho e Paulo Portas se desentenderem sobre a gestão política da TSU dos reformados, segundo disse Nuno Morais Sarmento.
Foi a segunda vez e pode não ser a última.
O governo apanhou-lhe o jeito de manietar Cavaco, tornando-o seu prisioneiro.
Para o PSD é uma forma de fortalecer o governo, relegitimando-o
Para o PP, Cavaco pode ser o escudo ideal, rumo às próximas legislativas, para mostrar que só se mantém no Governo a pedido do Presidente da República, em defesa do interesse nacional (narrativa com que se verá Portas em 2015).
A pouco mais de dois anos de findar mais um mandato, ninguém imaginaria que Cavaco, de quem se dizia em 2006 que daria um forte pendor presidencial ao sistema, acabe o seu tempo em Belém a servir de verbo de encher do Governo.
Cavaco lembra o Presidente Óscar Carmona.
Quando em 1934 Carmona enfrentou pressões (militares) para demitir Oliveira Salazar, este fez como Passos: foi a Belém demitir-se.
Temeroso, Carmona reiterou-lhe de imediato a confiança.
Franco Nogueira lembra que foi aqui que Carmona perdeu a autonomia e se submeteu ao presidente do Conselho.
Foi aqui, também, que o sistema deu os seus primeiros passos no cesarismo do primeiro-ministro.
Craveiro Lopes tentou, duas décadas depois, contrariar estas regras, já firmadas, e foi apeado por Salazar.
Humberto Delgado queria demitir Salazar e, para além da chapelada nas eleições de 1958, pagou cara a ousadia.
Américo Tomás foi o melhor apêndice de Salazar durante dez anos e não o foi mais tempo por causa da queda da cadeira.
Que influência terá este cativeiro de Cavaco perante o governo de Passos e Portas na evolução do sistema político português?
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Paulo Gaião
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8:00 Sexta feira, 17 de maio de 2013
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A esquerda já tentou tudo para o governo cair. Mas o governo não cai.
De Cavaco nada há a esperar.
De Paulo Portas cada vez menos.
Nem adianta a esquerda fingir que não vê a trapacice da TSU dos reformados, tirando partido das fingidas divergências entre Portas e Passos para ver se a corda se parte (papel que a comunicação social também tem desempenhado).
Semana após semana, nos seus artigos no Diário de Notícias ou em declarações avulso, Mário Soares tem seguido duas vias.
Uma ainda legalista, de jogo político, insistindo que Portas é enganado por Passos (como ontem voltou a fazer), explorando os traumas de infidelidade laranja do líder popular, com a vichyssoise e o cordeiro da Páscoa/caso Moderna, ambos com o mesmo Marcelo Rebelo de Sousa.
Outra é a insurrecional, alertando para a revolta social.
Aqui, Soares tem dado sempre novos passos....
Há um mês só faltou dizer para o Buiça ir comer ali um pastelinho de Belém.
No artigo desta semana é rajada linha sim, linha não.
Passos "procede como um déspota", que tem "em vista a destruição da nossa democracia".
"Quem pode ter consideração por gente desta, ministros e secretários de Estado? Pensarão eles que vão passar impunes, porque a nossa justiça é lenta e protege os ricos, mesmo que sejam provadamente gatunos como o país sabe"
No fim, mais uma bomba "Atrás de tempo, tempo vem. Actue-se enquanto não há violência. Senão não. Sempre foi assim".
Basta dar uma leitura nos crimes contra a Paz Pública e o Estado de Direito do Código Penal para ver que se o Ministério Público quiser há pernas para abrir um processo contra Mário Soares.
É, aliás, o que ele deseja, para que o povo corra a libertá-lo.
"Acudam, acudam, acorram a Mário Soares" (até lembraria o acudam ao Mestre de 1383-1385).
Mário Soares vai continuar a esticar a corda para ver se ganha o Jackpot.
No Ministério Público (e na PGR), onde muito dificilmente haverá esta vontade, só é preciso que alguém se sacrifique habilmente em nome de uma causa e aceite ser o gatilho da mudança.
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Paulo Gaião
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8:00 Quinta feira, 16 de maio de 2013
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Cavaco Silva invocou primeiro Fátima, hoje São Jorge. Quais as razões desta decadência do Presidente da República?
Antero de Quental falava nas causas religiosas da decadência dos povos peninsulares, do poder colossal da Contra-Reforma em Portugal, guiada pelos jesuítas.
Certamente muito actuais de reler em Antero (esta e as outras) para perceber melhor o que anda hoje na cabeça do nosso Presidente da República, um homem que não teve a sorte de nascer em berço de ouro, numa família espiritual, e seguiu uma carreira árida de tecnocrata, sem as luzes das humanidades, o que não lhe abriu brechas numa estrutura naturalmente conservadora.
Como Mário Soares alertou mais do que uma vez em 2006, quando defrontou Cavaco nas presidenciais, este não tinha características intelectuais à altura do cargo.
Inspirados em Antero, Vasco Pulido Valente e Vítor Bento travaram-se de razões há umas semanas, no jornal Público, para decifrar estas mesmas causas.
Pulido Valente realçou que Portugal não pôde apanhar o comboio da Revolução Industrial porque não tinha carvão e ferro.
Vítor Bento deu mais importância às questões culturais, da educação.
O matemático Jorge Buescu é capaz de estar do lado de Vítor Bento. Porquê lembrá-lo aqui?
Porque Buescu, há quatro anos, num livro sobre o ensino da Matemática em Portugal (edição Fundação Francisco Manuel Dos Santos) lembrava a mediocridade do nosso ensino com números impressionantes da taxa de analfabetismo no nosso país, comparativamente aos do Norte da Europa
Por exemplo em 1878, segundo Buescu, a taxa de analfabetismo em Portugal era de 80% no ensino básico. Ora, no mesmo ano, a taxa de analfabetismo na Suécia era de 0,4%, na Alemanha 0,51%, em Inglaterra e na Escócia, 1%, na Noruega, 0,08% e na Dinamarca, 0,36%.
Quais as causas desta desgraça? Talvez seja melhor voltsar ler Antero de Quental...
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Paulo Gaião
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8:00 Quarta feira, 15 de maio de 2013
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Só faltava mais esta. Cavaco, com a ajuda inspiradora da mulher, agradece à senhora de Fátima a aprovação da sétima avaliação da troika, consagrando o Portugal entroikado ao culto mariano.
O que falta? Meter na Constituição que Portugal "é um Estado consciente das suas responsabilidades perante Deus" ( como se escrevia no artigo 45º da Constituição de 1933)... e perante a troika.
É preciso lembrar que foi Marcelo Caetano a colocar esta referência a Deus na lei fundamental, na revisão de 1971 (atenção, reler bem, revisão de 1971, três anos após o Maio de 1968 e dois anos depois da ala liberal alimentar expectativas de mudar o regime por dentro).
Apesar de tudo (que foi muito) Salazar recusou sempre introduzir a menção a Deus na Constituição.
E defendeu que o Estado não podia ser confessional.
Nem foi por causa de Paulo VI e da ligação deste aos movimentos africanos de emancipação.
Muitos anos antes, Salazar definiu ao cardeal Cerejeira a linha de fronteira entre o Estado e a Igreja. A César o que é de César, a Deus o que é de Deus.
Logo em 1932 disse-lhe que fora nomeado pelo Presidente da República. Não era o "enviado de Deus", nem chegara ao cargo de Presidente do Conselho "graças à Igreja Católica", como Cerejeira afirmava.
E na inauguração do Cristo Rei, em 1959, apesar das grandes manifestações religiosas, foi ele quem impediu que o Presidente da República Américo Tomás pressionado pela Igreja, consagrasse Portugal ao Coração de Jesus.
Muitos dizem que Salazar terá mesmo perdido a fé nos últimos anos.
É assim.
Um homem como Marcelo Caetano que chegou a Presidente do Conselho com o país a seus pés para fazer a Primavera Politica meteu Deus na Constituição e fez de Salazar um revolucionário nesta matéria.
Em 2013, o Presidente da República, um tecnocrata formado em Inglaterra, eleito duas vezes numa democracia de quase 40 anos invoca a senhora de Fátima por terem corrido mais dois mil milhões de euros de ajuda financeira.
A falta de dinheiro é o menos em Portugal.
Portugal endoidou há muito.
O jovem João Galamba que disserte mais um bocadinho sobre os dias que se vivem em Belém.
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Paulo Gaião
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8:00 Terça feira, 14 de maio de 2013
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Claro que é humano Jesus ter ajoelhado no dragão. Mas também é humano um jogador ser sarrafado com violência, reagir e agredir o adversário. Pode fazê-lo? Não pode. É imediatamente expulso da partida e prejudica toda a equipa.
Os salários muito altos que os clubes pagam aos jogadores e treinadores têm que ter contrapartidas excepcionais.
Um jogador tem que ter nervos de aço, aconteça o que acontecer, seja ceifado ou seja ofendido pelos adversários, como aconteceu há uns anos com Zidane num Mundial de Futebol.
Um treinador ainda tem mais responsabilidades.
Jesus é um profissional bastante bem pago.
Já criticou os seus jogadores por não saberem controlar-se No empate com o Estoril de há uma semana criticou Carlos Martins, expulso do jogo, por não ter sido "emocionalmente inteligente".
Perante a derrota no Dragão devia ter mordiscado os lábios e seguido em frente, sem ajoelhar.
Que treinador benfiquista já ajoelhou no Dragão? Nenhum.
O futebol tem muito de tribal. Quando o chefe claudica perante a tribo rival é o respeito e a dignidade de todo o seu povo que ficam afectados.
Até poderia ser motivo de justa causa de despedimento de Jesus (num sistema jurídico menos formalista)
E, afinal, é o Benfica quem está amanhã numa final europeia e não o FC Porto.
Jesus nunca o disse mas é provável que se lhe dessem a escolher entre ganhar a Liga Europa ou o campeonato nacional, ele preferisse este último.
Muitos benfiquistas pensam o mesmo.
O provincianismo pega-se. A fixação do Benfica no FC Porto, em Pinto da Costa, nos problemas da arbitragem, pode estar a tornar o Benfica tão provinciano como o FC Porto, perdendo a sua dimensão cosmopolita.
Qual Europa? Qual troféu europeu?
Quero é ver amargar o tripeiro. Ou o lampião, no caso dos portistas.
Vamos ver se amanhã o Benfica não vê azul e branco nas camisolas do Chelsea.
Somos, de facto, um país pequenino, das guerrinhas dos vizinhos, dos bairrismos, dos regionalismos... mas só para a futebolada, o queijinho e o enchido demarcado, sem sabermos o que são a regionalização e os poderes efectivos.
Um verdadeiro país de hortelões.
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Paulo Gaião
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8:00 Segunda feira, 13 de maio de 2013
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O título nacional do Benfica era bom para o PIB, tal como disse o presidente da EDP, António Mexia?
Parece óbvio que sim.
O Benfica continua a ser, inegavelmente, e de longe, o maior clube português, a uma escala que envolve todo o país, de norte a sul.
Como disse Angela Merkel quando esteve em Lisboa há seis meses, 50% da economia é psicologia.
É provável que muitos portugueses, adeptos encarnados, galvanizados com a vitória, abrissem ligeiramente os cordões à bolsa, consumissem mais e contribuíssem para a reanimação da economia nacional.
É garantido que muitas empresas, sediadas em Lisboa, aproveitariam este clima para novas promoções e que investiriam em novas parcerias com o Benfica.
Ao invés, o título do Porto terá, certamente, efeitos inexpressivos no aumento do PIB.
O FC Porto continua a ser um clube de natureza regionalista, com bolsas frágeis e dispersas pelo país.
Nem no próprio reduto do Porto, o clube consegue ter uma influência dominante. O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, foi eleito há 12 anos perante a animosidade do FC Porto.
E já lá vão mais de vinte e cinco anos após o FC Porto ter ganho a sua primeira Taça dos Campeões europeus, o título que pode dar projecção nacional decisiva a uma equipa, como aconteceu com o Benfica após ter ganho por duas vezes este troféu nos anos 1960.
A que se deve esta incapacidade? É culpa do FC Porto?
É verdade que os dirigentes do clube são fechados e pouco cosmopolitas e que justificam há muito o seu emblema na luta contra um inimigo sulista, mouro e lampião, o que só acentua as suas fraquezas e cava mais fundo a prisão regionalista.
Mas o Benfica de Luís Filipe Vieira não tem também caído nesta armadilha? Demonizando os tripeiros, apostando tudo em manobras de diversão envolvendo a arbitragem, transmitindo este espírito de procurar atribuir o insucesso a causas externas e não internas ao treinador e jogadores, o que diminuí a sua responsabilidade e rendimento?
Esta incapacidade do FC Porto para aumentar o PIB nacional tem causas profundas que, na essência, extravasam o clube.
É reflexo da atrofia centralista do país, de longa data, desde os tempos em que a reconquista aos muçulmanos estava a sul, de reis e mais reis de costas voltadas para o Porto, de um poder total lisboeta a que o Porto nunca bateu o pé.
Foi esta atrofia que cavou o provincianismo secular do Porto, que podia ser a alavanca de um norte pujante, com centros de influência diversificados.
Até o poder económico da burguesia portuense do século XIX se fechou em si próprio. O norte, vendo o Porto assim acabou por tentar seguir o seu caminho e negociar com Lisboa directamente, o que aumentou ainda mais a centralidade da capital.
Há dois padrões hoje no Porto e nenhum desafia a capital, em defesa da ascensão da cidade.
Ou se demoniza Lisboa e se fica sitiado no Porto, como acontece com o FC Porto.
Ou se vem para Lisboa, para ir a despacho ao Terreiro do Paço, às sedes das grandes empresas, muitas delas deslocalizadas do Porto, às suas televisões ou aos seus jornais de difusão nacional, enfim, aos exclusivos centros de influência da capital (exactamente da mesma maneira que faziam algumas personagens queirosianas há mais de cem anos).
Que centros de poder tem hoje o Porto que dêem centralidade à cidade?
Talvez só a Ryanair, que faz com que muitos portugueses se desloquem ao Porto para viajarem para várias cidades europeias a que não podem chegar directamente de avião a partir de Lisboa.
Não há ministérios portuenses porque está tudo concentrado em Lisboa, Não há um banco pujante claramente do Porto e do norte, um canal de televisão portuense com dimensão nacional, um jornal do Porto com influência nacional.
Há centros de poder paroquiais, o próprio FC Porto, o Canal Porto, o Jornal de Notícias que ontem fez manchete com o título limpinho, limpinho, para ser lido da Ribeira a Paranhos e líderes regionalistas que também só têm dois caminhos.
Ou ficam reféns do Porto, como aconteceu com Pinto da Costa (o Alberto João Jardim do futebol) ou vêm tratar das suas vidas para Lisboa, quase sempre dar-se mal porque a capital despreza quem não tem poder, como aconteceu com Fernando Gomes, Luís Filipe Menezes e certamente acontecerá com Rui Rio.
É por isso que António Mexia disse tranquilamente que a vitória do Benfica era boa para o PIB Nacional. Sabe que não há o risco de milhares de portuenses romperem os seus contratos com a EDP e rumarem a outras empresas...
Pinto da Costa respondeu, irónico mas bem comportado, que espera não prejudicar o PIB Nacional.... Até o presidente do FC Porto sabe que uma coisa é o Benfica e outra o poder de Lisboa.
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Paulo Gaião
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8:00 Sexta feira, 10 de maio de 2013
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No parecer que deu sobre a adopção por casais de gays e lésbicas, cujo relator foi o bastonário Marinho Pinto, a Ordem dos Advogados recusou-a e o bastonário diz a dado passo que o direito a adoptar por casais do mesmo sexo "colide frontalmente com o direito das crianças a serem adoptadas por uma família natural", constituída por "um pai (homem) e uma mãe (mulher) e não com um homem a fazer de mãe ou com uma mulher a fazer de pai".
Pelo argumento do "direito natural" utilizado por Marinho Pinto esta questão -- que vai ser hoje debatida no Parlamento com projectos do PS e Bloco de esquerda -- ficaria imutável para todo o sempre.
O parecer da Ordem dos Advogados lembra o momento truca-truca de há 30 anos na Assembleia da República em que Natália Correia reagiu com um poema com este nome às palavras do deputado do CDS, João Morgado, de que "o acto sexual é para fazer filhos" durante o debate sobre a despenalização do aborto. (1)
Na verdade , é o argumento "natural" que justifica a procriação, a proibição do aborto em qualquer caso, porque é anti-natural, a proibição da utilização dos métodos anti-conceptivos e a permissão, em último recurso, de métodos naturais para não engravidar.
Com o argumento "natural" também não se poderiam ter legalizado os casamentos homossexuais, como se legalizou em Portugal em 2008 e mais recentemente no Reino Unido e em França. Este último país permitiu também a adopção pelos homossexuais e no Reino Unido os casais homossexuais já podiam adoptar desde 2005.
Pelo direito natural viveríamos hoje na Idade Média.
Vale a pena lembrar as palavras do insuspeito conservador David Cameron há dois meses, durante o processo de aprovação da lei pela qual se bateu com unhas e dentes: "Esta é uma alteração que tem a ver com o princípio da igualdade mas destina-se também a construir uma sociedade mais forte".
É de criar uma sociedade mais forte que também se trata na adopção por casais homossexuais.
Esta sociedade mais forte é feita de pessoas mais felizes. E as pessoas mais felizes são aquelas a quem é dada a possibilidade de tomarem decisões livres e conscientes com instrumentos modernos e ao dispor de todos, independentemente da sua orientação sexual.
Como certamente mais felizes, emocionalmente e socialmente serão os menores a quem é dada a possibilidade de serem adoptadas por famílias, "naturais" ou não, e nelas se integrarem e crescerem como pessoas livres.
1 Truca-Truca
Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o orgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.Natália Correia
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Paulo Gaião
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8:00 Quinta feira, 9 de maio de 2013
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Ontem, em entrevista ao jornalista Vitor Gonçalves, na RTP, o ex-primeiro-ministro Santana Lopes deu uma novidade: defende a criminalização da mentira em política.
O problema é abrir o precedente. Depois da mentira, podem vir criminalizações doutro género. Como a de meter amigos no governo que o afundaram e em quatro meses fincaram um bocadinho mais o pé na governação de um país desgraçado.
Corre por aí a tese que por muito menos argoladas que as de Passos, rolou Santana Lopes no cadafalso em 2004.
No lançamento do seu novo livro Pecado Original, Santana Lopes voltou a queixar-se dos poderes presidenciais e da demissão do seu governo por Jorge Sampaio.
Infelizmente, é preciso recordar, porque a memória é curta, que pior que o governo de quatro meses de Santana não houve desde os tempos de D. Maria II (para usar a expressão de Sousa Franco em relação a Guterres e aos governos dos Cabrais). Passos, para já, pode dormir descansado.
Infelizmente, porque Santana teve o seu período de ouro, quando afrontou os barões laranjas na década de 1990 e quando ganhou em 2001 a Câmara Municipal de Lisboa a uma coligação esquerdista que chegou a ter Carlos Cruz como mensageiro de Álvaro Cunhal, perante os olhares embevecidos do candidato João Soares e dos pais Mário Soares e Maria Barroso que não se cansaram de gritar que o fascismo não passaria com Santana (só visto e lembrado).
Infelizmente... porque é sabido que muitos portugueses, à esquerda e à direita, escolheriam naturalmente Santana e não Passos para tomar um café.
Sampaio, que o demitiu, confessou que se perdia nas conversas com ele e que lhe apetecia falar de outros assuntos que não a política....
Começou tudo mal quando Santana aceitou o poder envenenado das mãos de Durão Barroso sem se submeter a eleições.
O pote do poder estava mesmo à mão, a entourage ululava e Santana não resistiu.
Como não resistiu ao jantar de charme com Durão em Roma, perto da Praça de Espanha, só os dois, um perto de ser primeiro-ministro de Portugal e outro presidente da Comissão Europeia. Parecia um sonho de fadas. Para Santana ia ser um pesadelo.
A tomada de posse foi o que se sabe . Estava muito calor, Santana saltou páginas, ia desmaiando (mas Cavaco também não teve que ser amparado em 1995?).
Paulo Portas não sabia que também era ministro do Mar e ficou surpreendido em plena tomada de posse...
Quatro dias depois foi Teresa Caeiro. Passou de secretaria de Estado da Defesa (parece que Sampaio não a quis) para secretária de Estado das Artes e Espectáculos. Tudo a ver....
Santana tinha uma imagem pouco fiável em muitos sectores, o que o obrigava a um cuidado redobrado que não teve com o perfil das pessoas que escolheu para o rodear e a própria logística que montou em São Bento.
Devia ter-se afastado como o Diabo da Cruz das santanetes e vivido em São Bento como um eremita, como Salazar, talvez com uma governanta austera igual à D. Maria de Jesus.
Rui Gomes da Silva, amigo de longa data, especialista em arruaças, foi o previsível braço-direito, mas onde ele está há sempre sarilhos.
Quando chegou a hora de bater em Marcelo Rebelo de Sousa, por causa do governo ser "pior do que o pior de Guterres", o feitiço virou-se contra o feiticeiro.
Exactamente igual aos dias longínquos e desastrados de Gomes da Silva em que, atiçado por outros, Pinto Balsemão era o "canapé de Eanes" e Mota Pinto tinha um "saco azul" na liderança laranja (foi aqui que este proferiu a famosa frase de que andava sempre com as chaves do carro no bolso e se foi embora).
Para ministro adjunto, Santana convidou outro amigo, Henrique Chaves, sem perfil para o cargo.
Santana aparou-lhe todos os golpes, com uma paciência de Job.
Um dia, perto do fim. Chaves recebeu os dirigentes do Benfica que se queixavam da arbitragem e veio dizer à comunicação social que só por cortesia não atirou a cassette vídeo que lhe deram pela janela.
Com três meses de governo, Santana fez uma remodelação ministerial. Chaves passou a ministro do Desporto. Primeiro aceitou, depois a família considerou o novo cargo uma despromoção.
Demitiu-se com estrondo, dizendo que tinha perdido a confiança no primeiro-ministro por "falta de lealdade e verdade" Só visto (e lembrado).
Para ministro da Educação, Santana escolheu Maria do Carmo Seabra. Há muito que não havia um escândalo como o da colocação de professores, em que as listas não andavam nem desandavam...
Jorge Sampaio conta que um dia estava a fazer jogging na Avenida da Liberdade e que parou um motorista de táxi ao seu lado.
A segurança agitou-se mas o homem só queria ajudar o país-
"Por favor senhor Presidente da República, livre-nos deste governo".
Sampaio livrou, com a ajuda de Cavaco e dos banqueiros. Mas esta já é outra história de um homem que se pos a jeito para o mundo lhe desabar em cima.
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Paulo Gaião
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8:00 Quarta feira, 8 de maio de 2013
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O que se passou no sábado, dia 6 de Abril, no Palácio de Belém, quando Cavaco Silva recebeu Passos Coelho e Victor Gaspar após a decisão do Tribunal Constitucional sobre o OE 2013?
António José Seguro tem várias vezes falado neste enigma.
Muito provavelmente, Passos apresentou a sua demissão ao Presidente da República mas Cavaco não a aceitou e convenceu o primeiro-ministro a manter-se no lugar.
O preço a pagar por Cavaco, pedido por Passos, foi ter de dar cobertura política total ao governo.
Fê-lo num inusitado comunicado, logo após a reunião,em que reforçou a confiança no executivo.
Fê-lo no discurso do 25 de Abril.
Seguro tem razão ao explorar este mistério e dizer que o Presidente da República ficou cativo do governo.
Passos está na verdade ultra-confiante no futuro do seu governo.
Este fim-de-semana fez uma inventona descarada sobre a fictícia nova contribuição para os pensionistas só para confortar Portas. E teve o apoio aparente do cativo Cavaco nesta impostura.
Há dias, garantiu, a cinco meses das eleições autárquicas, que não se demitirá, qualquer que seja o resultado. Porquê? Porque pode contar incondicionalmente com Cavaco.
Curiosamente, adiantou que não haverá pântano, a senha que Guterres utilizou em 2001 para abandonar o governo após a derrota nas autárquicas.
E com o pântano nos lembra que Guterres pediu a demissão e que o então Presidente da República Jorge Sampaio tentou demovê-lo mas não conseguiu.
Hoje a história é outra. Cavaco foi certamente muito mais insistente e solidário com Passos do que Sampaio foi com Guterres.
Passos, por sua vez, colocou certamente condições a Cavaco para governar, que este aceitou. O que não aconteceu com Guterres.
O ex-primeiro-ministro socialista queria ir-se embora. Passos quer ficar. E é capaz de tudo para se manter.
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Paulo Gaião
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8:00 Terça feira, 7 de maio de 2013
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Há anos que a espanhola Endesa tenta tirar clientes à EDP, garantindo um desconto de 5% na tarifa de electricidade.
Muitos portugueses receberam telefonemas da Endesa e não aderiram aos serviços porque consideraram o desconto pouco atractivo.
Em boa medida porque este só recaia sobre a electricidade e não sobre o gás, que a Endesa não assegurava.
Há três meses a DECO lançou uma página para os consumidores se proporem ao fornecimento de electricidade por uma entidade que o adjudicaria ao melhor preço em leilão.
Aderiram quase 600 mil portugueses.
A Endesa ganhou o leilão, de resto foi a única entidade a apresentar-se, oferecendo um desconto de 5% na electricidade.
Mas não foi exactamente o mesmo desconto que andou a propor durante anos aos consumidores da EDP?
Porque é que a DECO não fixou uma base de licitação, por exemplo de 7 ou 8% para o leilão e o desconto?
A electricidade tem mistérios que a razão desconhece.
Outra empresa, a Galp Energia, ofereceu há uns meses um desconto de 5% na electricidade e 5% no gás natural na mesma factura.
Aparentemente, parece mais favorável aos consumidores. Mesmo que, convém advertir, o desconto incida sobre o valor sem IVA, tal como deverá acontecer com a Endesa, tornando o preço menos atraente.
No ano passado, uma parceria da EDP com os hipermercados Continente e SONAE, também concedeu 10% de descontos na electricidade aos consumidores aderentes (em talão a descontar nas compras).
Era o dobro do que a Endesa agora oferece, mas a campanha, depois do forte investimento logístico feito pelos dois parceiros, nem chegou a durar um ano...
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