"Não faz sentido que se transaccione a estação líder de audiência e que o concessionário não comunique essa informação ao Governo", disse Miguel Pais do Amaral aos deputados da comissão parlamentar de ética sobre a venda, em 2005, da Media Capital aos espanhóis da Prisa. "Lembro-me, basicamente, de ter comunicado ao Governo essa intenção, mas não me lembro se foi ao primeiro-ministro ou ao membro do Governo que tutelava a área", disse o ex-patrão da TVI, acrescentando que a situação era "normal" e "devia ser feita".
A declaração de Miguel Pais do Amaral é tanto mais importante quanto os deputados da oposição - quer na comissão de ética, quer na de inquérito - concentram as suas atenções cada vez mais na possibilidade do Governo de José Sócrates conhecer antecipadamente a tentativa de entrada da PT na TVI. Para Paes do Amaral, e falando apenas do momento em que vendeu a estação de que era o maior accionista, tal comunicação oficial ao Governo é um gesto "normalíssimo".
Miguel Pais do Amaral desvalorizou ainda as críticas sobre as suas más relações com José Eduardo Moniz - então director geral da TVI - e com Manuela Moura Guedes. Classificando de "rídicula" a declaração de Moniz segundo a qual ele próprio era "um alvo" a abater por Pais do Amaral e pela administração espanhola que o substituiu, Pais do Amaral sublinhou que o motivo da divergência com o director geral da TVI dizia respeito ao posicionamento informativo.
"Achava que a estação líder de audiência devia ter uma informação de perfil main-stream e não tablóide", disse aos deputados, acrescentando diversas vezes que Manuela Moura Guedes, sendo "uma excelente intérprete do estilo tablóide", mantinha um estilo de informação que "desvalorizava a TVI".
Pais do Amaral considerou, porém, que a decisão de suspender o Jornal Nacional de Sexta-Feira, sem conhecimento prévio do director de informação foi "uma decisão, que embora acertada porque aquele jornal já devia ter acabado há muito tempo, não foi bem executada".
O ex-patrão da televisão privada considerou, no entanto, impossível, que a decisão de por fim ao Jornal apresentado por Moura Guedes tenha sido tomada pela Prisa, sob pressão do Governo de José Sócrates. "A Prisa não é uma empresa qualquer que por dá cá aquela palha se deixa pressionar. Parece-me uma afirmação ridícula", afirmou.
Ex-patrão e fundador de jornais como o "Diário Económico" ou o "Independente", Pais do Amaral admitiu ter sofrido pressões por parte de vários Governos. "Distingo queixas de pressões, porque estas implicam consequências", disse. "Eu sofri um pressão: durante um ano e meio tive o fisco no meu escritório". Os tempos eram de "O Independente", dirigido por Paulo Portas e as pressões do então Governo -chefiado por Cavaco Silva - eram muitas. "Há uma pressão sobre a Comunicãção Social quando há chantagem. Eu fui alvo de chantagem fiscal", assumiu.