Passos Coelho: o moço de recados
Como sucessor de Manuela Ferreira Leite, um sério desastre político, Passos Coelho teria sempre muitas dificuldades em desiludir aqueles que há muito o tinham por certo na presidência do PSD. E, diga-se de passagem, Passos Coelho teve também algum mérito no crédito que foi granjeando: mostrou uma postura de honestidade, mostrou sentido de Estado quando ele foi necessário e mostrou ser capaz de levar o debate para além das suspeitas sobre a culpabilidade criminal de José Sócrates.
Da minha parte, lá lhe fui reconhecendo mérito político, ao mesmo tempo que me perguntava se uma fortíssima agenda ideológica neoliberal teria sido apenas um estandarte de campanha ou algo que definiria a matriz da sua oposição e eventual governação. A questão é tão mais premente dado que entre a primeira candidatura (contra Santana Lopes e Ferreira Leite) e a segunda se deu a crise mundial, sublime atestado da da embriaguez ideológica que conduz os apologistas da desregulação, do menos estado e do livre curso das forças económicas. A avaliar pelas atoardas sobre o Sistema Nacional de Saúde, Passos Coelho tampouco se comoveu com o facto de os Estados Unidos se terem disposto a repensar o seu sistema ao encontro de uma protecção universal que tantas provas tem dado (na eficiência e no investimento per capita do Estado). Chegamos à conclusão que Passos Coelho acredita num selvático neoliberalismo e não deixa que a realidade atrapalhe a pureza das suas ideias.
Nas propostas relativas à revisão da constituição fica, além de uma olímpica trapalhada, a impressão de um fervor ideológico demasiado incandescente para que Passos Coelho sequer conseguisse ponderar em algumas coisas básicas: não é pela constituição que se definem políticas económicas, as alterações ao sistema político não se fazem com esta leviandade, tratar-se-ia sempre de uma agenda com pouco apoio popular e sem hipóteses aprovação parlamentar.
Nesta semana Passos Coelho hipotecou de tal forma o seu futuro político que vale a pena indagar a que se deveu esse bizarro voluntarismo: inépcia política e fervor ideológico são as respostas mais óbvias. Eu tenho uma terceira: ao candidatar-se Passos Coelho terá recolhido apoios que o comprometeram na afirmação de uma agenda estranha ao próprio mainstream do PSD e pouco lógica na definição de uma oposição ao PS de Sócrates. Passos Coelho não é um ideólogo, é alguém que se fez eleger como representante das forças do mercado indígena e que, portanto, utiliza a ideologia para se legitimar perante os seus pais políticos. Passos Coelho fez um frete e à custa dele passou por uma semana de vergonha histórica. Resta saber se Passos vai para continuar a fazer de menino de recados ou se ganha coragem para matar o pai, permitindo-se, quem sabe, a uma relação menos afectada com a realidade.


