"No antigo 7º ano começámos a ler textos com densidade filosófica e política (...). O ambiente lá de casa era um ambiente de 'Seara Nova'. Eu era um cinéfilo. Toda a gente o era. (...) Nessa altura houve um texto que me ajudou muito, do Voltaire. (...) E aquele livrinho do Bernstein que me levou à social-democracia tem uma frase extraordinária..." O autor destas frases não é Pedro Passos Coelho - o candidato a líder do PSD que esta semana foi apanhado por Pacheco Pereira a citar um livro de Sartre que não existe -, é José Sócrates, em 24 de Julho de 2004, acabado de se assumir como candidato à liderança do PS.
Há uma semelhança: ambos se expuseram em entrevistas cheias de citações. Sócrates, na altura, ao Expresso, quando confessou ser um "animal feroz", e Pedro Passos, agora, à "Pública". Mas há uma diferença. Ao contrário de Sócrates, Passos enganou-se: "Li Kafka muito depois da 'Fenomenologia do Ser', de Sartre", e no PSD há um Pacheco que não perdoa. "Não existe nenhuma 'Fenomenologia do Ser' de Sartre. Passos Coelho, em mais uma entrevista do nada, resolveu atribuir-se uma biografia do nada", escreveu Pacheco Pereira no seu blogue.
Pedro Passos não responde. Deu uma entrevista de vida - são inúmeras as que lhe pediram e aceitou dar nos últimos meses, a jornais, revistas, televisões e imprensa económica - e, sob o título "O candidato", contou que, desde jovem, sempre gostou de reflexões filosóficas. O que é que lia? "Queria coisas directas. Os existencialistas, que problematizavam matérias sobre as quais também me interrogava. Li Kafka muito depois da 'Fenomenologia do Ser", de Sartre. E Voltaire mais cedo do que Eça".
"Fenomenologias só conheço as de Hegel e de Husserl", atirou-lhe Pacheco Pereira no "Abrupto", e a bronca alastrou na blogosfera. "A mania para mostrar cultura dá como resultado o 'Concerto para Violino' de Chopin e as mesas de cabeceira cheias de Eça", continua o "Abrupto". Ao Expresso, Pacheco carregou mais na tinta: "Esta mania de querer parecer culto traduz um problema de carácter". Passos "é um produto de marketing, como Sócrates".
Pedro Passos continua sem comentar. Enganou-se no título de um livro que Pacheco diz que ele não leu, mas que ele garante ter lido. O mais parecido com o que Passos disse é o subtítulo de "O Ser e o Nada" de Sartre, chamado "Ensaio de Ontologia Fenomenológica". "Não é literalmente o mesmo, mas não é substancialmente diferente", explica Miguel Relvas, colaborador de Passos. Se a Ontologia pergunta pelo Ser, podia ser. Mas Pacheco não desarma: "Ninguém diz que se senta numa cadeira, pela fresca da tarde, a ler tijolos de Sartre e Heidegger, porque tem interrogações existenciais".
Claro que Passos também teve bloguers amigos: "A mim interessa-me nada a piadinha Violinos de Chopin Parte II (para quem não saiba, quem inventou este concerto foi Santana Lopes). Não são as leituras pessoais na adolescência de PPC que contam para o futuro do país", escreve um anónimo no "Corta-Fitas". "Eu gostava de saber qual é a densidade da Ferreira Leite", diz outro no "Cachimbo de Magritte". Manuela não faz citações e fala pouco aos jornais.
Excitações
Pedro Passos Coelho
"Queria coisas mais directas. Os autores existencialistas, matérias sobre
as quais me interrogava. Por exemplo, li Kafka muito depois da 'Fenomenologia do Ser', de Sartre"
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Fevereiro de 2009