Para a frente e para trás, depressa
A Apple lançou ontem o seu tablet. Não sendo uma novidade, a sua ligação à maior loja virtual de conteúdos até hoje criada, o iTunes, pode significar um primeiro passo para uma mudança radical nos suportes de media - livros, filmes, jornais, sites. Por ser mais portátil do que os portáteis e mais fácil de usar e ter mais funções do que os telemóveis. Mas, acima de tudo, por se aproximar do formato a que sempre nos habituámos quando lemos.
Não, não venho aqui para fazer publicidade. Steve Jobs tem talento de sobra para o fazer sozinho. O que me interessa aqui é outra coisa: o futuro. Não sendo a panaceia dos media, estes novos suportes são a sua maior oportunidade desde há muito tempo, como já percebeu o "The New York Times", que já está em campo. Massacrados pelos novos media, os jornais e as televisões tiveram dificuldade em adaptar-se e vivem a maior crise da sua história. Adaptar-se ao meio, antes de mais. E adaptar-se ao negócio, depois disso. Se aproveitarem o momento em que o suporte se aproxima da sua natureza, os jornais (mas também as editoras) poderão recuperar o tempo perdido.
Não podemos viver sem imprensa. Os sites e blogues feitos por amadores (e sei do que falo, porque a eles tenho dedicado muito do meu tempo) acrescentaram pluralismo, vigilância cidadã e democracia aos media e à política. Mas eles nunca terão os meios, o dinheiro e a organização que o jornalismo de investigação exige. Nem as regras deontológicas a que o jornalismo deveria obrigar.
Duas prioridades, então. Antes de mais, fazer desta vez uma adaptação mais rápida aos tempos que aí vêm. Não começar, como no passado, pela arrogância e o autismo. Depois, voltar atrás em algumas coisas. Perceber que se a imprensa tradicional servir apenas para umas bocas e uns fait divers a imprensa está condenada. A blogosfera faz o mesmo de forma mais livre. Se não se ponderar o que se escreve para garantir a rapidez, na rede as coisas já se espalham sem crivo e ainda mais depressa. Voltar à reportagem e à investigação. Voltar à mediação. Voltar às regras deontológicas e à credibilidade. Dar aquilo que os outros não podem.
Se andarem mais depressa para a frente na adaptação aos novos meios e rapidamente para trás no rigor, talvez ainda se salve uma dos elementos centrais das nossas democracias. Porque em papel ou no iPad!, o jornalismo faz ainda mais falta do que antes.


