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Os segredos do maior telescópio do mundo

É um dos cinco grandes projectos científicos do século XXI, tem a participação de Portugal, chama-se SKA, é um telescópio que se vai espalhar por um círculo de 3.000 km de diâmetro e estará pronto em 2020.
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Esqueça a antena parabólica de 300 metros de diâmetro do maior radiotelescópio do mundo em Arecibo, Porto Rico, onde James Bond teve mais uma das suas atribuladas aventuras, no filme "Golden Eye".

Esqueça o espectáculo das 27 antenas do Very Large Array (VLA) a moverem-se sincronizadas no deserto do Novo México (EUA), numa das cenas do filme "Contacto", em que Jodie Foster faz o papel da sonhadora astrónoma Ellie Harroway. 

Números
 

200 vezes a totalidade da informação que circula hoje por mês na Internet vai ser recebida pelo SKA a partir de 2020

3000 antenas parabólicas e 250 conjuntos de antenas compactas vão compor o SKA. Em termos de funcionamento, o supertelescópio terá a forma de uma estrela, que ocupará um círculo com 3000 km de diâmetro

1500 milhões de euros será o custo estimado do futuro radiotelescópio. É muito dinheiro em termos absolutos, mas comparado com outros grandes projectos científicos não é. Exemplo: o LHC, o grande acelerador de partículas do CERN, custou seis mil milhões

1.000.000 de metros quadrados é a totalidade da área colectora do radiotelescópio na sua rede de antenas, ou seja, 1 km2. Daí o nome com que foi baptizado: Square Kilometre Array (SKA)

5 grandes projectos científicos globais vão marcar o século XXI: o SKA; o ITER (central de fusão nuclear, a energia das estrelas); o LHC (o superacelerador de partículas do CERN, na Suíça, já operacional); o ALMA (complexo de 66 telescópios em construção no Chile); e o telescópio óptico E-ELT, do Observatório Europeu do Sul (a ser também construído no Chile). Portugal participa em todos estes projectos

50 anos-luz é a distância máxima a que o SKA poderá detectar um radar de aeroporto - ou um dispositivo semelhante - localizado num planeta com vida inteligente

1000 milhões de pens USB de 1 Gigabyte por dia seriam necessárias para guardar os dados em bruto das observações do futuro telescópio. E o poder de processamento do supercomputador do SKA em 2020 será equivalente a 1.000 milhões de PC de hoje

10 voltas à Terra poderiam dar, de ponta a ponta, os cabos de fibra óptica que serão instalados na rede de comunicações do radiotelescópio

19 países, incluindo Portugal, vão participar neste projecto global. As suas tecnologias inovadoras serão testadas nos EUA, África do Sul, Austrália e em território nacional

3 parceiros científicos portugueses estão associados ao SKA: o Instituto de Telecomunicações de Aveiro, a Universidade do Porto e o Instituto Superior Técnico de Lisboa

Os maiores radiotelescópios do mundo vão parecer anões ao pé do megalómano Square Kilometre Array (SKA), que se vai estender por um círculo de 3000 km de diâmetro.

Esqueça também a dimensão a que já chegou a Internet. Quando o SKA estiver a funcionar em pleno em 2020, o volume de dados que as suas 3000 parabólicas e outros tipos de antenas vão recolher do Cosmos será 200 vezes maior que o actual volume de dados mensal da Internet.

Três universidades portuguesas envolvidas no projecto


Portugal está fortemente envolvido no SKA, considerado um dos cinco grandes projectos científicos do século XXI (ver números).

A participação portuguesa inclui o Instituto de Telecomunicações (IT) da Universidade de Aveiro, o Centro de Investigação em Ciências Geo-Espaciais (CICGE) da Universidade do Porto, o Centro Multidisciplinar de Astrofísica (Centra) do Instituto Superior Técnico (Universidade Técnica de Lisboa) e a Lógica, uma empresa municipal que gere o Parque Tecnológico de Moura (Alentejo).

Este parque, vocacionado para a energia solar, tem um laboratório de testes de materiais e produtos da indústria de painéis solares, ligado à Central Solar Fotovoltaica da Amareleja, a maior do país e uma das maiores do mundo. E um dos objectivos do SKA é ser 100% renovável no consumo de energia.

O envolvimento do Alentejo deve-se a uma razão de peso: as novas tecnologias usadas pelo SKA vão ser primeiro testadas em quatro locais do planeta.

E um deles é precisamente Moura (Herdade da Contenda), "porque é a zona da Europa com maior radiação solar, equivalente à da África do Sul e da Austrália, os dois países que estão na short list para a escolha da implantação do SKA; e porque é uma zona com baixas interferências radioeléctricas", explica Domingos Barbosa.

O astrofísico do Grupo de Radioastronomia do Instituto de Telecomunicações coordena a participação nacional no projecto - que é liderado pela Europa - e foi eleito como um dos representantes europeus na comissão de ciência e engenharia do SKA. Os outros países onde vão decorrer os testes são os EUA, a África do Sul e a Austrália.

Novas tecnologias testadas no Alentejo 


Além do Alentejo possuir as melhores condições naturais da Europa para testar o SKA, houve outras razões para a escolha de Portugal: "Temos bons especialistas de telecomunicações e de energias renováveis", recorda o cientista.

Um exemplo: Rui Aguiar, um dos membros da equipa da Universidade de Aveiro (ver foto), é considerado um dos melhores especialistas europeus na Internet, tendo participado em vários painéis de avaliação da Comissão Europeia para as infra-estruturas de transmissão de dados de grandes projectos científicos.

"Encaramos com muito optimismo a instalação dos protótipos do SKA em Moura, porque depois dos testes feitos ficarão aqui, podendo ser utilizados noutros projectos científicos, em articulação com centros de investigação de todo o país", afirma por sua vez Vítor Silva, administrador-delegado da empresa municipal Lógica, que vai fazer os testes climáticos (de temperatura e de humidade) aos protótipos e participará na concepção das soluções de fornecimento de energia renovável.

Rui Duarte Silva Domingos Barbosa com antenas que serão testadas em Portugal e a equipa do SKA. Da esquerda para a direita: Rogério Nogueira, Rui Aguiar, Luís Cupido (Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear), Miguel Bergano e José Carlos Neves (director do Instituto de Telecomunicações de Aveiro)

Na Pampilhosa da Serra (Serra do Açor) há uma antena parabólica de nove metros de diâmetro, doada pela PT, que será também local de teste do SKA para a nova geração de receptores criogénicos (arrefecidos a 200 graus negativos).

Descobrir as primeiras galáxias e vida inteligente no Universo


Mas afinal, o que vai trazer de novo este gigante? Vai chegar mais longe do que alguma vez um radiotelescópio chegou, ao observar as primeiras galáxias que se formaram no Universo, fazer testes da gravitação através da detecção de pulsares (estrelas de neutrões), mapear fenómenos violentos do Cosmos como buracos negros e supernovas (explosões de estrelas moribundas), detectar moléculas orgânicas precursoras de vida em sistemas planetários distantes, enfim, descobrir vida inteligente no Universo.

"O SKA vai abrir um novo espaço de descoberta, vai revelar-nos uma nova fauna cósmica", esclarece Domingos Barbosa. "As emissões de rádio estão associadas a fenómenos violentos do Universo e a sua observação testa as regras básicas da Física", exemplifica o cientista.

"E um telescópio com 3000 km faz ciência que os outros hoje não fazem", na detecção de meteoritos, actividade solar ou observação de pulsares, "uma área de ponta da radioastronomia, porque permite testar a Teoria da Relatividade".

Volume de dados superior ao actual tráfego da Internet


A dimensão astronómica - no sentido literal e real - dos dados a recolher pelo supertelescópio exigirá duas componentes: um supercomputador para tratar esses dados e uma rede de Internet de nova geração para ligar milhares de antenas do projecto.

Com um volume de dados muito superior ao da Internet hoje, "o SKA vai precisar de capacidades de processamento e de transporte gigantescas, exigindo inovações que vão desde as antenas até toda a estrutura de fibra óptica de suporte, o que significa que uma parte importante do problema do seu funcionamento é de telecomunicações de alto débito e enorme precisão", salienta Rui Aguiar, professor da Universidade de Aveiro.

Há várias empresas no mundo que produzem supercomputadores, mas só uma consegue fabricar a máquina de que o SKA precisa: a IBM. Tudo porque, além das gigantescas capacidades de computação, o SKA precisará de excepcionais capacidades de comunicação, pois é uma estrutura descentralizada, que se estende em rede através de um extenso território.

Artigo publicado na edição impressa de 15 de Maio de 2010

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Comentários 2 Comentar
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haja esperança...
pelo menos há quem ainda trabalhe a sério neste país!
A evolução humana...
faz-se disto mesmo. O conhecimento científico é algo que jamais poderemos deixar de apostar.
Felizmente ainda existem projectos (em q participamos) que me fazem sentir bem português!

Bem-haja!
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Edição Diária 17.Abr.2014

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