"Não há outra saída senão um corte profundo nos salários nominais. Se isso não for feito, Portugal viverá outra década perdida e irá à bancarrota ainda mais cedo", afirmou ao Expresso o polémico director do Center for European Policy Studies, em Bruxelas, numa curta entrevista que será publicada na edição impressa de sábado.
Gros provocou polémica na semana passada com um artigo publicado no jornal Financial Times onde explicava as diferenças existentes entre os quatro países da Zona Euro que têm estado em foco em virtude dos défices públicos e da dívida soberana, e que muitos analistas têm designado depreciativamente pelo acrónimo de PIGS - Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha.
Na análise de Gros, Grécia e Portugal têm uma situação estrutural mais negativa do que os seus outros dois parceiros, em particular devido à situação líquida negativa da poupança interna. A situação portuguesa é hoje inclusive pior do que a grega, segundo os últimos dados disponíveis para 2008: 6,7% do PIB, dois pontos e meio percentuais mais do que em 2007 e superior em um ponto percentual à grega. A situação portuguesa agravou-se desde 2004, quando o saldo da conta de poupança se tornou negativo, problema para que tem alertado Avelino de Jesus, director do Instituto Superior de Gestão.
Agravamento da situação portuguesa
A situação portuguesa tem estado em destaque pela subida do preço dos credit default swaps (CDS) - esse palavrão financeiro que está a entrar nas conversas do dia-a-dia - sobre a dívida soberana portuguesa que em duas semanas marcaram dois máximos históricos. Na semana passada havia chegado aos 160 pontos base (pb) e hoje (4/02), na abertura, disparou para mais de 200 pb. Ontem o aumento diário da deterioração de crédito havia sido inclusive o maior (17%) neste mercado. Desde Dezembro, o aumento do preço dos CDS relativos a Portugal já se cifra em mais de 130%. O que significa que houve uma mutação na situação do país em tão curto espaço de tempo.
Subiram, também, hoje, os preços dos CDS relativos a Espanha e a Itália.
Ainda não estamos no clube
No entanto, Portugal, ainda, não está incluído no clube dos com maiores probabilidades de incumprimento da dívida soberana, onde estão listados 10 países e estados: Venezuela (liderando, com 50% de probabilidade), Argentina, Paquistão, Ucrânia, Islândia, Iraque, Dubai, Grécia (28,56% de probabilidade), Letónia e Estado da Califórnia (24%). A probabilidade de incumprimento para Portugal era ontem, no fecho, de 15,68%.