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Os russos estão a perder o medo (ou a Primavera Eslava)

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Sexta feira, 23 de dezembro de 2011

Devido à fraca qualidade do autor do costume, a gerência de "A Tempo e a Desmodo" resolveu abrir uma nova secção: "os convidados". A convidada desta semana é Ekaterina Gorbunova, cientista política (ICS-UL), que nos fala aqui da Revolução de Neve, isto é, do despertar político e cívico na Rússia. 

"Os russos estão a perder o medo (ou a Primavera Eslava)", por Ekaterina Gorbunova 

Há cerca de um mês, depois de receber esta proposta para reflectir sobre as aspirações imperialistas da Rússia de hoje, pensei escrever sobre a difícil e autoritária história do país e, em consequência, sobre a capacidade do povo para tolerar as dificuldades até o fim, e a necessidade - por parte da população - de ter um líder poderoso na procura da "ordem" e da "estabilidade". Procurava explicar que este desejo de uma "mão forte" e de um tipo de governação paternalista tem muito que ver com o carácter russo e com a "cultura política planeada". Mas parece ter chegado uma nova geração - mais informada, com melhor estatuto económico - que tem outras prioridades e valores; uma geração mais exigente e mais preparada para defender os seus direitos e liberdades e criar, assim, alguma base para uma política democrática. Nunca pensei que iria ter uma prova tão clara desta última tese em tão pouco tempo.

As eleições para a Duma Estatal (o Parlamento no sistema institucional russo), que ocorreram no dia 4 de Dezembro, mostraram mudanças visíveis nas atitudes políticas dos russos, deram origem à maior contestação social dos últimos vinte anos, e provocaram uma crise política de grande escala na Rússia. A dimensão da fraude, já provada por jornalistas e observadores independentes, foi tão significativa que milhares de cidadãos russos sairam para as ruas em acções de protesto.

O que desencadeou esta mudança foi o facto de uma proporção significativa da população não apoiar ou sequer aprovar uma série de decisões recentemente tomadas pelo governo, nomeadamente o chamado "roque" - o esquema de troca de lugares entre Presidente e Primeiro-Ministro. A popularidade da elite governante tem diminuído significativamente nos últimos meses. Em Novembro, a maioria dos cidadãos consideraram o partido "Rússia Unida" como apenas uma ferramenta nas mãos do seu lider Vladimir Putin e do seu círculo; do mesmo modo, 45% da população não o queria ver como partido do poder. A imagem deste partido, enquanto partido forte, parece ter sido destruída. As pessoas estão verdadeiramente cansadas do partido e dos seus membros. E isto significa o início do fim da legitimidade popular do actual regime e da hegemonia de um único partido. E é sabido que a perda de legitimidade, mais cedo ou mais tarde, conduz inevitavelmente a uma perda de poder.

As numerosas manifestações a favor de eleições livres, que decorreram durante a última semana em várias cidades da Rússia, reuniram não tanto pessoas 'indignadas' e 'ofendidas', das classes sociais mais baixas, mas, pelo contrário, pessoas educadas, bem sucedidas e 'saciadas', que viviam bem mas perceberam que não viviam livremente. São estas pessoas, que incluem muitas figuras públicas, escritores, jornalistas e apresentadores, que se sentiram enganadas pelo processo eleitoral. São pessoas que não se sentem revolucionárias, nem rebeldes, mas cidadãs, e que exigem respeito da parte do governo do seu país.

Mas, agora, a questão crucial será esta: estamos a testemunhar o fim do monopólio do actual 'tandem' do Kremlin e um verdadeiro despertar político e cívico na Rússia, capaz de conduzir a um novo sistema político, mais aberto, mais competitivo e mais democrático, ou estamos apenas perante uma temporária euforia social, estimulada pelas redes sociais?

Sim, ainda é muito cedo para fazermos qualquer tipo de prognóstico. Apesar de terem autorizado os protestos, de terem permitido alguma cobertura televisiva e de terem prometido uma investigação da fraude eleitoral, a par de um aumento da representação dos partidos da oposição em comités da Duma, as declarações de Putin e Medvedev parecem mais um desejo de acalmar a própria oposição do que um real passo para uma liberalização política na Rússia. Seja como for, é claro que o Kremlin tudo fará para manter o poder.

A fraqueza dos partidos de oposição e o facto de os seus líderes pretenderem tirar dividendos políticos da contestação social também pode jogar a favor do poder actual. A Rússia precisa urgentemente de uma consciência política, traduzida em novos partidos políticos, de diferentes orientações, à esquerda e à direita, moderados ou mais radicais. Por outro lado, durante as últimas semanas a sociedade russa sofreu importantes mudanças e, quero acreditar, estas são irreversíveis. Pela primeira vez na história política russa, os protestos em massa foram inspirados e coordenados fora das estruturas políticas tradicionais, com base nas redes sociais, onde as pessoas têm a total liberdade para expressar a sua insatisfação. Esta ideologia do movimento não é tanto um protesto político, mas civil. Estamos a testemunhar o nascimento da sociedade civil na Rússia.

Agora é importante não parar. Diria que este sábado, dia 24 de Dezembro, para o qual está marcada uma nova onda de manifestações por toda a Rússia, e os meses que se seguem até as eleições presidenciais em 4 de Março de 2012 dirão se este é um período crucial de mudança para o futuro do país, ou não. A ver vamos.

 

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Os russos não tem mêdo
águiadois (seguir utilizador), 4 pontos (Bem Escrito), 9:00 | Sexta feira, 23 de dezembro de 2011
O KGB e as ditaduras comunistas criaram os gulags,mas o Povo Russo lutou sempre pela liberdade.Hoje,a realidade prova isso mesmo, com empenho politico cada vez maior dos seus cidadãos na condução do seu destino coletivo.
Só é pena que por cá,o PCP de Jerónimo de Sousa não aprenda com esses ventos de mudança e ainda esteja agarrado á velha cartilha de Álvaro Cunhal.
 
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    Re: Os russos não tem mêdo    Ver comentário
alguemalgures (seguir utilizador), 2 pontos , 1:44 | Sábado, 24 de dezembro de 2011
    Re: Os russos não tem mêdo    Ver comentário
JPOSR (seguir utilizador), 1 ponto , 14:52 | Sábado, 24 de dezembro de 2011
    Re: Os russos não tem mêdo    Ver comentário
alguemalgures (seguir utilizador), 1 ponto , 13:56 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011
    Re: Os russos não tem mêdo    Ver comentário
JPOSR (seguir utilizador), 1 ponto , 14:53 | Sábado, 24 de dezembro de 2011
Mais uma tola primavera,
Rio Grande (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 10:30 | Sábado, 24 de dezembro de 2011
qual propaganda de alguma utilidade doméstica, pelo simples fato de os jornalistas pensarem que, do lado de cá, só estão os fracos de ideias, ou cérebros de moscas, curtidos pela ideologia pronta e fácil de ser assimilada. Pessoalmente, já estou farto dessa conversa de exportação da democracia, como remédio para todos os males. Para tudo isso só existe um nome: ganância. O que, de fato estão exportando, é a liberdade do capital, da ganância desenfreada, pouco importando o que os povos realmente querem. E, é evidente, que a liberdade é uma enganadora forma de cativar. O que chamam de liberdade é fazer calar a voz em contrário e revelar uma unidade dentro da diversidade, artificialmente controlada pela aparência de possuir isso ou aquilo, de perambular pelos corredores do consumo, mas nada muito além. Na realidade as tais primaveras são como sereias, belas e mortais. Rio Grande
 
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HR
caprylm56 (seguir utilizador), 2 pontos , 15:48 | Sexta feira, 23 de dezembro de 2011
Um feliz natal.
 
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Esperança
moncarapacho (seguir utilizador), 2 pontos , 22:38 | Sexta feira, 23 de dezembro de 2011
Compartilho a esperança da autora numa abertura a Leste.
A questão não +e simples, acho que a população russa nunca se libertou do sentimento de ver o czar como o pai da pátria, ungido por Deus.
  Viveu sempre sob rígida ditadura czarista a que se seguiu a igualmente implacável ditadura comunista. A ideias políticas, as ideologias, nunca foram discutidas abertamente, pelas populações, habituadas a que o Estado tratasse de todos os assuntos, desde a habitação ao emprego, quebrando a iniciativa pessoal, a livre escolha de profissão e mesmo a livre escolha de cidade para residir. Tudo estava previsto e era só não fazer ondas.

Só que estas manobras de presidente, trocando a bel-prazer com o primeiro ministro, tratando os eleitores como borregos que votam à medida, talvez tenha excedido a paciência dos russos mais evoluídos, residentes nas grandes cidades.
Conseguiram o regresso da eleição dos governadores, que costumam ser também grandes vigarices , mas sempre é um começo
.Falta aparecerem partidos com ideologias que completem o arco político e que haja o debate consequente.......
 
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a culpa é da internet
desacomodado (seguir utilizador), 1 ponto , 8:32 | Sexta feira, 23 de dezembro de 2011
A culpa é da internet. Veio dar voz a quem sopra calado.

De entre as várias exigências recolhidas nos protestos, o governo só acedeu em abrir um inquérito sobre as eleições. Mais nada. Ficou-se a vontade e o mediatismo, que por si só, já são presságio de uma mudança.

 
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santa ingenuidade
Jolitras (seguir utilizador), 1 ponto , 9:16 | Sexta feira, 23 de dezembro de 2011
sempre que ouço falar em primaveras e redes sociais e povo mais informado e culto dá-me vontade de rir.. mas ainda há quem pense que o povo é que faz as revoluções?!.. tamanha ingenuidade que também acha que o norte de África vai agora ser democratizado.

http://barbarraridades.bl...
 
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    Re: santa ingenuidade    Ver comentário
sacristão (seguir utilizador), 1 ponto , 19:06 | Sexta feira, 23 de dezembro de 2011
    Re: santa ingenuidade    Ver comentário
Jolitras (seguir utilizador), 1 ponto , 9:59 | Segunda feira, 26 de dezembro de 2011
    Re: santa ingenuidade    Ver comentário
sacristão (seguir utilizador), 1 ponto , 14:07 | Segunda feira, 26 de dezembro de 2011
    Re: santa ingenuidade    Ver comentário
Jolitras (seguir utilizador), 1 ponto , 14:20 | Segunda feira, 26 de dezembro de 2011
    Re: santa ingenuidade    Ver comentário
sacristão (seguir utilizador), 1 ponto , 21:04 | Segunda feira, 26 de dezembro de 2011
    Re: santa ingenuidade    Ver comentário
Jolitras (seguir utilizador), 1 ponto , 21:24 | Segunda feira, 26 de dezembro de 2011
    Re: santa ingenuidade    Ver comentário
sacristão (seguir utilizador), 1 ponto , 14:06 | Terça feira, 27 de dezembro de 2011
Comentário
rogério pimenta (seguir utilizador), 1 ponto , 13:15 | Sexta feira, 23 de dezembro de 2011
Gostava de deixar aqui um comentário mas vou ter de ir ali fazer um "copy-paste". Venho já...
 
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Cruzadas (seguir utilizador), 2 pontos , 10:32 | Sábado, 24 de dezembro de 2011
O que se sabe sobre a vida política na Rússia?
A.S.Duarte (seguir utilizador), 1 ponto , 16:23 | Sexta feira, 23 de dezembro de 2011

Sobre a vida política na Rússia que é que um cidadão que vive no ocidente europeu pode dizer? Escasseiam as informações e o pouco que se sabe parece ainda condicionado por preconceitos que parecem persistir sobre os regimes que que fogem um bocado aos padrões que se convencionou ser os "verdadeiramente" democráticos. A imensa Rússia será eternamente um caso que aos nossos olhos será sempre tido como algo de autoritário e não totalmente democrático. As eleições até agora realizadas não têm sido verdadeiramente livres? Não sei até que ponto isso pode ser tido como tal ou será que os perdedores assim as consideram perante as derrotas das suas propostas?Está para acontecer uma Revolução da Neve? As opiniões da cientista política não serão, elas próprias, um reflexo do seu posicionamento político?Não sei, todas as interrogações e dúvidas são possíveis...
          Já agora, o que sabem os portugueses da política em Portugal?
 
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Tie them up!
Anthos (seguir utilizador), 1 ponto , 19:49 | Sexta feira, 23 de dezembro de 2011

Ao que parece, até agora este artigo teve muitíssimos leitores, que deixaram 7 (sete, repito sete) comentários contra os 31 (trinta e um) no artigo por Daniel Oliveira.

Não faço de ofender a senhora mas o seu pensamento vai devagar se pensarmos que levou tanto tempo antes de chegar a escrever este artigo.

Substancialmente ela não diz nada de novo, não diz algo que nós não sabemos.

O que posso fazer neste momento?

I stand up for an ovation to the Editorial Office of this Section, that always has very appreciable and innovative ideas. Hurrah!

                                          Um contestador

 
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Durante um Espaço de Tempo.
Notes (seguir utilizador), 1 ponto , 12:19 | Sábado, 24 de dezembro de 2011
Durante um espaço de Tempo a União Sovietica Abriu-se e tornou-se na Russia mas caminha até ao dia em que se voltara a Fechar.
 
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- A v i s o -
Anthos (seguir utilizador), 1 ponto , 10:13 | Domingo, 25 de dezembro de 2011


Ir à igreja em qualquer período do ano significa aprovar e apoiar os abusos dos padres pedófilos.

                      António

 
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    Re: - A v i s o -    Ver comentário
sacristão (seguir utilizador), 1 ponto , 13:54 | Domingo, 25 de dezembro de 2011
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