Como é que os cobertores, almofadas, lençóis, toalhas ou roupões personalizados que equipam as cabinas dos iates e aviões de celebridades como Bill Gates, Paul Allen ou Roman Abramovich são fabricados em pequenas têxteis nortenhas?
O segredo reside na multinacional Li & Fung (LF), a maior trading do mundo. Uma trading vende produtos (o agente vende serviços) e faz a ponte entre quem fabrica e quem vende, correndo os riscos da operação. Para os clientes, assume-se como fornecedor, para os fabricantes como cliente.
Com 80 escritórios e 16 mil funcionários, a LF funciona como braço armado de gigantes do retalho, cadeias de moda e redes hoteleiras, distribuindo as encomendas pelos 42 países em que opera, procurando sempre a solução certa, ao preço certo.
No caso dos iates e aviões, as peças exclusivas e luxuosas são criadas por gabinetes de Londres e Nova Iorque que transferem para a LF a responsabilidade do fabrico e entrega das peças. É nessa fase que entram em cena os 81 fornecedores de vestuário, têxtil-lar, cerâmica e vidro com que lida a sua base portuguesa da Maia.
A mesma lógica explica a presença de têxteis-lar portugueses nas camas dos novos hotéis Mandarim (Miami e Milão) e das unidades de Londres, Berlim e Miami da cadeia de boutique hotel Soho - a Hyatt pode em breve engrossar a lista. Mas, no universo dos lençóis, roupões e toalhas de banho, a maior proeza recente foi a encomenda para um condomínio requintado, promovido pelo sultão do Bahrein, na zona londrina de Mayfair.
Barómetro da indústria
Saber o que compra e para quem compra em Portugal o maior trading do mundo é um exercício que ajuda a perceber para onde caminha a nossa indústria. A LF é um excelente barómetro para medir a competitividade dos países.
"Portugal deve assumir-se como a nova Itália e focar-se, pela proximidade, nos mercados europeus. A flexibilidade fabril é uma das vantagens, mas sofre do défice no design e inovação", diz David Schneider, 43 anos, vice-presidente da organização e responsável pelo escritório português.
A indústria portuguesa tem perdido competitividade "porque não está a ser suficientemente inovadora". O fator crítico, diz David Schneider, não é o custo de mão de obra, mas o preço da energia. As ações de promoção sectoriais "são um desperdício". O país deveria promover no exterior a marca Portugal. Os sinais mais recentes são encorajadores.
David Schneider conta que a capacidade dos seus fornecedores está esgotada até ao fim do ano e o negócio da LF em Portugal crescerá 26%, em 2010.
O desempenho cura de vez as feridas provocadas pela sova de 2009 (queda de 20%) e permite à base portuguesa regressar a vendas acima dos €60 milhões, batendo um novo recorde.
Marcas famosas
No seu catálogo de clientes surgem marcas famosas como Calvin Klein, Ralph Lauren, Kenzo, L'Oreal ou Tommy Hilfiger e redes como as britânicas John Lewis e Debenhams.
"A vocação de Portugal é para as pequenas séries, de gama alta, evitando concorrer com os fabricantes asiáticos", diz o gestor. Ainda assim, admite que a desvalorização do euro poderá abrir espaço no mercado americano, em peças de preço mais baixo.
Recentemente, David Schneider teve de produzir, em oito semanas, três milhões de robes em poliéster. A encomenda foi distribuída por quatro fábricas na Turquia, um dos principais rivais dos fabricantes lusos.
Portugal nunca teria capacidade nem preço. Mas, quando se tratou de fornecer roupões personalizados para a casa do sul de França de Roman Abramovich, a encomenda foi entregue ao escritório da Maia. O multimilionário reincidiria depois para oferecer roupões iguais aos seus amigos.
Globalização total
A LF é um exemplo perfeito da globalização da economia atual. É possível que aplique um fecho do Japão numa peça fabricada com tecido da China, tingida em Itália e confecionada em Portugal. A companhia só não tem fábricas, nem lojas. No resto, trata de tudo, desde a ideia, à entrega no retalho. E tem designeres e coleções próprias que sugere aos seus clientes.
Um terço do que está à venda num grande centro comercial norte-americano terá sido colocada pela agência, fundada há mais de cem anos pelos senhores Li e Fung.
A cadeia Khol's é o seu principal cliente, comprando-lhe por ano 1,5 mil milhões de dólares (1,1 mil milhões de euros). Mas Portugal não come à mesa das grandes cadeias. É por isso que a LF compra agora menos vestuário às têxteis portuguesas. Representa menos de metade das vendas, compensando pelo reforço do segmento dos têxteis-lar.
"O mundo mudou e na moda os segredos acabaram. Trocam-se ideias, as novidades circulam livremente. Dantes, o show room das marcas mostrava as coleções anteriores, que tinham sido embarcadas. Agora, apresenta as novidades", diz o vice-presidente da LF.
O gestor, nascido no Porto e licenciado em Genebra, passa dois terços do ano a viajar e tornou-se passageiro frequente para Índia, Paquistão e Hong Kong.