19 de maio de 2013 às 7:43
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Os Rostos na Crise

Mário Cláudio

Dir-se-ia ter a galopante crise atingido agora os gabinetes dos políticos em exercício, e naquilo que mais poderia ampará-los, o oportuno tratamento da sua imagem. Sumariamente exonerados, os conselheiros da dita andarão a estas horas emigrados, e tropeçando nos rudimentos da língua mandarim, a oferecer os seus préstimos aos enigmáticos estadistas chineses. Mas a verdade é que, em consequência de uma tal desmobilização, nos vemos constrangidos a assistir todos os dias a um desfile de criaturas feias, e mal vestidas, que passam para quem as observa a mensagem da sua óbvia inadequação às circunstâncias.

Nada de mais desgastável do que a cara de um ministro, ou de um presidente da república, uma vez guardados nos álbuns da história os sereníssimos facies reais. A corrosão permanente a que se submetem os que visitam hospitais e fábricas, escolas e quartéis, e inauguram bairros, e replantam eucaliptos, e comem publicamente o pastel de bacalhau, não encontra paralelo em qualquer modalidade de usura a que o ser humano se sujeite. E aquilo que os pobres dos governantes se sentem obrigados a ostentar, a simpatia sem quebra, a indiferença às críticas, e em especial aquela jubilosa fé no futuro, e na eficácia das medidas que juram conduzir a ele, e em que fingem acreditar, converte-se-nos num espectáculo que, quando deixa de nos divertir, fatalmente nos irrita. Por meses e meses confrontamos o mesmo esgar, e a insegurança que lhe vai conexa, e se aos que o transportam não aproveitarem, conforme parece suceder agora, as dicas do técnico de marketing, o resultado não tardará a produzir-se, e já não expresso no número de votos, mas na falência da básica saúde mental de cada um de nós.

Quando se mostram repostos ad nauseam os tiques de linguagem, o léxico que sustenta o discurso, as pausas que neste se intercalam, e as buchas com que se preenchem as brancas, é no rosto silencioso que sobretudo se repara. E os olhos baixos, as certezas assumidas sem pestanejar, e a tacha arreganhada, aconteça o que acontecer, insultos e vaias, e até o eventual encharcado nas ventas que Deus não permita, anunciam o fim de uma era, e a derrocada das expectativas que ao longo dela se acalentaram. Substituí-la então por outra mais limpa exigirá desde logo novas cataduras, e novas falas, porventura mais ainda do que novas ideias, isto a menos que se dê o suave milagre de coincidirem os três factores por obra e graça do Espírito Santo.

Seja como for, com a crise, ou sem ela, jamais deverá prescindir-se do contributo do conselheiro de imagem, tão presente por milénios e milénios de desempenho do poder. E se o tempo das vacas magras preconizar dispensá-lo, não se duvide de que faremos todos a figura que não queremos, quando quem manda a nordeste nos impõe que façamos a mais triste das figuras.

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