19 de junho de 2013 às 2:55
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Os portugueses

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Nada há de mais cansativo do que as conversas existenciais sobre os portugueses. Eles são tristes. Pessimistas. Obedientes. Invejosos. Mesquinhos. É curioso que a coisa raramente bate certo com a ideia que os portugueses têm do seu passado. Que foram corajosos. Ambiciosos. Tolerantes. Generosos. E a propósito desta incongruência construiu-se uma narrativa que se entranhou nos nossos espíritos: a de um Império perdido que espera, acabrunhado nos seus brandos costumes, pelo regresso de um Sebastião que lhe devolva essa glória imaginada.

Os portugueses não são nada. São, como todos os povos, temerosos e temerários, tolerantes e preconceituosos, mesquinhos e generosos. E a sua proverbial inveja resulta apenas de uma forma resignada que temos de lidar com a injustiça. Quando se vive num país onde uma pequena elite goza de um conforto desproporcionado para os recursos que temos e a maioria de uma pobreza que o que já temos não justifica, a inveja é apenas a alternativa passiva à revolta. Mas essa revolta já se fez sentir algumas vezes: na I República e no PREC, por exemplo. Dois momentos de dignidade em que os portugueses contrariaram a narrativa que a sua elite foi construindo sobre eles. Dois saltos no escuro que nos fizeram melhores como povo.

Aquilo a que assistimos nos últimos meses tem décadas. Tem séculos. Dia após dia, todos os dias, vendem-nos as histórias de sempre: vivemos acima do que podemos; não merecemos o pouco que temos; somos gastadores e improdutivos; devemos aceitar disciplinadamente todos os sacrifícios; a revolta apenas nos poderá prejudicar.

É por isso que a próxima greve geral é uma urgência. Um momento em que recusamos a estabilidade que nos amesquinha numa mediocridade que não merecemos. Não é apenas um protesto. Não pode ser apenas um grito. Tem de ser um aviso. Não somos o que se diz de nós. Ou até somos. Invejosos perante os privilégios que outros não merecem. Rancorosos por décadas de assalto ao que devia ser de todos. Intolerantes com a injustiça que deixa sempre para os mesmos a fatura de erros que não lhes podem ser atribuídos. Enfim, cidadãos. Fartos de ser os portugueses que queriam que fossemos.

Num andor


A Manuel Alegre pergunta-se se apoia ou não a greve geral. Se se perguntasse a Cavaco Silva ele responderia que a greve é um direito. Seria normal. Como o guião mediático para Alegre já está escrito, até uma resposta clara e comprometida merece o carimbo de indecisão. A Manuel Alegre pergunta-se como votaria o Orçamento. Coisa a que nenhum candidato a presidente, por não ser candidato a deputado, responderia.

Mas logo se escreve: está com um pé dentro e outro fora. A Cavaco nunca se pergunta nada. Nem sobre as suas relações com o BPN, nem sobre as escutas que imaginou e negou, nem sobre as suas interferências crónicas, a partir de Belém, na vida interna de um partido. Nada. Cavaco faz, há décadas, política sem debate, propaganda sem perguntas difíceis, erros sem censura mediática. Basta ler os jornais para perceber que a tradição continua a ser o que era. Por mais escabrosas que sejam as suas companhias, por mais irresponsável que seja o seu comportamento, por mais vazio que seja o seu discurso, Cavaco vai num andor.

Daniel Oliveira

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de novembro de 2010

 

Comentários 8 Comentar
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O escrever "bonito" da demagogia
Gostei do seu texto. É patriótico e remexe as reminiscências da minha memória recordando um outro que terminava: “para Angola em força”. Não estou a “confundi-lo" em termos políticos, mas em relação aos objectivos: dizer que temos direito, àquilo que não temos.

Sobre o passado não vou desenvolver aquilo que todos sabemos, mas sobre o seu apelo, vale a pena fazê-lo: A greve tem o objectivo de mostrar a nossa intransigência em não perder direitos ficcionais. As estruturas que lideram a manifestação dos que ainda têm trabalho, são as mesmas que nos últimos anos assistiram, condescenderam e apoiaram o desperdício do fruto do trabalho de todos. Um Estado foi crescendo, consumindo tudo o que havia. E o que não havia.

Um Estado forte pode não ser um Estado “gordo”, mas depende dos políticos. Aos que temos, é um perigo (para todos) deter tal poder. Com um Estado “magro”, as suas acções não seriam tão perniciosas.

Devemo-nos revoltar sim, mas contra aqueles que enquanto esbulhavam o pouco que havia, nos garantiam direitos sobre o que não havia.

A mudança de Governo, a queda deste PS, urge. Porque nesta fase, o mais importante é repor a sanidade. A governação como está, é: “perdido por um, perdido por mil” e, na tentativa de minimizar os problemas no imediato, amplia-os dramaticamente a médio e longo prazo.

Quem vier a liderar pode não ser o melhor, mas o importante é que acabe com a demência.
O Alegre do coração e o Cavaco da perdição Ver comentário
Daniel Oliveira , os Bloquistas e a cambalhota
Daniel Oliveira e os Bloquistas tem um sério problema a resolver: apoiam Manuel Alegre e Manuel Alegrte apoia o PS de Sócrates.
Os Bloquistas e Louçã atacam forte e feio Sócrates , o seu Governo e vêem Louçã no palanque com Sócrates e Alegre.
Ora, se os intelectuais do Bloco-Daniel Oliveira incluído-se vêem "gregos" para descalçar a bota desta incoerência, como vão fazer os militantes do bloco para explicar este imbróglio?
É que a politica tem valores e princípios que,por muitas voltas que se dêem ,volta-se sempre ao mesmo sítio.E assim, o Bloco de Louçã meteu-se numa aberrante contradição ideológica que não lembra aos mais distraídos.
OS PORTUGUESES SÃO ESCRAVOS DE LADRÕES
A Empresa Pública CTT, administrada por Estanislau Costa, decidiu, concentrar grande parte dos seus serviços num único edifício, na ZONA QUE JÁ FOI CONSIDERADA, A REBOLEIRA À BEIRA TEJO, Isto só porque, tal como, na Reboleira do seu tempo, qualquer dia não haverá um m2 de terra sem um prédio em cima. Estou a Falar DO PARQUE DAS NAÇÕES. E A MUDANÇA É PARA O EDIFÍCIO COM O NOME DE "BÁLTICO".
Os CTT vão pagar uma renda mensal de 4,2 milhões de euros por mês. Segundo parece, os contractos de arrendamento que os CTT tinham com as Instalações onde estavam, alguns só caducam daqui a 15 anos e prevê-se que só de indemnizações aos antigos Senhorios os CTT, terão que vir a pagar mais de 40 milhões de euros.
ISTO É UM ACTO DE GESTÃO DE UM GESTOR DE UMA EMPRESA PÚBLICA...Mas sabem V. Exas. a quem pertence o edifício da NOVA REBOLEIRA? Á MOTA ENGIL DE JORGE COELHO, pois claro. UM NEGÓCIO TÃO RUINOSO, SÓ PODIA ENVOLVER LUVAS..LUVAS E MAIS LUVAS. Será que aos CTT, para pagar uma renda deste montante, não seria muito mais vantajoso, entrar num contracto de leasing, mesmo que fosse a 20 anos, pagaria metade da RENDA e daqui a 20 anos o Edifício era da EMPRESA. É claro que para COELHO, este negócio não interessa, daqui a 20 anos a MOTA, terá empochado muito mais de 1000 milhões em rendas. Este montante teria dado para comprar, pelo menos 5 prédios. Mas o Importante para ESTANISLAU, não é defender a Empresa que Administra. Essa é do POVO e o POVO que se lixe. Há que defender o AMIGO e '''???
Mentiroso compulsivo Ver comentário
Os porttugheses
Os portugueses são uma população de filhos das couves e da sardinha que carregam a dor ancestral de serem pobres mais a vergonha e o NOJO pelo facto. Por isso cultivam o que julgam ser uma pose aristocrática mas que é apenas pomposidade, mau trato e não poucas vezes mau estilo : Jeep, loura com penteado à prova de ciclone e berloques tilintantes mais o golden retriever. Pior mesmo só no Texas e na Andaluzia . Incapazes de se colocarem na pele dos outros e sem capacidade de auto análise adoptam (mal) todas as modas que os bem nascidos remasterizam vindos das sucessivas Mecas: Paris, Londres e agora NYC, a sua referência number one!. Além disso têm a melhor cozinha do mundo. E TINHAM aldeias e vilas encantadoras onde o tédio era a regra e hoje são cómicas ou, como Óbidos, um pastel de cera. E também têm a Av. da Liberdade em Lisboa. Olhar esta última é tudo saber sobre Porthugal.
Ruína
"a inveja é apenas a alternativa passiva à revolta." - boa frase. Mas não seria melhor que, em vez de invejar, os portugueses lutassem para atingir melhores níveis de vida? Se outros povos o conseguem nós também o conseguiríamos.

"na I República e no PREC, por exemplo. Dois momentos de dignidade" Curiosamente, dois momentos de dignidade que arruinaram o País. Do primeiro, só uma ditadura férrea conseguiu minimizar os danos. É pena que para sermos dignos, na perspectiva de DO, tenhamos que nos arruinar
:)
Aqui o homem das pestanas triangulares tem razão! grande texto! vamos todos para a greve geral dar o nosso grito de revolta como em França. Deixemos de ser uns enconados e dizer mal da situação do país e nesse dia ir passear para o shoping para fugir à greve...
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