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Os perigos da criminalização do enriquecimento ilícito

A criminalização do enriquecimento ilícito procura combater a incompetência da nossa investigação criminal, oferecendo aos alegados incompetentes um poder manifestamente exagerado.

Adolfo Mesquita Nunes (www.expresso.pt)
10:11 Quinta feira, 6 de janeiro de 2011

A proposta de criminalização do enriquecimento ilícito surge em Portugal como atestado último e definitivo da incompetência da nossa investigação criminal.

Na verdade, inconformados com a dificuldade ou incompetência da investigação criminal em apurar factos que permitam a condenação pela prática de um conjunto de crimes associado ao fenómeno da corrupção, os proponentes da criminalização do enriquecimento ilícito procuram, sem resolver ou apurar o que seja essa dificuldade ou incompetência, atalhar caminho para a condenação: se a investigação não consegue provar a prática desses crimes, então crie-se um tipo de crime que seja de fácil prova.

O enriquecimento ilícito é a forma encontrada: se não é possível provar que uma pessoa praticou um crime, então essa pessoa que prove que o dinheiro que tem não advém da prática de um crime.  

Ou seja, não é já necessário que a investigação se dedique a investigar a prática de crimes, basta apenas que peça esclarecimentos sobre as contas bancárias. E ainda que a proposta se dirija apenas aos titulares de cargo político ou equiparado (o que, em Portugal, ou apanha uma boa parte da população ou então não apanha ninguém), a verdade é que a inversão do ónus da prova que sugere abre a caixa de Pandora por que muitos estão à espera: se os políticos não devem ter nada a temer, devem os cidadãos ter?

Esta circunstância já me parece suficiente para afastar a possibilidade de juntar a minha voz aos que defendem a criminalização do enriquecimento ilícito. Mas o que não deixa de me surpreender é que os mesmos que se indignam, e bem, com o estado da nossa justiça e com a sua politização, se apressem agora a conferir-lhe um poder ainda maior: o de invertir o ónus da prova, instrumentalizando qualquer agente político ou equiparado. 

Num momento em que se consensualizou que a justiça está politizada, que anda ao sabor das eleições e do calendário político, vamos agora oferecer-lhe esta possibilidade de politizar ainda mais a investigação criminal? Ainda para mais sem mexer uma palha no sistema, que permite o que tem permitido em Portugal? 

Note-se que não pretendo (em rigor, nem deveria estar a deixar este esclarecimento, mas enfim) que a corrupção fique impune: apenas pretendo que a corrupção seja apurada e julgada pelo que é. Se não conseguem provar a corrupção, esforcem-se para o efeito, peçam mais meios, exijam condições e denunciem os entorpecimentos.  

Espero voltar a isto em breve.  

Palavras-chave  Blogues, Política, Portugal 2009
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Quem cabritos vende...
Politik in ku recto (seguir utilizador), 1 ponto , 13:57 | Quinta feira, 6 de janeiro de 2011
Ao ler esta crónica lembrou - me um velho ditado que dizia - "Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem! " Num mundo em que a opinião deste senhor que escreve a coisa fosse dominante, ninguém teria de justificar a origem dos cabritos que vendesse. Não digo que fosse errado. O que acho é que quem cabras tivesse e cabritos não vendesse, porque misteriosamente lhes desapareciam, deixaria de ter cabras. Será que ia haver recessão de cabritos?
 
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    Re: Quem cabritos vende...    Ver comentário
Adolfo MesquitaNunes (seguir utilizador), 1 ponto , 15:49 | Quinta feira, 6 de janeiro de 2011
    Re: Quem cabritos vende...    Ver comentário
CM84 (seguir utilizador), 2 pontos , 17:39 | Quinta feira, 6 de janeiro de 2011
    Re: Quem cabritos vende...    Ver comentário
Adolfo MesquitaNunes (seguir utilizador), 1 ponto , 17:42 | Quinta feira, 6 de janeiro de 2011
    Re: Quem cabritos vende...    Ver comentário
CM84 (seguir utilizador), 2 pontos , 12:35 | Sexta feira, 7 de janeiro de 2011
    Re: Quem cabritos vende...    Ver comentário
CM84 (seguir utilizador), 2 pontos , 12:40 | Sexta feira, 7 de janeiro de 2011
Perigos !!!!
Black-realista (seguir utilizador), 1 ponto , 17:53 | Quinta feira, 6 de janeiro de 2011
Caros amigos, quem não deve não teme.
Hoje enriquecer da noite para o dia só mesmo para alguns.
Enriquece-se sim mas com muito trabalho e ao longo do tempo.
Agora que devem ser vigiados e investigados situações escandalosas, isso concordo plenamente.
Mas, podemos estar descansados QUE NADA VAI ACONTECER, a ninguém porque não temos:
UM MINISTÉRIO PÚBLICO CREDÍVEL
UMA CLASSE DE JUÍZES COM VONTADE PARA TAL
UMA POLICIA INCENTIVADA PARA A INVESTIGAÇÃO
VONTADE DOS NOSSOS POLÍTICOS
..... entre outras coisas que todos nós sabemos.
 
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