O Expresso no Afeganistão
Os nossos homens no Estado Maior da NATO no Afeganistão
(Da esquerda para a direita) Carlos Silva, o major Sebastião, eu, o capitão Salvado e Eduardo Almeida. Falta o sargento-adjunto Fernandes, que ia entrar de turno a esta hora
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Foi um convite inesperado. Carlos Silva, um sargento que está a trabalhar como funcionário civil (senior electrician) da missão da NATO no Afeganistão (ISAF), soube que havia um jornalista do Expresso em Cabul e desafiou-me para ir jantar com ele e mais quatro portugueses que trabalham no quartel-general na capital. Fui ter com eles ontem à noite e fiquei surpreendido com as funções que desempenham.
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Jantámos no restaurante que dá para um grande jardim construído em frente ao edifício principal, onde trabalha e vive o general norte-americano de quatro estrelas McCristal, responsável máximo da ISAF e da coligação feita pelos americanos, canadianos e britânicos, que assume a campanha de combates no sul do país, nas províncias de Helmand e Kandahar. É de longe um local mais agradável do que o Camp Warehouse, o aquartelamento onde está a maioria das tropas portuguesas no Afeganistão, para onde eu voltei depois de um fim-de-semana numa guesthouse em Cabul.
O jardim do quartel-general tem pequenos recantos com mesas, canteiros de relva e até uma fonte de onde jorra água, bem dentro do enorme perímetro de segurança vizinho da embaixada americana.
Carlos Silva é responsável por assegurar que nunca falte a energia eléctrica no quartel-general. Eduardo Almeida, outro sargento a trabalhar também como civil, é um geo especialista que transforma as bases de dados dos projectos de reconstrução que estão a avançar em todo o país em mapas ("É como se fosse um mapa de estradas"). Ambos estão na categoria de international civilian consultants, consultores civis internationais e Carlos acaba de renovar por mais um ano no Afeganistão.
Depois, há ainda três militares portugueses no ISAF HQ (quartel-general), todos eles em equipas determinantes para o sucesso da guerra. O sargento-adjunto António Fernandes, que chegou em Abril, é um watch keeper nas operações especiais. Traduzindo: agrega dados sensíveis vindos dos serviços de inteligência militar e redistribui-as sempre que são precisas, acompanhando as operações especiais que fazem as capturas cirúrgicas de talibãs e outros insurgentes, para os colocar fora de circulação ou obter deles mais informações.
O capitão Nuno Salvado, que está cá desde Janeiro, está por sua vez no departamento de operações psicológicas, onde é target audience analyst. Ele estuda a adequação da propaganda usada pela ISAF contra os talibãs e outros insurgentes (e a favor das forças ocidentais dos 42 países que estão com a NATO no Afeganistão), consultando para isso grupos de afegãos e tentando perceber como eles reagem aos spots de televisão e aos jornais produzidos pelos militares.
Mas a função talvez mais crítica, neste momento, desempenhada por um português no Afeganistão cabe ao major Emanuel Sebastião, oficial coordenador do Counter IED, o departamento central que dá conta de tudo o que tem a ver com as bombas caseiras fabricadas pelos insurgentes (IED significa engenho explosivo improvisado) e que são actualmente a principal e a mais mortífera arma usada contra os soldados da NATO. E que estão a reequilibrar o número de baixas a favor dos talibãs. Nesse departamento joga-se boa parte dos efeitos mais imediatos e visíveis da guerra.


