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Os insólitos do IVA

Discriminação no IVA . Nestum paga 20% de imposto e Cerelac 5%. Chupetas pagam 20% e Coca-Cola 5%.

Ana Sofia Santos (www.expresso.pt)
10:11 Sexta feira, 6 de novembro de 2009
Os insólitos do IVA
Ilustração Paulo Buchinho

Sabia que o peso dos impostos é diferente num pacote de Nestum e numa caixa de Cerelac? São ambas papas lácteas infantis, mas têm uma carga fiscal diferente. Pela primeira, paga 20% de IVA, enquanto na segunda beneficia de um desconto no imposto, que se fica pelos 5%.

Porque é que isto acontece? Não há uma razão objectiva. Assim como não se percebe por que razão a Coca-Cola ou a Pepsi também beneficiam de uma taxa de IVA mínima, quando os biberões e chupetas são considerados um luxo e pagam 20%. Um absurdo? Sim, na opinião de dois ex-secretários de Estado dos Assuntos Fiscais e de um antigo director-geral dos Impostos.

A diferença de taxas entre o Nestum e as restantes farinhas lácteas e não lácteas é para o ex-governante socialista João Amaral Tomaz "a comparação mais interessante" no que toca às incongruências no IVA.

Porquê? A resposta soa a óbvia: "São produtos alimentares que se podem considerar sucedâneos". "Não deveria acontecer", reforça António Nunes dos Reis, ex-director-geral dos Impostos e ex-director dos serviços de IVA. E cita mais exemplos, "entre vários": "O peixe e o marisco, os jornais em papel e em edição electrónica ou a manteiga e a margarina". Nestes 'pares' o segundo paga mais imposto do que o primeiro.

Nunes dos Reis alerta para o risco de "distorções de concorrência", pois diferentes impostos em produtos idênticos pode "provocar importantes desvios de consumo". E aponta que, tecnicamente, até são "questões de fácil resolução e várias vezes objecto de propostas de alteração, mas que, por razões que ignoro, não têm tido anuência dos órgãos decisórios".

Amaral Tomaz refere que "há muito que vem sendo pedido para que a questão do Nestum seja repensada", incluindo por ele próprio quando esteve no Governo. E também lamenta "a falta de aprovação até agora".
Rogério Fernandes Ferreira, que esteve à frente da pasta dos Assuntos Fiscais no Executivo de António Guterres, acrescenta à lista de insólitos "um vasto conjunto de bens vendidos nas farmácias, como biberões, tetinas, chupetas, produtos de higiene para recém-nascidos e crianças que não são considerados produtos farmacêuticos nem produtos com fins terapêuticos e, por isso, são taxados a 20%".

A culpa é dos lóbis?


Fernandes Ferreira é incisivo: "Existem, não se deve escamotear, grupos de interesses que se encarregam de 'pressionar' e de veicular as suas opiniões na comunicação social". Mas reconhece que a sua acção é limitada, pois o IVA é "um imposto de matriz comunitária". Ou seja, é Bruxelas que dita a maioria das regras (ver texto relacionado). Nunes dos Reis também admite "a existência de pressões (legítimas) de operadores interessados num tratamento mais favorável".

Já Amaral Tomaz desvaloriza este poder porque, reforça, "a margem de manobra no IVA é, hoje, quase nula". Para o fiscalista, o culpado é evidente: "a existência de mais do que uma taxa de imposto". A que se somam falhas no enquadramento de determinados bens nas listas que discriminam quais são os produtos taxados a 5%, 12% ou 20%. O ex-membro do Governo Sócrates refere que "a maioria das situações 'absurdas' teve origem nas listas iniciais anexadas ao código do IVA e que não foram rectificadas".

Em relação à Coca-Cola, Amaral Tomaz esclarece que não teve responsabilidade na decisão de "enquadrar esta bebida na lista da taxa reduzida". E aconselha que o caso "deve ser analisado em comparação com produtos idênticos". De facto, em Portugal, as águas (sem a adição de outras substâncias), refrigerantes, sumos e néctares de frutos ou de produtos hortícolas, incluindo os xaropes de sumos, as bebidas e produtos concentrados de sumos têm um imposto de 5%.

Nos restantes Estados-membros também há uniformidade na aplicação do IVA nos refrigerantes, nota o antigo governante. Ou seja, dentro deste grupo pagam todos o mesmo. A diferença é que há países que optaram por taxar estas bebidas pelo máximo, enquanto outros, como Portugal, optaram pelo mínimo.

Matar o mal pela raiz


Uma forma radical de acabar com os insólitos seria adoptar uma taxa única de IVA. Hipótese que "foi equacionada e estudada", mas que "não foi adoptada por razões políticas", refere Amaral Tomaz. No entanto, esta via esbarra à partida num impedimento constitucional "que manda onerar os consumos de luxo". Como consequência, aponta Fernandes Ferreira, os consumidores de menores recursos seriam penalizados pois são quem mais compra produtos que pagam o mínimo de IVA. Apesar de a taxa única "ser o ideal para a Administração Fiscal" - simplificava os procedimentos com ganhos de eficiência e redução dos custos de gestão do imposto -, isso não pode pôr em causa o acesso a bens essenciais, reflecte Nunes dos Reis.

Pouco a pouco tem havido alterações. Recentemente, os produtos à base de soja passaram a ser tributados a 5%. Primeiro foram os iogurtes e o leite feitos a partir desta proteína e depois, no último Orçamento do Estado, foi a vez do seitan e do tofu. As cadeiras e assentos para transporte de crianças em veículos automóveis foram outros contemplados.

Mesmo assim, em Portugal parece não existir um caso tão inusitado como a "histórica questão francesa da diferença de tratamento das conservas de ervilhas com frango, que tinham uma taxa reduzida, e das conservas de frango com ervilhas, cujo imposto era superior", recorda, com humor, Amaral Tomaz. "Casos como os que acontecem em Portugal existem na maioria dos Estados-membros", sublinha Nunes dos Reis.

Um estudo sobre mudanças fiscais publicado há poucos dias, encomendado pelo Governo e do qual Nunes dos Reis foi um dos coordenadores, recomenda uma simplificação das taxas, atribuindo o exclusivo dos 5% aos produtos alimentares, com poucas excepções. Contactado, o Ministério das Finanças não comenta este assunto, nem avança se estão na calha mais correcções.

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009

 

Palavras-chave  Economia, IVA, consumo, impostos
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MARCAS BRANCAS
Musoko (seguir utilizador), 2 pontos , 10:43 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
E quanto pagam de IVA as marcas brancas com os mesmos conteúdos?
 
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    Re: MARCAS BRANCAS    Ver comentário
anarchist (seguir utilizador), 1 ponto , 11:10 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
    Marcas =/= Problema, nestum = cerelac = NESTLÉ    Ver comentário
TheDuck (seguir utilizador), 1 ponto , 15:10 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
    Re: Marcas =/= Problema, nestum = cerelac = NESTLÉ    Ver comentário
Musoko (seguir utilizador), 2 pontos , 15:44 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
    Re: Marcas =/= Problema, nestum = cerelac = NESTLÉ    Ver comentário
TheDuck (seguir utilizador), 1 ponto , 17:23 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
    Re: MARCAS BRANCAS    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 18:06 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
....
rribeiro (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 10:43 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
""Casos como os que acontecem em Portugal existem na maioria dos Estados-membros", sublinha Nunes dos Reis" la esta o ditado, com o mal dos outros posso eu bem!

nao seria preciso uma noticia para divulgar algo que toda a gente sabe .... ora vejamos como é que o Leite infantil Aptamil em Inglaterra custa £7,86 cada e em Portugal custa €15!?!? é inadmissivel como certos pordutos sao considerados de luxo, principalmente produtos basicos e necessarios .... Portugal onde tudo se faz para ganhar mais dinheiro .... incrivel!
 
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Desgoverno.......
happylady (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 12:09 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
Mais uma vez se confirma o que todos já percebemos, os governantes que escolhemos, pagos com os nossos impostos, não defendem os interesses da população em geral, mas das diversas minorias que têm poder de constituir "lobis" de pressão.
Os ex-governantes, apontam os erros, mas nada fizeram para alterar as injustiças, culpam-se mutuamente apontam erros, mas soluções não se veem. Quando se trata de aumentos, ou algo que seja para prejudicar os cidadãos é rápido e aplica-se com retroactivos, para beneficiar os contribuintes, é sempre uma dificuldade terrivel, e vão sempre adiando, procurando desculpas.....
 
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    Re: Desgoverno.......    Ver comentário
Tibiriçá.... (seguir utilizador), 1 ponto , 18:25 | Terça feira, 10 de novembro de 2009
É nos medicamentos que o IVA se mostra
dedalo11 (seguir utilizador), 2 pontos , 13:54 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
... mais cruel! E o facto de ser baixo pelas lógica da vida de hoje, no ouro, bebidas alcoólicas, tabaco, carros de luxo... enfim, em tudo o que é claramente prescindível.
 
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COCA-COLA SEM IVA!
Musoko (seguir utilizador), 2 pontos , 15:50 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
A coca-cola nem devia pagar iva! É um bem de primeiríssima necessidade, pois além de ser bebida por toda a humanidade, mesmo pelos povos do deserto, limpa o estômago como o bicarbonato de sódio, cura a diarreia, destrói as pedras dos rins, limpa os metais, desentope sanitas, e já a vi numa dieta de emagrecimento do falecido dr. Jacques Pena (tirar o gás e beber 2 litros por dia).
EM TEMPO: Meus Caros, não comecem a dieta sem consultar o vosso médico.
 
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CoCa Cola = BASE VS Fiambre= LUXO
xtrikinina (seguir utilizador), 1 ponto , 12:04 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
Qualquer mortal que faça as próprias compras e chega a casa e revê o santo talão, acaba por perceber que existem várias falhas na atribuição do IVA,dou o exemplo do fiambre que utilizo para preparar o pequeno almoço, este é atribuido um valor superior ao da coca cola que trago para satisfazer o meu desejo das ditas"porcarias" ... não se percebe..

Apesar de ter a plena consciência que não me sinto verdadeiramente lesada, acredito que uma familia com um magro ordenado sinta esta injustiça de uma forma pesada
 
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SÓ AGORA?
graçalbi (seguir utilizador), 1 ponto , 12:22 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
Só agora é que viu isso? Ou é má fé, distracção ou ainda é muito pequenina(?) para só agora descobrir isso.
 
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POR INCRIVEL QUE PARECA...
Zaratustra70 (seguir utilizador), 1 ponto , 12:59 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
...o IVA (MWS) na Suica é de 7,6%.
Elucidativo.
Cumprimentos
 
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...e gás?...
possivel (seguir utilizador), 1 ponto , 14:50 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
Estes exemplos não são únicos. Por exemplo o gás natural tem 5% e o gás de garrafa 20%. O consumo de gás de garrafa situa-se mais no interior e em familias mais necessitadas, aumentando ainda mais os custos da interioridade e as desigualdades.
 
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    Re: ...e gás?...    Ver comentário
Copa2 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:05 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
    Re: ...e gás?...    Ver comentário
antespelocontrario (seguir utilizador), 1 ponto , 15:12 | Domingo, 8 de novembro de 2009
Taxa única
JJFF (seguir utilizador), 1 ponto , 16:12 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
O Estado deveria criar uma taxa única para todos os bens e serviços a qual permitisse a liquidação, em termos globais, do mesmo montante de imposto. Com essa medida simplificar-se-ia todo o sistema e a taxa máxima de imposto seria mais baixa, tornado o nosso mercado mais competitivo com o Espanhol, levando menos portugueses a fazer compras no país vizinho e trazendo mais espanhois a Portugal.
 
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Com o mal dos outros... ....
manavasa (seguir utilizador), 1 ponto , 22:01 | Sexta feira, 6 de novembro de 2009
"Casos como os que acontecem em Portugal existem na maioria dos Estados-membros". E depois? Engalhinho sempre com este tipo de argumentos.

À primeira vista, parece que uma taxa única resolveria o problema na sua globalidade. A questão recai sobre o valor da taxa única a adoptar. Correndo-se o risco de penalizar os cidadãos de menores recursos com o aumento dos preços dos bens de primeira necessidade, pois é claro que a taxa única não alinharia pela mínima de hoje.

Assim, corrijam-se as listas . Acabem com as "falhas de enquadramento"!

E vamos afastar da ideia que as listas actuais resultam também de pressões ilícitas, como a notícia parece aventar. Já chega o que vai por aí noutras áreas.
 
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I V A
tionando (seguir utilizador), 1 ponto , 1:02 | Sábado, 7 de novembro de 2009
A nossa sorte é o Coelho das autoestradas não ter vacas. Senão pagavamos o leite a 20%
 
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Insólitos nos gases combustíveis
C$ (seguir utilizador), 1 ponto , 1:42 | Sábado, 7 de novembro de 2009
O gás natural é taxado a 5% e o propano e o butano comerciais, os gases das botijas e canalizado, que são extraídos dos mesmos poços do gás natural são taxados a 20%!!!!!!
 
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Já agora...
ROGERMOR (seguir utilizador), 1 ponto , 22:17 | Sábado, 7 de novembro de 2009
...saibam que aqueles discos de limpeza de maquilhagem pagam 5%, enquanto um sabonete normal paga 20%! Descobri-o ainda há pouco tempo, numas compras efectuadas numa grande superfície. E percebi logo porque tanta gente cheira mal, neste país!...
 
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