Os incêndios e o repórter pornográfico
Estamos aqui em directo junto ao incêndio e o cenário é dantesco, há um cheiro a napalm eucaliptado, é aquele cheiro profundo e, confesso, viciante e quiçá narcotizante deste tipo de direto, e vamos já aqui falar com esta senhora que está a chorar no ombro do seu marido, deixem-me só enfiar o microfone entre os dois para fazer a pergunta que toda a gente quer ouvir, bom dia, está muito triste, não está? "Pois". Então, foi uma vida de trabalho que se perdeu, não é verdade? "Pois". Então, não vai dizer mais nada além desse enxuto "pois", minha senhora? Nem sequer vai verter uma lágrima para a nossa câmara? "Pois". Bom, este direto não começa da melhor maneira, peço desculpa aos telespetadores, mas não mudem já para a telenovela da concorrência, esperem mais um pouco que estamos a ver ali outra senhora, bom dia, então, muito preocupada, não é verdade? "Sim, pois". Todos os seus bichos morreram num vendaval de chamas homéricas, não é verdade? "Sim, pois". E o seu marido foi atropelado pelo camião dos bombeiros, não é verdade?, deixando-a assim sem qualquer meio de subsistência, ou seja, está muito triste, não é verdade? Bom, ainda não é desta que temos a lágrima, vamos aqui tentar com esta senhora, que está, com certeza, muito triste, não é verdade? "Não, por acaso, não estou". Como assim, minha senhora? Não se sente esmagada por uma tristeza do tamanho desta serra consumida pelo fogo? "Não, não estou, porque nunca gostei de morar aqui, sabe?". Mas não quer fazer destas cinzas a Fénix redentora da sua vida? "Não, calma, o Félix mora ali, mas eu vou embora, vizinhaça manhosa e tudo muito isolado, sabe?, sim, a minha casa ardeu e estou feliz. Não quer perguntar mais nada?".


