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Os Fukuyamas da igreja

No pós-25 de Abril, a questão religiosa nunca foi relevada. O curso normal da convivência democrática sempre pressupôs, no entanto, um certo grau de tabu, de silenciamento ou, pelo menos, de retracção face à liberdade de escrever sobre a igreja. 

Luís Carmelo
14:29 Terça feira, 13 de abril de 2010

Torna-se difícil falar sobre a igreja por muitas razões.

Difícil, desde logo, por causa das fissuras históricas que todos incorporamos ainda que inconscientemente (no caso português, citem-se casos como os da primeira república, das guerras liberais, da expulsão dos jesuítas ou da inquisição).

Difícil, porque abordar a igreja pressupõe quase sempre o reducionismo 'crentes - não crentes', quando o dia-a-dia das pessoas é muito mais complexo do que isso.

Difícil, porque o discurso, os rituais e a proximidade da igreja com a população contrastam amiúde com o que os responsáveis da igreja dizem, fazem e, por vezes, escondem.

Difícil, porque a igreja, sendo uma instituição de homens, tem uma identidade que remete para algo que "está para além da vida".

Difícil, porque, entre nós, no ciclo histórico pós-25 de Abril (ao contrário do que aconteceu, com sinais distintos, no estado novo, na república ou na monarquia), nunca a questão religiosa, felizmente, foi relevada. Não tendo havido perseguições nem adulações. O curso normal da convivência democrática sempre pressupôs, no entanto, um certo grau de tabu, de silenciamento ou, pelo menos, de retracção face à liberdade de escrever sobre a igreja.

Enfim: é difícil falar sobre a igreja, pois a própria igreja - independentemente da natureza teológica e da posição de quem escreve - assenta as suas raízes e a sua razão de ser num "verbo" que se entende a si mesmo como fundo de verdade, de unicidade e, portanto, de salvação.

Só que, por vezes, aquilo que a igreja diz é de tal modo alheado da realidade e tão deslocado do mundo em que vivemos que chega a 'bradar os céus'. É o caso das recentes afirmações de Tarcisio Bertone que relacionam a pedofilia com a homossexualidade, como se a questão do celibato não fosse tida nem achada para os escândalos que têm vindo recentemente a lume.

Há alguns dias, um pregador do Vaticano já havia estabelecido uma relação (inserindo um texto na enunciação do seu próprio texto) entre os 'Progroms' e as piores perseguições históricas aos judeus com esta "cabala mediática" (o termo não foi este, mas o espírito foi-o) que tem denunciado casos de pedofilia oriundos, de modo sistemático, de instituições católicas.

É óbvio que estas relações ferem, escandalizam e sobretudo ofendem.

Se é difícil falar sobre a igreja, por múltiplas razões que a razão tem dificuldade em elencar, o certo é que as acções - e as declarações - da igreja apenas encorajam a que se desbloqueiem tabus e silenciamentos. É difícil não falar e não reagir, quando as mais altas esferas da igreja parecem precipitar-se à beira do abismo.

Não sou crente (no sentido estrito que o catolicismo adopta), nem sou - de modo nenhum - anticlerical. Mas constato que a igreja está a viver um período de raras vocações, de cada vez menor influência na sociedade e de grande crise na sua própria estrutura. Se existisse um Fukuyama da igreja, dir-se-ia que se pressentem tempos de efectivo 'fim da história'.

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