"Os cornos eram para nós"
"Os cornos eram para nós", desabafava a meio da tarde uma assessora do PCP pelos corredores do Parlamento. Comunistas e bloquistas embrenharam-se durante horas numa disputa de protagonismo - quem teria levado Manuel Pinho a perder a cabeça? - com Francisco Louçã (do BE) e Bernardino Soares (do PCP) a desmultiplicarem-se em declarações aos jornalistas numa marcação cerrada milímetro a milímetro.
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Também por isto (mas não só por isto), o gesto irreflectido do ministro da Economia foi revelador do momento político que o país vive: o despique entre os partidos à esquerda do PS, o nervosismo nas hostes governamentais, o cansaço dos ministros mais expostos, o descontrolo à flor da pele perante a mínima provocação, e o sangue frio (vá lá!) dos já conhecidos como "Silvas do Governo" (Silva Pereira, ministro da Presidência, e Santos Silva, ministro dos Assuntos Parlamentares), que não tardaram a preparar a sós com Manuel Pinho a sua saída de cena.
A direita colou-se ao incidente e aproveitou para alargar o simbolismo do gesto do dia: desnorte!, disseram todos em coro. Como se os cornos simulados pelo ministro fossem um manguito global, espelho do cansaço de alguém que está farto, globalmente farto.
Mal se soube da demissão de Manuel Pinho , foi o aplauso geral. "É o único acto condigno" - Paulo Rangel, do PSD; "reflecte bem o desnorte do PS e do Governo" - Bernardino Soares, do PCP; "há muito tempo que pedíamos esta demissão" - Diogo Feio, do CDS; "este episódio deixa uma marca. E essa marca vai perseguir o Governo até às eleições" - Luís Fazenda, do BE.
O último debate do estado da Nação da legislatura acabou em remodelação. Afinal, os cornos eram para quem?


