Os alemães têm de pagar a crise
Puseram os alemães a produzir a seguir à II Guerra Mundial para se esquecerem de Hitler. E deu um enorme resultado. Se se fala hoje com um alemão do seu trabalho é um homem feliz. Se se tenta falar de Hitler embatuca.
Hoje os alemães são um povo pacífico, simpático, moderno mas não toleram erros nas contas nem dívidas. Muito menos que lhe toquem no valor do dinheiro.
Mas os alemães têm de reflectir
Austeridade levou Hitler ao poder
Uma solução para a crise são os eurobonds. Fala-se cada vez mais que os alemães se deviam lembrar hoje do que passaram. Tem fundamento? Parece ter. A guerra é outra mas o busílis é o mesmo. Os alemães embarcaram na I Guerra porque estavam bem preparados para ela. Como se sabe foi uma carnificina. Os aliados vingaram-se a seguir, esmifrando-os com as dívidas de guerra.
Ora, salvaguardando distâncias óbvias, também nós embarcámos numa guerra à doida do consumo com dinheiro a juros baixos que não era nosso. Temos a vantagem de não termos morto ninguém. Só demos mesmo cabo de nós quando trocámos de carro de dois em dois anos e saímos de T2 para T5.
Hoje, para nos salvarmos da bancarrota, os alemães carregam-nos forte nos juros, nas "rendas excessivas" (para usar um termo em voga) sobre o dinheiro que nos emprestam. Temos de pagar tudo, exigem-nos austeridade e não crescemos economicamente.
Na Alemanha, dois anos a pão e água, de 1930 a 1932, precisamente com o plano de austeridade do chanceler Bruning (corte do crédito e diminuição dos salários) para continuar a pagar as indemnizações da I GUerra bastaram para Hitler chegar ao poder em eleições com 14 milhões de votos (37,5%).
Por aqui, por mais brandos que sejam os costumes, nunca se sabe o que pode acontecer (afinal tivemos as guerras liberais e o estado de sitio nos anos 1920). E da dura Grécia nem se fala. Bem como da Espanha com "ganas" de não se deixar resgatar.
O problema é os alemães não percebem que um Fuhrer pode ter muitas faces e nacionalidades. E o problema ainda maior, para voltar ao princípio, é que embatucam na história anterior a 1945. Hoje, umas lições a explicar-lhes que é melhor pagarem a crise para não despertarem génios do mal pela Europa fora, resolvia o atual bloqueio europeu do " mais um pacote de austeridade, mais um pacote de resgate". Por favor, venham os eurobonds em que as nossas dívídas passam também a ser responsabilidade dos alemães. É imoral? Talvez um pouco (mas, afinal, é só dinheiro). Mais imoral seria não evitar um novo apocalipse histórico.
O fantasma da inflação
Fabricar notas é a coisa mais fácil do mundo e podia ser outra solução para resolver a crise financeira. Naturalmente criando inflação. Como diz Paul Krugman a inflação pode ser a solução para a atual crise. As dívidas encolhiam automaticamente. Quem tem muito dinheiro naturalmente que ficaria com menos. E os alemães seriam os mais afectados. Mas a economia aquecia.
Só que a inflação é um fantasma quase tão negro para os alemães como Hitler. Também para pagarem as brutais indemnizações da I Guerra Mundial, impostas pelos aliados, imprimiram moeda muito acima da economia real e causaram uma subida gigantesca de preços no país. A crise de 1929 fez o resto. Hitler invocou este fantasma. Quando hoje o BCE segue uma política dura de controlo da inflação, são os traumas alemães que estão por detrás.


