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Expresso

Cartas dos leitores

Preocupam-me os velhos que se preocupam com os novos

João Moreira de Sá

Pela primeira vez desde que sou vivo e desde que Portugal vive em democracia, o Primeiro Ministro, bem como vários Ministros e Secretários de Estado são mais novos do que eu. Há quem ache isso preocupante.

O líder agora segundo maior partido, agora na oposição será também mais novo do que eu, o que, pela mesma lógica democrática, deverá ser igualmente preocupante.

Se é verdade que por um lado sou eu que vou ficando mais velho, o que poderia ser preocupante se não fosse natural, também o é que eles são de facto novos. Um ministro com 38 anos para mim seria um puto se não fosse ministro. Chamo puto ao meu irmão que tem 40, menos três que eu.

Mas onde uns veem preocupação por motivos diversos, da pouca idade (quando há velhos tão novos e jovens tão velhos) à pouca experiência, para deixar de lado os aspetos de embirrações partidárias que se tornam ilógicos quando o "mal" abrange os dois lados da balança que nos tem oscilado, eu vejo uma "geração de Abril" (vai entre aspas que parece que só algumas pessoas é que podem usar a expressão sem aspas e eu não quero chatices com direitos de autor) finalmente a dar frutos. Uma geração que tem a sorte de não ter que viver com fantasmas do passado, que viveu já num Portugal livre e democrático. Uma geração do presente e, espera-se, de futuro.

Conheci o conceito antes da realidade, quando aprendi nas aulas de inglês o significado de "generation gap". Depois conheci-o, vi-o, venho observando esse choque de gerações, a incapacidade de nós adultos sequer tentarmos entender as crianças, quanto mais, depois, os jovens. Irrita-me a descrença nos jovens, a crítica constante, a incapacidade de lidar com tudo o que não entendemos e que como solução tentamos formatar às nossas regras.

Quando uma geração toma consciência de onde nos trouxeram e levam essas nossas regras, estas nossas gerações, atual e passadas e se recusam e seguir o mesmo caminho, a tradução do inglês "generation gap" para o português choque de gerações ganha toda nova lógica.

Está na moda a expressão "fora da caixa", pensar, agir... Estranho que a língua inglesa, tão profícua e quase sempre útil nisto de resumir conceitos em expressões de poucas palavras não tenha uma "generarion box" para esta cambada de velhos rabugentos incapazes de sequer ver, quanto mais aceitar estas (início de assobio) ventos de mudança (final do assobio melodioso antes que comece a cantar o senhor dos Scorpions).

Eu por mim estou farto de levar na cabeça por chatear os velhos da minha idade e até uns chavalecos trintões com os meus idealismos de que os jovens de agora não são um caso perdido, nós é que somos, eles percebem, nós não. Por isso senhoras e senhores, ministra, ministros, secretárias e secretários de estado, senhor PM, senhor futuro líder da oposição, rapaziada em geral, façam-me lá o favor, todos, de mostrar aos cotas que eu é que estou certo e que a verdadeira preocupação deles é o medo das mudanças (para eu depois lhes poder explicar que isso é que é ser conservador, de direita ou de esquerda, é indiferente).

Obrigado.