Siga-nos

Perfil

Expresso

Cartas dos leitores

À mesa do café

Os homens, como as mulheres, também gostam de conversar. E se o parceiro tem o dom de comunicar e, para além de fluência no discurso, é rico na área de cultura, a conversa não só distrai como enriquece. Enriquece quem, entusiasmado, busca com avidez as coisas que iluminam os caminhos da vida e o fazem parar na calçada, de vez em quando, para pensar no mundo do outro lado, no escuro, à espera que o homem desvenda, pelos caminhos da ciência, os mistérios que continuam intocáveis desde que a vida pulsa no planeta Terra.

Conversei com alguém que, emergindo da vulgaridade, no início da década de sessenta, no mar alto e mar fundo dos direitos, consegue afirmar-se como advogado de sucesso, já que descobre nas entrelinhas das leis, o que nelas interessa e tantas vezes está escondido! Mas também se move como peixe na água, nas áreas de outros ramos da cultura, sobretudo na vastidão dos meandros da Economia, onde ultrapassando as fronteiras das sábias lições do nosso saudoso Professor Teixeira Ribeiro, continua a desvendar com sofreguidão, os segredos da economia capitalista nascente a partir do século XVIII, mostrando-se mestre seguro ao desfiar o rosário das complexas teorias dos diversos autores!

Diz-se, até, que entra na bolsa a tempo e sai a horas. Não conhecesse bem o sobe e desse dos indicadores económicos!

Mostrei eu interesse em falar desse vulto do século XIX, que foi e é, através da obra legada, Karl Marx que se transforma no maior opositor do capitalismo burguês, sugerindo em alternativa, o socialismo que vem a ser, mais tarde, tão mal tratado por Lenine e Estaline e por todos que lhes sucederam, adulterando-o e descaracterizando-o com a estranha componente da repressão. Nem o socialismo de rosto humano da Primavera de Praga-68, foi tolerado pelo Big Brother que, para ali, mandou os tanques.

Marx aceitando a dialéctica de Hegel, dentro de uma base materialista, constrói a sua própria teoria com base no desenvolvimento da luta entre capitalistas e proletários, luta que acabaria, segundo ele, com a apropriação colectiva dos meios de produção. Mais: Os proletários nem precisariam de mover uma palha. O monstro do capitalismo ruiria, por si só, dadas as contradições internas existentes, dentro do próprio sistema.

Bem ao contrário, o Império construído nos países de Leste, com lágrimas e sangue, em nome do falso interesse do povo, esse sim, é que se desmoronou, por si só, aos olhos dos rostos humedecidos de alegria do próprio povo, em nome do qual havia sido levantado, que este, sim, não precisou de levantar uma palha. Foi o fruto venenoso que não caiu de maduro. Caiu, sim, de podre, sem deixar sequer semente.

E resvalando a conversa para outras áreas de cultura, fomos parar junto de Newton (1642-1727), o físico, astrónomo e filósofo inglês que descobriu as leis da gravitação universal a partir, conta-se, da maçã que lhe caiu sobre a cuca, mas que veio a ser ultrapassado por Alberto Einstein, cerca de duzentos anos depois, com a descoberta da teoria da relatividade. Mas o que eu não sabia é que este filósofo alemão, por nascimento, já começa, também ele, a ser ultrapassado, neste fim de século e milénio.

Depois, palavra puxa palavra e vem à baila o mundo dos negócios de risco.

Então detenho-me eu a analisar o fenómeno do homem ignorante que nunca coçou o cu das calças nos bancos, sequer dos liceus, e que se queixa de Deus por o castigar com dinheiro a mais. Ambos concordamos que há pessoas fadadas para certas actividades de sucesso garantido e que adoram o risco, embora controlado, do mundo de negócios. São comportamentos congénitos veiculados por cromossomas de um qualquer ascendente, às vezes já bem distante.

Mas são excepções e ilustrei com o exemplo de pessoa conhecida, muito por dentro dos problemas ligados ao sector imobiliário, problemas que passam pelas Conservatórias, Notariados e Câmaras Municipais, e que um dia, alertado para o facto de tanta riqueza ter ajudado a criar a tantas empresas de construção, suas clientes, por que teimava em trabalhar só para os outros e não começava a cuidar de um futuro mais risonho para si próprio. Ele que até planeava bem os investimentos. Determinava com rigor os custos e a mais-valia. Analisava bem os contratos e media e interpretava com rigor os projectos. Tudo dava certo para os outros, também teria de dar para ele.

Aceitou o desafio, e disse: - mãos à obra.

Associou-se a um empreiteiro na construção de um prédio a troco de uma parte pequena de capital, correspondente apenas ao terreno, já que, com uma larga clientela que tinha na sua mediadora, sabia que não ia ter dificuldades em vender todas as fracções, ainda no decorrer da construção. Claro que o pouco capital que lhe foi exigido foi conseguido com o recurso a financiamento bancário, mediante letra comercial aceite por ele e pela esposa com quem era casado sob o regime de comunhão geral de bens.

Nessa noite, a seguir ao negócio, já não dormiu. Entrou em depressão profunda. Uma nuvem de pessimismo envolveu-o da cabeça até aos pés. O prédio, segundo passa a pensar, ia dar prejuízo, dada a conjuntura pouco favorável a investimentos desta natureza, porque os juros iam parar de descer e iam começar a subir; que as fracções não se iriam vender a tempo e horas de pagar os custos; que a letra iria para protesto e executados os bens do casal; que o seu andar próprio fora a realização do maior sonho da sua vida e que agora iria ser desgraçadamente consumido por esta primeira e única aventura.

Já, de madrugada, acordou a mulher para lhe dizer que cometeu a maior loucura da sua vida. Que estavam perdidos e arruinados!

A mulher, aos suspiros bem lá do fundo da alma, sugere-lhe que vá, ainda antes que seja dia, a casa do empreiteiro, e que lhe prometa tudo, a troco da desistência do negócio.

Nesse mesmo dia, o banco aceitou a troca da letra do meu amigo, por uma outra letra do empreiteiro.

Já em casa, voltou-se para a mulher e disse:

- Vai à dispensa e trás o champanhe que o cliente do Canadá me trouxe, quando esteve aqui de férias. Sou de novo um homem tranquilo e feliz. Esse emigrante ainda vai comprar o prédio por meu intermédio, e vamos ganhar uma fortuna em comissões.

Ambos ficamos a rir.

Finalmente falamos de fortunas, e da bitola de um milionário. Se seria um milhão de dólares! Resposta nossa:

- Isso não é nada.

- E um milhão de contos? Com um milhão de contos fica-se à porta!

Fiquei a pensar na reforma de 29 contos, e são tantas, que a Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores abona a muitos dos seus profissionais com mais de vinte anos de inscrição!

Olhamos ambos para o relógio e o meu parceiro despediu-se - Até amanhã, aqui à mesma hora.

- Sem falta, Ilustre colega, respondi eu.

Avelino Barroso

  • A Redacção reserva-se ao direito de publicar ou não as cartas enviadas, bem como de condensar os originais;
  • Os autores devem identificar-se indicando o n.º do B.I., morada, telefone e endereço de mail, sendo que só o nome, o local e o endereço de mail aparecerão publicados online;
  • Não devolvemos documentos que nos sejam remetidos;
  • As cartas também podem ser versões alargadas de trechos publicados na edição impressa;

Envie a sua opinião paracartas@expresso.pt