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Rui Ramos

Trocos para os gregos

Com os nossos 75 euros por cabeça, até já julgamos saber o que é a sensação de atirar dinheiro a "porcos". Tivemos o nosso momento alemão. E ainda bem, porque talvez possamos finalmente perceber como, cá no Sul, nos parecemos com os alemães.

Rui Ramos (www.expresso.pt)

Não sei quantas vezes, durante a semana, ouvi estranhar a nossa quota de 750 milhões de euros no resgate da Grécia. Há já algum tempo que também nós, no desespero em que temos andado para nos distinguir dos gregos, passámos a falar dos seus excessos com aquela severidade que os europeus do Norte aplicam geralmente aos do Sul. Como se nós próprios não estivéssemos abrangidos pelo acrónimo - PIGS - que serve para tratar todos os Estados-membros meridionais da União Europeia como um mesmo caso de maus hábitos. Mas agora, com os nossos 75 euros por cabeça, até já julgamos saber o que é a sensação de atirar dinheiro a "porcos".

Tivemos o nosso momento alemão. E ainda bem, porque talvez possamos finalmente perceber como, cá no Sul, nos parecemos aos alemães. Eles não se reformam aos 60 anos, como os gregos, mas também não receberam o ano passado aumentos de quase 4%, como os funcionários portugueses. O problema dos PIGS, porém, não é simplesmente o do ressentimento nórdico.

Sempre a ouvir falar do PEC, é natural que julguemos estar a viver há dez anos a mesma história de zelo germânico na aplicação das regras do euro. É uma ilusão. Portugal, em 2002, tinha um problema com a Comissão Europeia. Corríamos, então, o risco de uma multa por défice excessivo. Em 2010, a situação é outra. Temos dificuldades com os nossos credores externos. O perigo, hoje, está em ninguém nos emprestar, a juros moderados, o dinheiro de que precisamos para liquidar a diferença entre o que somos capazes ou estamos dispostos a pagar e aquilo que, por via do Estado, nos achamos no direito de consumir. Os países do Sul não são, no entanto, os únicos em dívida. Porque é que não nos querem emprestar dinheiro ao preço da Alemanha?

Tanto Portugal como os outros PIGS têm, na Europa, das mais baixas taxas de poupança, de crescimento do PIB e de natalidade. Esta é a questão. A aparência é de sociedades que desistiram de todos os esforços, mas não da boa vida, que esperam gozar por empréstimo. Imaginemo-nos agora na pele de um investidor convidado a adiantar mais uns milhões. Sabe que o dinheiro servirá para pagar os salários, pensões e subsídios que os governos aumentaram, mesmo quando a falta de recursos já era notória e enquanto adiavam todas as adaptações recomendadas para inverter o declínio económico. Punha cá os seus euros? Só tentado por juros usurários.

Os PIGS queixam-se do mundo: os credores não têm coração, o euro não consente desvalorizações, os chineses fazem concorrência, os alemães não compram, etc. Acontece que os investidores não são instituições de caridade, a desvalorização seria apenas outra forma de cortar salários e pensões (como nas décadas de 1970 e de 1980), a globalização tem vantagens que não queremos perder, e os alemães não compram porque fizeram aquilo que nós não fizemos: tornaram-se competitivos, renunciando ao insustentável. É fácil culpar os investidores internacionais ou os governantes alemães. Mas sempre que o meu caro leitor tiver a tentação de ir por aí, pense no que sentiu quando os gregos lhe pediram 75 euros.

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Abril de 2010