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Rui Ramos

Armas do aquecimento global

Perante a complexidade e a incerteza, as armas de destruição maciça e o aquecimento global foram tentativas de simplificação apocalíptica: reduzir tudo a uma urgência que só deixasse um caminho, pondo termo a todas as discussões.

Rui Ramos (www.expresso.pt)

O tempo não anda de feição para a igreja do aquecimento global. A natureza não ajuda: sempre que causou estragos, preferiu terramotos e erupções vulcânicas - dos poucos fenómenos para que ainda nenhum dos fregueses do aquecimento inventou origem humana. E a semana passada, o inquérito à Climatic Research Unit da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, confirmou uma inclinação pouco científica para exagerar e descontar incertezas na apresentação do caso. Mas nem tudo é má notícia: aparentemente, não há provas de fraude deliberada.

Sei que vou irritar muita gente em muitos lados, mas confesso que a campanha do aquecimento global me faz lembrar outra - a das armas de destruição maciça no Iraque. Há desde logo um traço em comum: à cabeça de uma e outra estiveram os dois concorrentes à fatídica eleição americana de 2000, George W. Bush e Al Gore. Em ambos os casos, as provas não produziram consenso, nem as mais dramáticas previsões se realizaram. Mas embora Bush e Gore sejam rotineiramente tratados como mentirosos, movidos por interesses sinistros ou ideologias inconfessáveis, também ninguém conseguiu até hoje demonstrar que mentiram, isto é, que nos tentaram convencer de coisas em que eles próprios não acreditavam.

As duas campanhas aproximam-se porque ambas acabaram por assentar na transformação de um argumento razoável num alarido emocional. Fazia sentido remover Saddam Hussein no Iraque, tal como faz sentido limitar a poluição e o abuso dos recursos do planeta. No caso do Iraque, o regime de sanções e bombardeamentos regulares estava a chegar ao fim, deixando à solta um tirano que atacara todos os seus vizinhos, usara armas de destruição maciça e não colaborava com a ONU. No caso do ambiente, o mundo não pode provavelmente sustentar a generalização do tipo de industrialização e consumo que a Europa se permitiu no passado.

O problema é que a alternativa ao deixar andar, num caso era a guerra, e no outro, a mudança do modos de vida. Como fazer mexer um público para quem a paz é natural e os consumos são um direito? E, sobretudo, como convencer um mundo onde nem todos têm os mesmos interesses e pontos de vista? Dramatizando. Não bastava dizer que Saddam era um perigo: era preciso fazer dele o demónio de um Armagedão iminente. Tal como não basta sugerir que a poluição é prejudicial: é preciso gritar que o mundo vai acabar já amanhã. O resultado, porém, foi sujeitar os argumentos a refutações fáceis: afinal, Saddam não tinha as tais armas em 2003; afinal, continua a chover e a fazer frio.

Nestes termos, debater é impossível. Em 2003, de cada lado perguntavam-nos se "apoiávamos" ou não a guerra; agora, se "acreditamos" ou não no aquecimento global. Como se uma guerra fosse uma questão de adesão, e um facto supostamente científico, uma questão de fé. Perante a complexidade e a incerteza, as armas de destruição maciça e o aquecimento global foram tentativas de simplificação apocalíptica: reduzir tudo a uma urgência que só deixasse um caminho, pondo termo a todas as discussões. Talvez comece a ser tempo de nos comportarmos como pessoas crescidas. É a melhor maneira de evitarmos que a realidade nos pregue partidas.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010