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Rui Ramos

A anti-Igreja

Para a nova inquisição laica nada é suficiente: exigem histericamente que a hierarquia católica admita o que já admitiu, peça as desculpas que já pediu, castigue quem já foi castigado e deixe de reivindicar um foro especial que já não reivindica.

Rui Ramos (www.expresso.pt)

Alegações de 'pedofilia', algumas com mais de cinquenta anos, puseram muita gente em bicos de pés a gritar contra o Papa. Mesmo tendo em conta que os pedófilos são as bruxas do século XXI, há aqui algo de estranho. Bento XVI tem sido, entre os papas, dos mais intransigentes em relação ao comportamento do clero. Para a nova inquisição laica, porém, nada é suficiente: exigem histericamente que a hierarquia católica admita o que já admitiu, peça as desculpas que já pediu, castigue quem já foi castigado, e deixe de reivindicar um foro especial que há muito não reivindica.

Desconfiemos de tanta indignação à mostra. Haverá por aqui algum escândalo genuíno, mas o mais é circo mediático e sobretudo a má fé sectária de quem não quer ver menos do que a "maior crise da Igreja desde a Reforma". Alguns comentadores já detectaram, na vertente europeia desta campanha, a grosseira dedada do velho anticlericalismo jacobino, a quem a ideia do pecado sacerdotal causou sempre muita excitação. Leram "O Crime do Padre Amaro"? Esta é uma guerra antiga. Porque é que dura para lá de todos os privilégios e poderes do clero?

O cristianismo é a principal matriz da cultura ocidental moderna. Muitas das opiniões ditas seculares vivem da sua secularização: tira-se Deus e aproveita-se o resto. Foi também o caso do laicismo revolucionário do século XIX: hoje, os seus herdeiros reclamam a paternidade da neutralidade confessional do Estado; o projecto, porém, não era esse, mas o de substituir o cristianismo por uma religião civil, completa com o equivalente ateu do culto, dos santos e da imortalidade. Por isso, o laicismo nunca conseguiu deixar de funcionar como uma espécie de anti-Igreja. A referência ao anti-semitismo pelo pregador do Papa, que causou tanto escândalo, é bastante apropriada: o laicismo está para o cristianismo como a antiga intolerância cristã para o judaísmo - condenada a negar e perseguir as suas origens.

A Igreja de Roma foi sempre a grande pedra no caminho laicista. Não é uma seita recente, nem assenta em superstições domésticas. Tem uma doutrina afinada pela filosofia grega e instituições moldadas pela religião cívica romana. Não foi possível varrê-lo para debaixo do tapete da vida privada. Com João Paulo II e Bento XVI, começou a perder a correcção política. Daí o ódio laicista a esses papas.

O laicismo viveu de fazer da religião uma coisa do passado. Mas no mundo da globalização, as tradições religiosas prosperam. Na Índia e na Turquia, a modernização das últimas décadas deveu-se a partidos confessionais, apoiados nas classes médias urbanas e reconciliados com a neutralidade religiosa do Estado (que não é o mesmo que laicismo). Em vez da norma, o laicismo europeu tornou-se a excepção. A Europa ocidental, o seu último bastião, está hoje como a África 'animista' do século XIX, destinada a terra de missão das grandes religiões. Os imigrantes muçulmanos impuseram-se já ao respeito. Um dia, será a vez dos indígenas cristãos. A anti-Igreja já não tem o 'progresso' do seu lado. A exploração mediática da pedofilia não a levará mais longe.

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010