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Expresso

Ricardo Costa

Uma lista de braço ao peito

Se Ferreira Leite passasse os olhos pela acusação do Ministério Público a António Preto ficava arrepiada. Não pelos factos de que pode estar inocente. Mas pela falta de seriedade que um simples acto demonstra.

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Confesso que a inclusão de António Preto nas listas do PSD não me surpreendeu. Tenho respeito e admiração por Manuela Ferreira Leite. Mas perco esse respeito e admiração sempre que ela se cruza com António Preto. E, ao contrário do que muitos pensam, a líder do PSD cruza-se com ele vezes de mais e há demasiado tempo.

Quando se trata de António Preto, Ferreira Leite perde o rigor e os princípios que habitualmente a norteiam. Transforma-se numa banal líder partidária, refém dos piores truques do caciquismo local, dos autocarros que partem para os comícios cheios de moradores dos bairros sociais, das quotas pagas por arrastão, dos sindicatos de voto, das malas em dinheiro vivo.

Custa a acreditar mas a história é simples: Ferreira Leite foi líder da distrital de Lisboa do PSD numa altura em que isso só acontecia com a ajuda de António Preto. Ele foi seu vice-presidente e acabou por lhe suceder. Ferreira Leite ficou-lhe grata para sempre. Mas é extraordinário que essa gratidão a cegue. E ainda mais extraordinário é o facto de ninguém lhe abrir os olhos.

Alguém sabe onde é que anda Rui Rio? Caro Rui Rio, Preto representa tudo aquilo contra o qual você luta há anos, aquilo que levou Marcelo a convidá-lo para secretário-geral e depois a afastá-lo, aquilo que apontava no PSD-Porto de Menezes, aquilo que desprezou no PSD nacional dos últimos anos. Aquilo a que Pacheco Pereira chamou o "gang do Multibanco". Aquilo que levou a 'elite' do PSD a massacrar Menezes e Santana. Aquilo que essa mesma 'elite' agora esquece e assobia para o ar a ver se passa.

O que diriam Rui Rio ou Pacheco Pereira se tivessem sido Luís Filipe Menezes ou Santana Lopes a colocar António Preto nas listas quando está acusado de fraude fiscal e falsificação e vai a julgamento este ano?

Admito que António Preto não seja condenado, apesar das escutas do processo serem esclarecedoras. Admito que o dinheiro que trazia na mala não era para pagar quotas dos militantes mas para prestar serviços de advogado, admito que os construtores civis lhe tenham dado o dinheiro em notas porque não tinham cheques, admito que o contrato de prestação de serviços seja posterior aos factos por esquecimento. Mas não admito que uma pessoa que engessa o braço com a ajuda de um familiar num hospital para faltar a uma perícia na Polícia Judiciária seja deputado. Mas vai ser.

Acreditem: nós vamos ter um deputado que no exacto dia em que tinha de se apresentar na Polícia Judiciária para um teste de caligrafia foi ter com um cunhado que é médico no Hospital de Santa Marta, no serviço de cirurgia vascular (!), para engessar um braço por completo, do ombro até ao pulso. A Ordem dos Médicos considerou que colocar o gesso foi "má prática clínica". Não consigo encontrar um adjectivo para classificar a prática do deputado. Mas consigo classificar a prática da lista do PSD: uma vergonha.

Ricardo Costa