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Ricardo Costa

Toma lá um Freeport, dá cá um submarino

O caso dos submarinos era o tampão de que o Governo estava à espera para estancar a ameaça de dissolução. Enquanto a espada pairar em cima de cabeças do CDS e do PSD, é muito arriscado provocar eleições.

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

São coisas que não se medem mas que se notam com facilidade. José Sócrates apareceu com outra cara esta semana no Parlamento. Apesar de estar visivelmente cansado e de continuar atolado num mar de contradições (ler o programa eleitoral do PS é, nos dias que correm, um exercício que nos transporta para uma realidade paralela), o primeiro-ministro pôde enfrentar o hemiciclo, sobretudo as bancadas do PSD e do CDS, e pensar: "Então, não perguntam nada sobre os submarinos?".

É claro que o PSD e o CDS não fizeram uma única pergunta sobre o caso. Diligentes a fazer perguntas sobre o Freeport, escolheram o silêncio neste caso. Rápidos a citar a justiça inglesa, preferiram ignorar a justiça alemã. Outrora zelosos a suspeitar de intermediários, esqueceram-nos agora. Só o Bloco é que fez perguntas. Curioso.

Este caso traz enormes vantagens ao Governo. Primeiro, envolve valores astronómicos. Num país que se emociona com um sucateiro que corrompe com centros de mesa, garrafas de uísque e caixas de robalos, um caso de submarinos é bem mais importante. Não se trata de um exercício de relativismo moral. Corromper é sempre um crime. Mas os submarinos são um caso da Champions. O sr. Godinho é da Liga Vitalis.

Em segundo lugar, representa um argumento relevante nas despesas do Estado. Por mais argumentos militares e estratégicas que existam, a compra de dois submarinos por 880 milhões de euros faz sempre lembrar as excentricidades de um aristocrata falido. Os submarinos são o TGV do PSD e do CDS. Todos sabemos que vinham de trás, que passaram por Guterres. Mas quem comprou foi o governo Durão-Portas.

Em terceiro lugar, este caso representa uma óbvia torrente de notícias, de fugas de informação e afins. O CDS e uma boa parte do PSD vão rever o filme mau por que passaram nos casos da Moderna e dos sobreiros. O remake não será ternurento. Cansado do Freeport e da 'Face Oculta', Sócrates aproveitará, no mínimo, para respirar fundo. E sabe que, por uns tempos, não o vão atacar. Não podem.

A última questão é a mais relevante. Com este caso em aberto o CDS não pode arriscar ir para eleições antecipadas. E o PSD, apesar de ter um líder sem currículo governamental (uma vantagem nos tempos que correm), fica imediatamente com menos vontade. Os submarinos passaram a ser um inesperado seguro de vida para Sócrates. Toma lá um Freeport, dá cá um submarino. É uma nova guerra fria, assente numa Justiça que caça políticos em câmara lenta.

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010