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Ricardo Costa

O roteiro de Cavaco

Com Passos Coelho instalado no PSD e Portas como inquilino eterno do Largo do Caldas, Cavaco Silva tem o cenário perfeito para a reeleição.

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

Houve muita gente que não hesitou em apontar Cavaco Silva como o grande derrotado da eleição de Pedro Passos Coelho. Por mais voltas que dê à cabeça não consigo perceber porquê. Os argumentos são demasiado básicos: Cavaco e Passos não se dão bem, Cavaco gostou de ser a sombra tutelar de Sócrates (enquanto durou), teria tutelado o PSD no consulado de Manuela Ferreira Leite e lutou desesperadamente pela eleição de Paulo Rangel. Com todo o respeito, acho que os analistas que subscrevem esta teoria falham em toda a linha. Sobretudo, porque as premissas estão erradas.

Começo pelo fim. A eleição de Passos Coelho foi a melhor notícia que Cavaco Silva recebeu nos últimos tempos. A chegada de Manuela Ferreira Leite à São Caetano provocou sempre um óbvio incómodo entre o Presidente e a líder do PSD. Amigos de muitas décadas, muito próximos e com a mesma 'escola' política e económica, era demasiado fácil achar ou pensar que o que um dizia era o que outro pensava. E vice-versa. Muita gente apostava que eles 'combinavam' os seus actos, pensamentos ou omissões. Eu, por acaso, acho que não. A inacreditável trapalhada das escutas, onde houve óbvia mão de gente de Belém, convence todos do contrário. Mas a mim não me convence.

Se, por um misterioso acaso, o PSD tivesse vencido as últimas eleições, Cavaco Silva estava metido num enorme problema. A presidencialização do regime teria chegado de um dia para o outro sem ninguém a pedir: os portugueses olhariam agora para Cavaco como um Presidente que governava e encontrariam em Manuela Ferreira Leite uma extensão do Palácio de Belém. Seria uma coisa tipo Putin-Medvedev ou Sarkozy-Fillon. Por mais sérios que fossem, por mais distâncias que mantivessem (e acredito nisso), estariam os dois metidos num sarilho.

Com Passos Coelho instalado no PSD e Portas como inquilino eterno do Largo do Caldas, Cavaco Silva tem o cenário perfeito para a reeleição. Sabe que os dois partidos e os dois líderes estão obrigados a apoiá-lo. Mas não terá que negociar com eles uma linha, uma ideia ou uma sinecura que seja.

Ao contrário de Manuel Alegre, que ainda vai ver o PS e o Bloco discutirem internamente se ele é o candidato certo, Cavaco Silva pode ignorar olimpicamente os partidos que o apoiam. Fará o seu caminho sozinho, com os seus, distante da vida interna dos partidos, como sempre fez e sempre gostou de fazer. É assim que a sua reeleição será traçada. É claro que isso não resolve o Governo. Mas isso não é um problema dele. É nosso. E isso vê-se depois.

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010